Curso retrata o cinema brasileiro dos séculos 20 e 21

Em conferências no Sesc, professores da USP contam a história do cinema nacional a partir de 1920

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Ganga Bruta (1933), de Humberto Mauro: muito criticado em seu lançamento, em 2015 entrou em lista dos cem melhores filmes brasileiros de todos os tempos – Foto: Cinédia / Domínio público via Wikimedia Commons

O curso O Cinema Brasileiro Sob uma Perspectiva Histórica, que será realizado entre os dias 4 de junho e 30 de julho, no Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc, vai traçar o perfil da produção cinematográfica brasileira nos séculos 20 e 21. Entre os palestrantes estão os professores da USP Ismail Xavier, Carlos Augusto Calil, Eduardo Morettin e Mateus Araújo. O projeto é da Cinemateca Brasileira e da Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC), com supervisão de Ismail Xavier.

A primeira aula, no dia 4 de junho, será ministrada pelo professor Eduardo Morettin, que leciona História do Audiovisual na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. O tema é O Documentário Brasileiro nos Anos 1920 e 1940: Dos naturais ao cinema educativo, que vai apresentar a produção documental relativa ao período do cinema mudo. Segundo Morettin, serão analisados alguns filmes fundamentais, como No País das Amazonas (1922), do cineasta Silvino Santos, “que, de certa maneira, representa uma tendência do documentário calcado na valorização daquilo que é tido como distintivo do Brasil dentro do cenário mundial, a nossa natureza exuberante”. Por outro lado, o professor analisará também uma produção documental que o crítico Paulo Emílio Salles Gomes chamou de “ritual do poder” – filmes preocupados em retratar as dinâmicas que envolviam as elites. Um deles é São Paulo, Sinfonia da Metrópole (1929), dos húngaros Rudolf Rex Lustig e Adalberto Kemeny.

Em sua segunda aula, no dia 11, Humberto Mauro: da Produção Regional aos Filmes de Caráter Educativo, Morettin – autor do livro Humberto Mauro, Cinema, História (2012, Alameda Editorial) – vai tratar da produção do cineasta mineiro, tanto ficcional quanto documental. O cineasta é detentor de uma produção ficcional expressiva, desde o período em que iniciou sua carreira em Cataguases (MG) até quando se muda para o Rio de Janeiro e trabalha na Cinédia, produtora criada em 1930, com especial destaque para Ganga Bruta (1933). “Nos anos 30, dentro de um outro momento histórico, quando o cinema passa a ser uma preocupação de fato do Estado, Humberto Mauro é nomeado diretor técnico do Instituto Nacional de Cinema Educativo, o Ince, vinculado ao Ministério da Educação e Saúde, e realiza centenas de documentários até os anos 60, uma característica peculiar, tendo em vista a história do Brasil”, diz Morettin.

O Cangaceiro (1953), escrito e dirigido por Lima Barreto, com diálogos criados por Rachel de Queiroz, um dos sucessos da Vera Cruz – Foto: Reprodução via Youtube / Cinemateca Popular Brasileira: Filmografias & Cronologias

O professor Carlos Augusto Calil, do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da ECA, vai ministrar duas aulas do curso O Cinema Brasileiro Sob uma Perspectiva Histórica. Numa delas, no dia 25 de junho, intitulada A Vera Cruz e o Mito do Cinema Industrial, ele vai falar sobre a empresa de industriais italianos, fundada em 1949, em São Bernardo do Campo (SP), com a promessa de ser um eficiente estúdio cinematográfico, mas que só funcionou por cinco anos, tendo seu apogeu com o lançamento de O Cangaceiro e Sinhá Moça, quando já estava falida. A outra aula de Calil será Chanchada: o Cinema Brasileiro nos Braços do Público, em que vai tratar da Atlântida, empresa carioca fundada nos anos 1940 para produzir filmes de alcance social, mas que teve que adotar as comédias populares para se reerguer. Nos anos 50, a Atlântida lançou regularmente uma ou duas chanchadas por ano, conquistando o público, mas não a crítica.

O cinema nos anos de chumbo

“Se Terra em Transe, filme de 1967, drama com roteiro e direção de Glauber Rocha, ofereceu a resposta mais vigorosa do cinema brasileiro moderno ao golpe de 1964, um leque variado de propostas a desdobrou ou coexistiu com ela entre 1967 e 1974”, afirma o professor Mateus Araújo, do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da ECA, que vai explorar esse tema em duas aulas, intituladas Experimentações do Cinema Moderno nos Anos de Chumbo (1967-74) e previstas para os dias 10 e 11. Nelas, Araújo vai analisar filmes que reagiram à ditadura, privilegiando muito mais o valor estético do que o cinema de mercado.

Cara a Cara (1967), primeira ficção de Júlio Bressane – Foto: Reprodução via Youtube / benfl0gin

São obras singulares de diretores como Júlio Bressane, Cara a Cara (1967), por exemplo, que estabelece um diálogo com Terra em Transe, e Gustavo Dahl, com O Bravo Guerreiro (1969), que trata dos acordos políticos de gabinete, como cita Araújo. No segundo momento, serão analisados filmes que investiram na experimentação radical, associando-a frequentemente à confrontação política, entre eles o clássico O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, O Jardim das Espumas (1970), de Luiz Rosemberg Filho, e Triste Trópico (1974), de Arthur Omar.

Dos anos 1970 até o cenário atual

O tema O Período da Embrafilme Coprodutora e Distribuidora: o perfil temático e estético do cinema ao longo dos anos 1970-1980 também está dividido em duas aulas e será assunto do professor Ismail Xavier. Na primeira aula, no dia 16, o professor vai tratar das formas de marginalidade ou de inserção do Cinema Novo e de outras vertentes na política da Embrafilme, com o incentivo aos filmes históricos e às adaptações literárias, entre eles Os InconfidentesSão Bernardo, Dona Flor e seus Dois Maridos e Iracema, além da comédia erótica e seu público. Na segunda aula, no dia 18, além de apresentar o tema recorrente da crítica da família patriarcal, Xavier vai abordar a tensão entre inovação estética e o sucesso do mercado exibidor, a proposta de um novo cinema popular (O Amuleto de Ogum), os documentários (as greves do ABC e a memória camponesa) e o cinema da Nova República antes do colapso da produção, em 1990.

São Bernardo (1971), drama dirigido por Leon Hirszman, com roteiro baseado no romance homônimo de Graciliano Ramos – Foto: Reprodução via Youtube / Sagler Ceiomed

No curso, serão apresentadas ainda as aulas A Trajetória de Luiz de Barros: Relações do Cinema com Outras Mídias e Práticas CulturaisO Trabalho da Mulher no Cinema Brasileiro (1920-1940), com Luciana Corrêa de Araújo, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar); Entre o Artesanato e a Indústria: o Cinema de Ficção no Brasil (1920-1949) e Cultura Cinematográfica e Vanguarda (1920-1949), com Arthur Autran, também da Ufscar; Cinema Novo I, pré-64: Rumo à Revolução e Cinema Novo II, Pós-64: o Trabalho de Luto, com Leandro Saraiva, doutor em Cinema pela ECA; e, finalmente, Cinema da Retomada e Cenário Atual, com Luiz Carlos Oliveira Jr., também doutor pela ECA.

O curso Cinema Brasileiro Sob uma Perspectiva Histórica será realizado de 4 de junho a 30 de julho, às segundas, terças e quartas-feiras, das 19 às 21h30, no Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc (Rua Doutor Plínio Barreto, 285, 4º andar, Bela Vista, em São Paulo). Mais informações no site do Sesc.

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