Prevenção é passo importante para garantir saúde mental dos policiais

Fernanda Cruz ressalta que o quadro de violência que o policial sofre e pratica tende a afetar o seu equilíbrio mental

A violência policial brasileira não é apenas um problema que surge quando diversos casos são midiáticos, com claras agressões e crimes praticados com abusos de força, principalmente para a população negra e periférica. A polícia no Brasil, que é a que mais mata e morre em todo o mundo, também sofre com outro importante aspecto: saúde mental. Para abordar a temática, o Jornal da USP no Ar conversou com Fernanda Novaes Cruz, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP e do Grupo de Estudos de Pesquisa em Suicídio e Prevenção (Gepesp).

Estudando O suicídio e os profissionais de segurança pública quando estava no Rio de Janeiro, juntamente com a pesquisadora e coordenadora da Gepesp, Dayse Miranda, Fernanda revela que a intenção foi pensar nesses agentes para além da violência. “O que se passa na vida dessas pessoas? O que elas têm? Foi muito difícil fazer essa pesquisa, porque as instituições não acreditavam que existia esse problema [de saúde mental] internamente”, explica. Somada a essa negação, elas enfrentaram a escassez de dados sobre suicídio entre policiais e também o tabu da sociedade em tratar a problemática.

As pesquisadoras constataram que o quadro de violência que o policial pratica e, possivelmente, sofre internamente nas corporações não passa despercebido em suas vidas. Policiais que decidem tirar suas vidas geralmente passam por algum episódio de homicídio praticado anteriormente no trabalho ou em suas relações, possuem medo de se exporem e ficam em constante estado de alerta, além da convivência em um ambiente de trabalho tóxico com seus colegas e até mesmo transferências de local de trabalho como forma de punição. Fora isso, há a observância da facilidade de um instrumento de trabalho, arma de fogo, que pode levar à consumação do suicídio.

No total, foram aplicados 224 questionários com 211 entrevistas dos respondentes policiais militares do Rio de Janeiro. Após isso, eles foram classificados em três categorias: os que haviam tentado suicídio (10% dos casos válidos), os que haviam pensado em suicídio (22%) e os policiais que não haviam pensado nem tentado suicídio (68%), chamados de grupo controle.

Segundo Fernanda, em 2019, a Ouvidoria de Polícia do Estado de São Paulo, em parceria com o Conselho Regional de Psicologia (CRP-SP), publicou estudo no qual mostrou que, no Estado de São Paulo, havia uma taxa 30,3 de casos por 100 mil habitantes de suicídio para a Polícia Civil e 21,7 para a Polícia Militar nos anos de 2017 e 2018. “É importante dizer que a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera taxa acima de 10 como um problema endêmico”, ressalta.

“A prevenção é fundamental e trabalhamos com ela em três níveis”, destaca Fernanda Cruz. Primeiro, com os policiais, fazendo ações de conscientização sobre a saúde mental. Em seguida, oferecendo um olhar mais atento para os policiais que já demonstraram algum sinal de alerta ou passaram por situações difíceis (estresse contínuo, perdas na família ou de colega muito próximo, entre outras situações). Por último, observando os policiais que já tentaram suicídio uma ou mais vezes e buscar alternativas para contornar isso, como pensar em tirar arma de fogo desses policiais, ter instruções de como a família deve lidar e fornecimento de apoio pelas instituições.

“Precisamos que essas instituições tenham uma estrutura consolidada de saúde mental internamente. Temos muitos desafios para enfrentar, tanto no sentido de sensibilizar a tropa e os comandantes, mas também no sentido das próprias polícias terem um serviço estruturado e cultura de dados que lhes permita conhecer melhor esse fenômeno no seu interior institucional”, recomenda Fernanda.

Ouça a entrevista completa no player acima.


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