Menos recursos para área de humanas contraria os rumos da sociedade moderna

Diminuir recursos das humanidades é não compreender os rumos da sociedade moderna, afirma diretora da FFLCH

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O presidente Jair Bolsonaro disse que o governo deve “descentralizar” recursos para áreas de humanas, como filosofia e sociologia, em universidades. Segundo ele, o objetivo é “focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte”, como veterinária, engenharia e medicina. A mensagem dizia ainda que a ideia é um plano do novo ministro da Educação, Abraham Weintraub. O Jornal da USP no Ar conversou com a professora Maria Arminda do Nascimento Arruda, diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, sobre os impactos da diminuição de recursos para as humanidades.

“É um equívoco absoluto”, afirma a professora Maria Arminda sobre o anúncio de prováveis cortes nas humanidades. Segundo a diretora da FFLCH, a área de humanas está envolvida com as grandes questões da sociedade. Mais do que isso, é a área do conhecimento que contém e preserva o legado cultural do Ocidente.

A diminuição de recursos para área de humanas configura o não entendimento dos rumos da sociedade moderna, da vida humana e social, aponta a professora Maria Arminda. A dinâmica atual de desenvolvimento tecnológico exige um novo conhecimento científico, de formato interdisciplinar, cuja apropriação passa pelas humanidades. Além disso, a inovação pressupõe pessoas criativas, flexíveis e de formação geral, o que também não é possível sem as ciências humanas. Portanto, “a ideia de que a formação em humanidades é uma formação desnecessária é ideia absolutamente errônea, caso queiramos considerar a realidade e os desafios dos novos tempos”, nos quais o mundo da tecnologia e da inteligência artificial substitui o ser humano.

Qualquer medida que vise a desaparelhar as áreas de humanas aprofundará a crise da educação brasileira – Fotomontagem / jornal.usp.br

“Quando o Ministério da Educação afirma que é preciso, na verdade, educar em áreas que se considera mais vitais para a sociedade, está novamente se esquecendo que a educação, a formação, está muito além da simples ideia de utilidade […] “O quê que faria das Ciências Humanas, especialmente da Filosofia e da Sociologia, disciplinas inúteis?”, indaga Maria Arminda em vídeo gravado para o site da FFLCH, para acrescentar que o Brasil vive hoje um período obscuro, em que não se deu conta de que educar para o futuro é educar um profissional polivalente, que atue nas mais diversas áreas do conhecimento e não tenha dificuldades em se adaptar ao ritmo frenético do novo mundo.

Do ponto de vista econômico, a professora Maria Arminda diz que há outro equívoco, pois os dados não condizem com a proposta do Ministério. As universidades públicas representam 89% de toda produção cientifica nacional, enfatiza. Mas o custo das humanidades é irrisório, na visão da professora: a filosofia, por exemplo, tem 0,7% das bolsas de pesquisa. A diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP não tem dúvidas em afirmar, portanto, que qualquer medida que vise a desaparelhar as áreas de humanas aprofundará a crise da educação brasileira. A quem interessa tudo isso?, pergunta, ressaltando que as universidades públicas vêm sofrendo ataques permanentes, num momento de repúdio a tudo que é público e coletivo.

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