Desmame precoce de filhotes afeta química cerebral materna

Durante lactação, aumentam níveis de proteína que regula comportamento alimentar, sono e estresse, e o desmame precoce poder causar desequilíbrios

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Muito já se sabe sobre os benefícios da amamentação para a saúde dos filhotes. O que pouco se fala – talvez devido às escassas pesquisas que tratam do tema – é o quanto o cérebro das fêmeas sofre alterações quando seus filhotes começam o processo de desmame e qual a repercussão do desmame precoce no comportamento delas.

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Os níveis de orexina, neuromodulador ligado ao comportamento alimentar, ao sono e ao estresse, aumentam
 durante a lactação. Conforme o desmame avança, os níveis caem até voltar à normalidade, ao final do período.
Cientistas constataram que o desmame precoce afeta esse processo – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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Uma recente contribuição para esse entendimento veio de uma tese de doutorado realizada com ratas no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. Os pesquisadores constataram que os níveis de orexina, neuromodulador ligado ao comportamento alimentar, ao sono e ao estresse, aumentaram durante a lactação. Conforme o desmame avançou, os níveis foram caindo até voltar à normalidade, ao final do período.

Em ratos, os dentes começam a nascer no 14º dia de vida. O desmame tem início no 15º dia – os filhotes já andam, enxergam, ouvem e se alimentam de sólidos – e termina no 22º dia – a cria deixa de interagir com a mãe.

Pesquisadores utilizaram o método de marcação neuronal para analisar as células cerebrais – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Quando os pesquisadores promoveram o desmame precoce e impediram os filhotes de continuar mamando, as fêmeas ficaram, no 22º dia, com a mesma quantidade de orexina que tinham no 15º dia. “Níveis mais elevados de orexina no cérebro podem levar a distúrbios de sono, como insônia, aumento do estresse e até, possivelmente, depressão, em resposta a esse estresse mais alto”, destaca o autor do estudo, o neurocientista Giovanne Baroni Diniz. Ele lembra que, na narcolepsia (sonolência excessiva), os níveis desse neuromodulador estão muito baixos.

A pesquisa foi realizada no Departamento de Anatomia do ICB, sob a orientação do professor Jackson Cioni Bittencourt. As descobertas foram consideradas tão relevantes que fizeram o neurocientista receber um convite para defender a tese na Maastricht University, na Holanda, no último mês de dezembro, sob a supervisão do professor Harry W. M. Steinbusch, obtendo assim a dupla-titulação.

O aumento da orexina na amamentação é justificado pois a fêmea precisa estar mais atenta para proteger os filhotes e esse neuromodulador promove exatamente isso – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

“Em termos funcionais, a pesquisa traz dados novos ao demonstrar a função da orexina na lactação e no desmame, levando a alterações neuronais de grande magnitude no cérebro materno”, explica o neurocientista. O aumento desse neuromodulador durante a amamentação é justificado pois a fêmea precisa estar mais atenta para proteger os filhotes e a orexina promove exatamente isso. Já em uma fêmea virgem, conta a pesquisador, o número de neurônios ligados ao neuromodulador é parecido com o de ratas com filhotes no final do desmame.

Experimentos

 

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No laboratório, os cientistas promoveram o desmame precoce de filhotes aos 15, 17, 19 e 21 dias de vida. Logo em seguida, eles analisaram o cérebro das respectivas mães, especificamente na região do hipotálamo, que é muito importante para a lactação e é onde ficam os neurônios ligados à orexina. Eles utilizaram a proteína FOS como marcador, pois ela sinaliza aos cientistas que aquele neurônio estava ativo uma ou duas horas antes da análise. Desta forma, os pesquisadores podem ter a certeza de qual deles estava ativado no momento do desmame.

Ao analisar o cérebro dos animais, eles observaram altos níveis de orexina ativados, em quantidade superior ao encontrado no grupo controle (ratas virgens). O pesquisador destaca que, no hipotálamo, a orexina se divide localmente em dois grupos: na parte lateral, estão os neurônios que atuam no comportamento alimentar e de recompensa. E na parte medial (no centro) ficam os associados com a atenção (estresse) e o sono. No experimento, eles perceberam que as células de orexina ativas estavam praticamente todas na região medial.

O vídeo abaixo mostra a reconstrução em 3D do hipotálamo. Em amarelo, estão destacadas as células orexina ativadas horas antes na região medial.

Os resultados do estudo apontam para a necessidade de os médicos prestarem muita atenção nas mães que interromperam a amamentação. “O médico deve ficar atento a mudanças no padrão de sono ou de alterações emocionais que persistam por um longo tempo, pois esta mãe pode não ter tido o retorno à normalidade”, sugere.

Giovanne Diniz diz que há muita coisa que não se sabe sobre o sistema nervoso e o processo de lactação e gestação. “É uma área que tem muito espaço para desenvolvimento de pesquisas. Historicamente, na ciência, houve uma tendência a não usar cobaias fêmeas. Muito trabalhos olham somente machos. Por isso, em termos de saúde da mulher, em termos de compreensão dos mecanismos fisiológicos da mulher, a gente sabe menos”, destaca.

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MCH: Hormônio concentrador de melanina

Ao iniciar a pesquisa de doutorado, o neurocientista Giovanne Diniz partiu da análise de artigos científicos que mostravam alterações cerebrais durante a gestação e a lactação. Foram detectadas cerca de 20 substâncias. Entre elas, estava o hormônio concentrador de melanina, o MCH. Em humanos, ele atua como neuromodulador, ou seja, é produzido por neurônios para alterar o funcionamento de outros neurônios.

Lista com as substâncias cerebrais que sofrem alterações durante a lactação e desmame e que foram estudadas na pesquisa do ICB – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Os cientistas levantaram a hipótese de que o MCH poderia estar associado à lactação pois aparece um grupo desses neurônios no hipotálamo de ratas fêmeas no final do aleitamento. O mesmo não ocorre em machos, ratas prenhes, no início do período, e nem depois, quando os filhotes desmamam. Entretanto, após os vários experimentos, os pesquisadores acabaram descobrindo que é a orexina – e não o MCH – que exerce uma atuação mais específica na lactação e no desmame.

Dupla-titulação

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A tese a ser defendida no ICB aborda a atuação do MCH no organismo e, especificamente, em como ele se comunica com as outras células do sistema nervoso. Já a orexina foi o tema da tese defendida na Maastricht University.

Giovanne Diniz conta que os pré-requisitos para defender a tese na Holanda foram: ser o primeiro autor de três papers sobre a pesquisa e que os papers da tese de lá não poderiam entrar no trabalho da USP. O biomédico escreveu a tese, mandou para um comitê avaliador da Maastricht e eles aceitaram o trabalho.

Os resultados da pesquisa do neurocientista Giovanne Barone Diniz foram tão relevantes que ele foi convidado a defender a tese em uma universidade holandesa, obtendo, assim, a dupla-titulação – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

E sem precisar cursar nenhuma disciplina na universidade holandesa, Giovanne Diniz obteve o título de doutorado pela Maastricht University. Quanto à defesa no ICB, a previsão é que ocorra até o segundo semestre deste ano. Depois disso, Diniz terá dupla-titulação no doutorado: uma pela universidade holandesa e a outra pela USP.

A tese defendida na Holanda está disponível neste link: https://doi.org/10.26481/dis.20181218gd

Mais informações: e-mails giovanne.diniz@usp.br ou baroni.giovanne@gmail.com

 

 

 

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