Artigo: Uma universidade de ensino, pesquisa e cultura

Leia o artigo do reitor Marco Antonio Zago, publicado no jornal O Estado de S. Paulo, em 25 de janeiro de 2014.

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A Universidade de São Paulo (USP) completa 80 anos. Deve enfrentar os desafios do presente para cumprir e atualizar a diversidade da missão – surpreendentemente moderna – que lhe foi atribuída por seus fundadores: ela devia ser, ao mesmo tempo, escola de formação profissional de elevada qualidade; instituto de pesquisa de ciências, letras e filosofia; local de formação das lideranças intelectuais e de preservação, compreensão e transmissão da cultura.

Essa universidade se revelou um projeto político e estratégico bem-sucedido ao qual vieram agregar-se as outras duas universidades estaduais, a Fapesp, institutos de pesquisa, o Centro Paula Souza e a Univesp, como instrumentos de uma política que pôs o Estado de São Paulo em posição de liderança no País na produção intelectual e na formação de pessoal qualificado de nível superior.

As universidades existem para prover educação superior de excelência às novas gerações e para promover a pesquisa, entendida em sentido amplo: investigação experimental e tecnológica; pesquisa das questões econômicas, sociais e políticas; e da produção da cultura e da arte em todas as suas formas de expressão.

Uma universidade de alto padrão acadêmico não pode, porém, tratar suas missões tradicionais, ensino e pesquisa, como compartimentos estanques. As duas atividades devem ser desenvolvidas de forma articulada. Nas palavras de Karl Jaspers, “a universidade é uma escola de um tipo muito especial. Não deve ser vista apenas como um local de instrução; ao contrário, o estudante deve participar ativamente da pesquisa e, desta experiência, ele deve adquirir a disciplina intelectual e a educação que permanecerão com ele pelo resto de sua vida. Idealmente, os estudantes pensam de maneira independente, ouvem criticamente e são responsáveis perante si mesmos. Eles têm liberdade de aprender”.

Pela natureza de sua missão e seus interesses, as universidades são entidades que transcendem as fronteiras nacionais, tratando de questões valorizadas universalmente, em todas as sociedades e nas mais diferentes épocas. Não se alcançará a internacionalização, porém, por meios artificiais ou burocráticos, mas principalmente pela excelência acadêmica. Somente universidades reconhecidas como centros de conhecimento atrairão os jovens do nosso mundo globalizado.

Adicionalmente às suas missões clássicas, ensino superior e pesquisa, na última década fortaleceu-se o reconhecimento da chamada “terceira missão”, que inclui as relações das universidades com seus parceiros não acadêmicos. Divergindo da característica transnacional do ensino e da pesquisa universitários, a terceira missão leva a universidade a tornar mais forte seu vínculo com as comunidades locais e regionais, expostas hoje às mudanças rápidas ou inesperadas, como globalização, mudanças climáticas, incertezas econômicas e rápidas transformações tecnológicas. A universidade deve contribuir com o poder público para responder aos difíceis problemas derivados da concentração populacional em grandes metrópoles, da mudança rápida do perfil etário e de consumo da sociedade, bem como da crescente substituição da economia baseada em mão de obra e riquezas naturais por uma sociedade de informação e do conhecimento.

A USP não se furtará a tais responsabilidades. Mas, há que reconhecer, ela se encontra hoje sob fortes pressões. De um lado, precisa responder vigorosamente às crescentes e legítimas demandas sociais. De outro, sofre um desequilíbrio financeiro que pode pôr em risco sua autonomia e, mais grave ainda, vem sendo ameaçada pela corrosão do tecido mesmo da universidade, tanto por movimentos de protesto que se têm transformado em agressões ao patrimônio e às pessoas como pela intolerância ao diálogo.

Como reagir a isso?

Primeiramente, aumentando a contribuição da USP à sociedade paulista: precisamos fazer mais e melhor. Precisamos melhorar a qualidade e reduzir a evasão de nossos cursos de graduação, reavaliar o sistema de acesso e acompanhar o progresso da inclusão social e racial, construindo as intervenções que forem necessárias. A USP Leste e o câmpus de Lorena serão dois motivos adicionais de orgulho da USP e devem ter impacto positivo nas regiões onde estão instalados, da mesma forma que tiveram nossos câmpus de Ribeirão Preto, São Carlos, Piracicaba, Bauru e Pirassununga. Precisamos ampliar nossa relação com os setores produtivos e governamentais, participar da articulação e implantação de parques tecnológicos.

Em segundo lugar, vamos modificar radicalmente a gestão de recursos financeiros, reformar e modernizar a administração para valorizar as atividades-fim. Uma simples mudança de currículo não deve exigir interminável ritual de rediscussões e múltiplas aprovações. A gestão comedida de recursos financeiros restritos nos obrigará à sobriedade administrativa e à reavaliação de nossas prioridades, privilegiando as atividades acadêmicas em relação à expansão de obras físicas.

Finalmente, temos compromisso com a revisão da governança da USP. Estimularemos a redefinição das relações de poder no âmbito da universidade, de forma a aumentar a agregação interna, num processo de democratização que avance muito além do mecanismo de escolha do reitor. Uma democratização que inclua o compartilhamento de responsabilidades entre a Reitoria e as unidades acadêmicas, maior transparência na gestão do orçamento e restabelecimento do papel central dos órgãos colegiados.

Mas não resta nenhuma dúvida de que a nossa tarefa mais urgente é reconstruir as relações entre estudantes e professores, em todas as suas dimensões. Essa será a base da mudança que ocorrerá na USP: somos educadores e seremos julgados pelo êxito que alcançarmos nesse mister. Os jovens que formaremos vão atestar se a USP, quando se aproxima de seu centenário, está realmente cumprindo a missão projetada por seus fundadores.

(Artigo do reitor Marco Antonio Zago, publicado no jornal O Estado de S. Paulo, em 25/01/14)

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