Núcleo de Antropologia Urbana – espaço de experimento e reflexão

José Guilherme Cantor Magnani – FFLCH

Por - Editorias: Artigos
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José Guilherme Cantor Magnani é professor titular do Departamento de Antropologia da FFLCH-USP – Foto: Francisco Emolo/Arquivo Jornal da USP
Em meio a uma conjuntura marcada por incertezas, ameaças de privatizações, cortes de recursos e direitos, e encolhimento de espaços para o debate – em plano nacional, mas também na Universidade  – convém  trazer à baila iniciativas que, não obstante esse quadro adverso, congregam professores e alunos, tanto de graduação como de pós, em torno de  projetos inovadores de pesquisa.

É o caso, entre outros, do Laboratório do Núcleo de Antropologia Urbana (LabNAU) vinculado ao Departamento de Antropologia da FFLCH/USP. Surgiu em 1988, inicialmente como um espaço de reflexão e debate, para se contrapor ao caráter muitas vezes demasiadamente individualizado da relação entre orientador e orientando.

A aprovação por parte do CNPq do meu projeto Os Pedaços da Cidade, no Programa Produtividade em Pesquisa (1989/1990), permitiu reunir um grupo de alunos para uma experiência de campo em espaços centrais da cidade de São Paulo.

Assim, a primeira “incursão etnográfica” do NAU aconteceu ainda em 1988 e teve como recorte a tradicional mancha de lazer paulistano do Bixiga, percorrida por cerca de 15 integrantes, cada qual identificando, em seu caderno de campo, os equipamentos, a frequência de uso, os horários de funcionamento, depoimentos de usuários etc.

Esta pesquisa inaugural, que se estendeu por outras manchas de lazer, encontro e sociabilidade na cidade, teve inúmeros desdobramentos. Alguns deles foram: artigos, exposição fotográfica (que contou com a colaboração do Laboratório de Imagem e Som em Antropologia, Lisa), a montagem, realização e supervisão de pesquisa para processo de tombamento de uma área historicamente dedicada ao futebol de várzea, o Parque do Povo, pelo Condephaat (1993/1994) e, finalmente, a publicação, pela Edusp, da coletânea Na Metrópole: textos de Antropologia Urbana, atualmente em sua terceira edição.

 

O LabNAU surgiu em 1988, inicialmente como um espaço de reflexão e debate, para se contrapor ao caráter muitas vezes demasiadamente individualizado da relação entre orientador e orientando.

 

Uma iniciativa pioneira do NAU foi o evento Graduação em Campo: Seminários de Antropologia Urbana; seu objetivo era oferecer aos alunos, cujos trabalhos tivessem obtido boa avaliação, uma oportunidade de apresentá-los nos moldes de um ritual completo de simpósio científico.

Seu objetivo era valorizar o trabalho de pesquisa na graduação, permitindo que monografias e relatórios finais, comumente relegados ao fundo das gavetas da sala do professor, fossem discutidos em domínio público, ainda que entre colegas.

O interesse pelo evento foi aumentando de tal modo que os Seminários, antes restritos aos alunos da USP, em suas últimas edições receberam inscrições de estudantes de graduação em Ciências Sociais de todo o País: na de 2012, por exemplo, foram 132 inscrições de 30 instituições de ensino superior diferentes; conta com um conferencista convidado para abrir os trabalhos (na última edição, em 2014, tivemos a presença de Marilyn Strathern, importante referência na antropologia contemporânea); transmissão on-line das apresentações, comentários (a cargo de alunos de pós-graduação), caderno de resumos impresso e eletrônico. Foi o primeiro de seu gênero, no Brasil.

Outra iniciativa foi a constituição de um acervo com aproximadamente 700 trabalhos finais de alunos de graduação que cursaram a disciplina Pesquisa de Campo em Antropologia –  uma espécie de TCC, modalidade que não costumamos pedir no curso de Ciências Sociais da USP.

Em torno dele constituiu-se inicialmente uma equipe disposta a tratá-lo como documentação a ser conservada, classificada e disponibilizada como banco de dados para consulta. E é, pois traz informações sobre a cidade de São Paulo coligidas durante três décadas, na perspectiva da Antropologia Urbana e sob o olhar de jovens pesquisadores, em suas primeiras incursões com o método etnográfico.

Há aí também valioso material para se avaliar o processo de ensino/aprendizado dessa metodologia; parte de sua programação teve de ser interrompida pela alegada falta de verbas. Para se ter noção mais clara do leque de temas abordados, muitos dos quais têm continuidade em projetos de pós-graduação, seguem alguns (criativos) títulos:

Puro e sem açúcar: um estudo sobre o café da manhã na rua e suas relações sociais

Escorregando em fluidos corporais e sociais: etnografia dos cinemas pornôs do centro de São Paulo

Cultura e conhecimento: estudo etnográfico do Museu da Língua Portuguesa

Cremação: uma opção moderna

O dom de multiplicar cristãos: estudo sobre o Movimento de Renovação Carismática Católica

O Deus no cárcere: um estudo da religiosidade em uma instituição total

O Diabo na festa: análise da possessão num culto pentecostal

Promessa é dívida: um estudo sobre a devoção a Santo Expedito

Os pregadores da Praça da Sé

A ayahuasca na metrópole: uma nova modalidade de seu uso ritual na cidade de São Paulo

Outras ovelhas: estudo sobre uma igreja – Acalanto – voltada para o público gay

Procissão de São Benedito: celebração com liturgia afro na paróquia de Nossa Senhora Achiropita

Tira o hijab do armário! A presença do véu islâmico nas ruas de São Paulo e Rio de Janeiro

In Jesus We Trust: a Bola de Neve Church e o neopentecostalismo brasileiro

Daslu e a Prefeitura do município de São Paulo: conflito ou manipulação?

A feira de produtos orgânicos do Parque da Água Branca

Ocupação do espaço urbano pelos loucos de rua

O Primeiro Comando da Capital: pesquisa sobre o Centro de Detenção Provisória de Santo André

Pequeno estudo sobre a incorporação da comida japonesa aos hábitos alimentares do paulistano ou: de como o sushi virou feijão com arroz

A reinvenção do espaço: uma análise antropológica da 8ª Parada do Orgulho GLBT de São Paulo

O milagre da Santa Ifigênia: a rede de comércio dos setores de informática, eletroeletrônicos e afins no centro de São Paulo

A cidade não é de ninguém: pichadores e grafiteiros na Grande São Paulo

O skate na metrópole: usos e olhares

Rua Barão de Itapetininga: de espaço da elite a território de desempregados

Etnografia da ocupação da Reitoria da USP – maio de 2007

 

Uma iniciativa pioneira do NAU foi o evento Graduação em Campo: Seminários de Antropologia Urbana: seu objetivo era oferecer aos alunos, cujos trabalhos tivessem obtido boa avaliação, uma oportunidade de apresentá-los nos moldes de um ritual completo de simpósio  científico.

 

Não há espaço para apresentar todas as atividades do núcleo, que recebe alunos e pesquisadores de outras instituições e até do exterior para intercâmbio: sessões de discussão dos projetos de pesquisa e relatórios de qualificação de seus integrantes; reuniões regulares de suas equipes especializadas de trabalho, que atualmente são quatro: NAU/Cidades; Grupo de Estudos de Religiosidade na Metrópole (Germ); Grupo de Estudos de Surdos e da Deficiência (Gesd) e o Grupo de Etnologia Urbana (GEU) voltado para a questão da presença indígena em cidades da Amazônia.

Ocorrências significativas no calendário da cidade como as diferentes Marchas – a do segmento LGBT, a Marcha de Jesus, dos evangélicos, a Virada Cultural etc., além de eventos não previstos, mas que ocupam o espaço púbico tal como as manifestações  do passe livre, as dos secundaristas, assim como as mais  recentes  suscitadas pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, são normalmente acompanhadas por  integrantes do NAU, com a metodologia de pesquisa que denominamos  “incursões etnográficas”.

O LabNAU publica a revista eletrônica Ponto Urbe (http://pontourbe.revues.org/), veículo de periodicidade semestral destinado à  difusão  e discussão de trabalhos, ensaios, resultados parciais de pesquisas e propostas teórico-metodológicas da Antropologia Urbana e de áreas afins, bem como à divulgação de eventos de interesse sobre essa temática. A Ponto Urbe, com base numa plataforma internacional, está no ar, ininterruptamente, desde 2007, já com 18 edições. E, por fim, merece destaque a Coleção Antropologia Hoje: fruto de uma parceria entre o NAU e a Editora Terceiro Nome, com 28 títulos já lançados.

Em seu site http://nau.fflch.usp.br/ essas e outras atividades são amplamente divulgadas e compartilhadas, de forma que o Laboratório do Núcleo de Antropologia Urbana, apesar das dificuldades institucionais que limitam a atividade acadêmica, hoje, na Universidade, mantém sua tradição de provocar experimentos que complementam o ensino formal em sala de aula, abrindo-se para o registro, análise e divulgação dos desafios que os atores sociais continuamente enfrentam em seu cotidiano numa metrópole como a cidade de São Paulo.

 

 

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