Número de médicos não é o maior problema na área da saúde

Falta de equipamentos e segurança, mais falhas na formação profissional, impõem desafios a estudantes de Medicina

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As transformações no mercado de trabalho na área de medicina. Os resultados da Demografia Médica 2018 apresentaram dados relacionados à carreira médica. O País conta com 400 mil médicos e a projeção é que, em 2020, esse número suba para 500 mil, porém, apesar do crescimento, o número de especialistas ainda é escasso em determinadas regiões. Há especialidades médicas que se destacam com maior número de profissionais. De acordo com o levantamento, quatro especialidades representam 38,4% de todos os títulos de especialistas no País: Clínica Médica, Pediatria, Cirurgia Geral e Ginecologia e Obstetrícia. O Jornal da USP no Ar conversou com os professores Milton de Arruda Martins, presidente da Comissão de Graduação, e Vera Koch, coordenadora da Comissão de Residência Médica, ambos da Faculdade de Medicina (FM) da USP.
Os especialistas enxergam a necessidade de repensar o sistema de saúde por inteiro. A maior parte dos médicos está localizada na região Sudeste, sobretudo em áreas centrais de grandes cidades, e pertence à rede privada de saúde. “Existe uma tendência de culpar o médico, mas é um problema muito maior. Temos que entender o por que da distribuição ser desigual. É preciso avaliar os pré-requisitos para o médico exercer a profissão, como a falta de adequação de equipamentos de saúde e segurança”, afirma Vera. Esta tem relação com a escassez de investimentos na área, sobretudo para o sistema público. “A gente vê uma piora na qualidade, inclusive que vem acontecendo com grandes universidades públicas. Enquanto isso, hospitais da rede privada duplicam ou quadruplicam de tamanho.”
Curso visa à formação de especialistas em saúde pública que desenvolvam competências básicas relacionadas com a teoria fundamental desse campo – Foto: Valdecir Galor Fotos Públicas
Martins complementa: “Não se faz saúde sem médicos, mas não se faz saúde só com médicos.” Para ele, a maior questão não é expandir o número de cursos de Medicina, e sim melhorar a qualidade da formação médica no País. Apesar de o Brasil ter poucos médicos quando comparado a outros países – o número de médicos por mil habitantes no Brasil é de 1,8,  abaixo da média das Américas e da União Europeia – isso tende a mudar com o aumento de escolas que oferecem o curso. De acordo com Vera, há uma heterogeneidade na qualidade de formação que é refletida no fato de que nem todas as vagas para a residência são preenchidas. “Em geral, serviços que conseguem proporcionar uma capacitação melhor não têm dificuldade de preencher vagas; mas serviços que não conseguem fornecer uma formação tão boa acabam tendo vagas de sobra.”
Pensando na situação atual, existe uma necessidade de médicos mais generalistas e também de especialistas. “Alguns muito necessários para o País são psiquiatras, cancerologistas e anestesistas”, pontua Martins. Ele afirma que parte do desafio dos estudantes em decidir a especialização se relaciona com a falta de conhecimento sobre o que vai acontecer no futuro: “Não temos bola de cristal para saber o que vai acontecer com o sistema de saúde. Atualmente há disputas que englobam desde fortalecer o sistema público, até aumentar a capacidade do sistema privado. Então, dependendo de como será o sistema de saúde, algumas especialidades vão ser mais necessárias do que outras.” Vera acredita que pensar em mercado de trabalho no início do curso é muito difícil e, por isso, “a tendência é que a identificação do estudante com a área em que deseja se aprofundar aconteça no internato, onde há contato com o paciente”.
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