Revista ARS lança “Histórias da Arte Sem Lugar”

A edição do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da ECA-USP questiona o espaço da cultura nos dias de hoje

 26/11/2021 - Publicado há 2 meses
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José Resende. Sem título, projeto Arte/Cidade, 2002. Instalação temporária com vagões de trem e cabo de aço, São Paulo- Foto: Christiana Carvalho

Os desafios e dilemas das artes visuais são discutidos na edição especial da revista ARS, do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Escola de Comunicações e Artes da USP – ECA/USP. Nesta edição 42, Histórias da Arte Sem Lugar, autores brasileiros e estrangeiros propõem em artigos inéditos a reflexão e o exame da disciplina História da Arte à luz dos principais temas que se apresentam hoje ao campo da arte.

“Fundamentalmente, perguntamos sobre a relevância, ou não, da História da Arte no debate contemporâneo da arte e da cultura motivados pela constatação de que as últimas décadas testemunharam o surgimento de novas práticas de escrita sobre arte, dificilmente assinaláveis ao modelo tradicional da disciplina”, justifica o editorial assinado pelos professores Sônia Salzstein, Liliane Benetti, Leonardo Nones e Lara Rivetti.

Georgios Klontzas, Tríptico del Juicio Final (detalle), 1565. Temple sobre tabla - Foto: Istituto Ellenico di Studi, Venecia

A revista reúne artigos que trazem referências em diversos estudos. Desde a introdução, o leitor/pesquisador vai se deparar com uma análise dos pensadores, artistas e também dos museus e instituições. Pensar contra si: tarefa aos historiadores da arte hoje, de Sônia Salzstein, professora titular de História da Arte Moderna e Contemporânea e de Teoria da Arte na ECA/USP, abre a ampla discussão. “No cenário contemporâneo, onde até meados dos anos 1970 ainda perdurava uma ordem mundial basicamente herdada à guerra fria (embora confrontada por turbulências constantes desde a década de 1960), mudanças profundas no mundo capitalista global haviam tomado ritmo acelerado e radical a partir da década de 1980, com implicações decisivas no campo da arte”, observa.

A edição segue com artigos e ensaios inéditos de Kaira Cabañas, Roberto Conduru, Catherine Dossin, Patrícia Corrêa, Thierry de Duve, Flávio Thales Ribeiro Francisco, Annateresa Fabris, Priscilla Sachettin, Paula Nogueira Ramos, Sergio Martins, Vera Beatriz Siqueira, entre outros.

A revista pode ser acessada  gratuitamente no link:

https://www.revistas.usp.br/ars

“De todo modo, motivada por essa força simbólica do acidente de Brumadinho, gostaria de pensar em outra forma de escrever uma história da arte moderna no Brasil […]”

São 1.328 páginas. O leitor/pesquisador pode atravessar devagar e atenciosamente pelos temas dos artigos. Perceber a trajetória das artes espelhando o tempo e a ação humana. Vera Beatriz Siqueira, professora associada do Instituto de Artes da  Universidade do Estado do Rio de Janeiro, traz um assunto sobre os problemas ambientais recentes no País. O artigo Sobra o que sempre existiu: arte moderna e ecologia no Brasil investiga a relação entre arte e pensamento ecológico. “De todo modo, motivada por essa força simbólica do acidente de Brumadinho, gostaria de pensar em outra forma de escrever uma história da arte moderna no Brasil, tomando como ponto de partida a sua relação com o meio ambiente”, assinala a autora. “A primeira parte do artigo fala da representação da natureza tropical e de como essas imagens, disseminadas globalmente a partir do século 19, foram responsáveis pela transformação da natureza brasileira em uma paisagem. A segunda lida com a questão da relação entre natureza local e tradições populares ou vernáculas, que funcionariam como fontes para o pensamento ecológico desenvolvido por artistas modernos brasileiros.”

Capa Ars 42: Histórias da Arte Sem Lugar - Foto: Reprodução

África, Brasil e arte: persistentes desafios, de Roberto Conduru, historiador da arte e professor na Southern Methodist University, nos Estados Unidos, analisa obras de Abdias do Nascimento, Clarival do Prado Valladares, Marianno Carneiro da Cunha e Emanoel Araujo, entre outros autores. O artigo discute limites e impasses da concepção inclusiva de “arte negra”, delineada a partir da década de 1950, e de “arte afro-brasileira”, consolidada a partir dos anos 1980, bem como problemas postos à historiografia pela persistência desse modelo generalizante e pelo caráter excludente do circuito de arte no Brasil, que as trajetórias e obras de Mestre Didi e de Hélio Oiticica continuam desafiando.

“O panorama que tais obras oferecem é bem variado e contribui para trazer à luz muitos nomes pouco conhecidos e para celebrar o papel das mulheres na história da arte.”

Em busca de um lugar: duas fontes pouco exploradas da história das artistas mulheres é a pesquisa de Annateresa Fabris, professora titular da ECA-USP. “Uma leitura atenta de Women Artists in all Ages and Countries, 1859, e English Female Artists ,1876, demonstra que Elizabeth Ellet e Ellen Clayton não se limitam a endossar categorias patriarcais sobre a produção artística feminina”, relata. “Ao contrário, suas compilações biográficas problematizam algumas temáticas gerais, tais como condições de vida e de educação, existência de um estilo ‘feminino’, dentre outras. O panorama que tais obras oferecem é bem variado e contribui para trazer à luz muitos nomes pouco conhecidos e para celebrar o papel das mulheres na história da arte.”

Aleta Valente, Ascensão Social, 2015. Impressão pigmentada sobre papel Canson, 53 x 91 x 4 cm - Foto: Cortesia Galeria A Gentil Carioca

Um artigo para repensar os caminhos da fotografia é Selfie: o autorretrato do sujeito contemporâneo, de Paula Braga, professora e historiadora de arte da Universidade Federal do ABC. “As redes sociais são lugares de exibição de fotografias amadoras e campo de experimentação artística. São também dispositivos que impactam a subjetividade e a democracia, beneficiando interesses do neoliberalismo, e que geraram um novo capítulo na história da fotografia, a selfie, cujo estudo exige uma metodologia interdisciplinar”, explica. “Este artigo propõe que a selfie remete à auto-objetificação. Esta hipótese é investigada referindo-se à  teoria da fotografia de Philippe Dubois, a conceitos da psicanálise e a diagnósticos de Achille Mbembe e Giorgio Agamben sobre os efeitos do capitalismo avançado na subjetividade. Por fim, analisa a selfie nas obras de Amalia Ulman, Aleta Valente e Cindy Sherman, discutindo os limites das redes sociais como lugar de circulação da obra de arte.”


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