Pesquisador reflete sobre permanência das práticas tradicionais de cura

Artigo propõe questionamento sobre uso dessas práticas na contemporaneidade, apesar dos avanços médicos

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Uso da “garrafada” se mantém pelo País – Foto: Rodrigo Barros Gewehr

Normalmente, quem está doente é invadido pelos sentimentos de solidão, desamparo e de impotência perante as vicissitudes da vida. Debelar o sofrimento ocasionado pelas dores físicas, psíquicas ou emocionais é uma preocupação que atravessa os tempos e também é o objetivo das práticas curativas, que envolvem elementos da natureza como ervas, chás, benzeduras e rituais repletos de simbologia, ao passo que a medicina dita tradicionalmente científica sempre se preocupou mais com os males estritamente físicos do ser humano.

Ao longo da história observa-se a figura do médico misturada com a do sacerdote, “cujas práticas de cura, envolvidas em rituais extraordinários, tornavam­-nos conhecidos como mediadores entre o homem e os deuses, ou entre o homem e a natureza, pois a capacidade de curar doenças transformava-os em detentores do poder sobre a vida e a morte“, conta o artigo de Gewehr, Baêta, Gomes e Tavares, publicado na revista Psicologia USP, que aborda a pesquisa sobre as práticas tradicionais de cura, propondo um questionamento sobre sua “permanência e eficácia na contemporaneidade, apesar dos avanços na área da ciência médica” e sobre as lacunas que a medicina ainda não preencheu.

Hoje, a prioridade da clínica médica é o diagnóstico da doença e da lesão e sua respectiva causa. “Em suma, ataca­-se matéria com matéria“. E mais: “Falta ao médico a habilidade para dar conta do mesmo homem em sua totalidade”. O médico precisa incluir os fatores psicológicos, sociais e culturais na relação saúde-­doença e dispor ao paciente elementos “que proporcionem não apenas uma forma terapêutica, mas  também o ‘ser cuidado‘”. As “medicinas alternativas” que se instituíram como paralelas ou complementares à medicina dita científica são encontradas em todo o planeta, já na segunda metade dos anos 1970, chegando ao ápice na década de 1980.

As benzedeiras são figuras tradicionais em diversas regiões – Foto: Rodrigo Barros Gewehr

A partir da segunda metade do século, observam-se  novos paradigmas para cura e saúde, tendo em vista três grandes grupos de prática médica na América Latina: “A medicina tradicional indígena, a medicina de origem afro­-americana e as medicinas populares derivadas de sistemas médicos altamente complexos“. A ideia da relação de harmonia entre homem e natureza é um marco determinante das práticas de cura propostas pelas medicinas tradicionais indígena e chinesa, a xamânica, a afro­-americana, a ayurvédica, e a homeopatia. Essas práticas que se tornaram alternativas ainda resistem nas figuras dos curandeiros e rezadores tradicionais, apesar dos avanços da clínica médica. Para os autores, falar em saúde é falar da cura dos diversos aspectos do ser humano.

Quando os pacientes encontram acolhimento e sentem-se confortáveis e satisfeitos com o tratamento para o problema que estão enfrentando, a dor se torna suportável. A pesquisa dos autores mostra que a medicina tradicional tem proposto uma forma terapêutica para o processo saúde­-doença que leva em conta a totalidade do sujeito doente, tratado em seus aspectos materiais e espirituais.  E “é nesse ponto que a medicina científica parece perder sua voz, e talvez esteja exatamente aí o aspecto valorizado pelas práticas tradicionais de cura e que garantem sua vitalidade mesmo num mundo dominado por técnicas refinadas“.

Rodrigo Barros Gewehr é pesquisador da Universidade Federal de Alagoas, do Instituto de Psicologia.

Jéssica Baêta é pesquisadora da Universidade Federal de Alagoas, do Instituto de Psicologia.

Emanuelle Gomes Raphael Tavares é pesquisadora da Universidade Federal de Alagoas, do Instituto de Psicologia.

GEWEHR, Rodrigo Barros et al. Sobre as práticas tradicionais de cura: subjetividade e objetivação nas propostas terapêuticas contemporâneas. Psicologia USP, São Paulo, v. 28, n. 1, p. 33-43, 2017. ISSN: 1678-5177. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/psicousp/article/view/130683>. Acesso em: 27 abr. 2017.

Margareth Artur / Portal de Revistas da USP

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