Mulher atleta, Joanna Maranhão é também cidadã

Katia Rubio é professora da Escola de Educação Física e Esporte da USP e membro da Academia Olímpica Brasileira

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Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

 

O esporte é um daqueles fenômenos sociais conhecidos e seguidos pelos afetos que mobiliza. Encanta por fazer alguns seres humanos se tornarem imortais por conta de feitos incomuns. Quebrar recorde, superar marcas improváveis aos cidadãos médios, ser respeitado como modelo ideal de ego em uma sociedade que prima pelo egocentrismo e pela visibilidade fácil comprada a peso de ouro por manipuladores de algoritmos, parece ser a condição de vida de atletas que alcançam resultados incomuns.

Atletas brasileiros que alcançam a posição de olímpicos estão nessa categoria. É importante ressaltar os adjetivos brasileiro e olímpico porque o futebol foge a essa regra, tanto pelo fenômeno mundial que é, como também pelo entendimento da condição profissional. É importante destacar que pela lei brasileira apenas os atletas do futebol são profissionais no país, enquanto que nas demais modalidades eles não existem para a lei. Ou seja, o atleta olímpico profissional no Brasil é uma ficção, muito embora eles nos levem a torcer, a prender a respiração nos momentos decisivos, a sofrer com a derrota e nos encantam com os resultados, ainda que não tenha sido uma vitória. Digo isso porque dos 2.128 atletas olímpicos brasileiros, 1.551 homens e 577 mulheres, mas apenas 266 homens e 108 mulheres conseguiram a façanha de chegar ao pódio.

Os dados sobre as mulheres revelam uma trajetória dramática. Isso porque, embora a participação olímpica brasileira tenha começado em 1920, somente em 1932 as mulheres, ou melhor uma mulher, foi a Jogos Olímpicos: Maria Lenk, que entrou para a história como a primeira latino-americana a se tornar olímpica. Desde então as mulheres brasileiras marcaram presença na delegação nacional, não sem uma dose múltipla de luta e sacrifício. Atletas como Mary Dalva, Wanda dos Santos e Aída dos Santos foram as únicas mulheres da delegação brasileira, respectivamente em 1956, 1960 e 1964.

Vale lembrar que Aída teve que fazer 4 vezes o índice estipulado pelas autoridades esportivas brasileiras e, parece inacreditável que, a cada vez que ela conseguia o índice alguma nova determinação era incorporada para que suas marcas fossem invalidadas. Sua perseverança a levou a Tóquio onde encontrou a solidariedade da equipe cubana para lhe dar o apoio que nenhum brasileiro ofereceu, foi para a pista só, sem uniforme, nem sapatilha para competir em 1964. Sua atuação a levou ao 4º lugar, a apenas um degrau daquele que poderia ter sido o primeiro pódio olímpico de uma mulher brasileira, cena essa que apenas aconteceria 32 anos depois, em Atlanta, com a medalha de ouro de Jackie e Sandra no vôlei de praia, de prata com Adriana e Mônica, também no vôlei de praia e ainda do basquetebol e de bronze com o voleibol. Mas, essa é uma história para se contar em outra oportunidade.

Outra mulher digna de nota é Irenice Maria Rodrigues. Corredora dos 800 metros, prova prescrita para as mulheres em 1928 – sim, prescrita porque foi considerada excessiva para a condição frágil e delicada das mulheres de então, que chegaram exaustas ao final de uma prova que envolve velocidade e resistência – e que voltava justamente naquele 1968 para o programa olímpico. Irenice, que fez o recorde pan-americano da competição em 1977, teve que, como Aída dos Santos, se provar merecedora da vaga olímpica, mesmo tendo feito o índice 3 vezes. Ela era considerada imbatível nessa competição e chegava ao México como uma das favoritas à medalha. Mas, Irenice exercia outros papéis sociais como de estudante, ativista e mulher polêmica, condições essas pouco aceitáveis em um meio em que se afirma que “esporte e política não se misturam”. Irenice foi e não competiu. Punida por um ato de “indisciplina” não pôde participar da prova olímpica, e também já não é viva para contar com detalhes a sua história. Perde a história, perde a memória das mulheres que construíram tão arduamente os caminhos para que as novas gerações de atletas possam usufruir do espaço que têm.

Os dados sobre as mulheres revelam uma trajetória dramática. Isso porque, embora a participação olímpica brasileira tenha começado em 1920, somente em 1932 as mulheres, ou melhor uma mulher, foi a Jogos Olímpicos: Maria Lenk, que entrou para a história como a primeira latino-americana a se tornar olímpica

Não foi diferente com as mulheres do judô, proibidas por lei de praticar essa modalidade e outras lutas, e para realizar seu desejo treinavam e competiam com homens, ou disfarçadas de homens. Soraia André quebrou essa lógica e se tornou a primeira brasileira a participar de uma edição olímpica, em 1988, não sem sofrer com a discriminação e o preconceito que sua disposição de ser atleta lhe impingia. Seria ótimo que as medalhistas Ketleyn Quadros, Mayra Aguiar, Rafaela Silva e Sarah Menezes soubessem de tudo isso para entender que essas medalhas são também parte de uma história envolvendo muitas mulheres no nevoeiro do esquecimento: aquelas que não vencem disputas que levam ao pódio.

A falta de uma medalha, entretanto, não apagará os feitos de mais uma mulher atleta brasileira. Ela nadou desde os 3 anos. Gostava de competir pelo pacote de balas que a família oferecia em caso de vitória. Como toda atleta dedicou-se a treinar e competir como se fosse a razão de ser humana, ainda criança. Conquistou em Atenas-2004, aos 17 anos, a quinta colocação, registrando o melhor tempo olímpico de uma brasileira. Joanna Maranhão entrou para a história. Ninguém sabia, entretanto, que, na infância, a atenção que seu técnico dedicava a ela encobria o assédio sexual que tantas outras crianças também viviam e vivem, não apenas na natação, como em outras modalidades. Como tantas mulheres abusadas enfrentou os demônios que a denúncia de um fato como esse envolve. Buscou em si mesma os meios para lidar não apenas com aquele tormento, mas com todos os outros tipos de abuso que uma atleta tem que trabalhar ao longo da vida para chegar àquilo que deveria ser natural, a excelência.

Sua atitude levou à criação de uma lei contra o abuso, que leva seu nome. Na última semana Joanna anunciou que encerrará sua carreira de atleta, porque ser atleta é uma condição temporária, é uma vida breve dentro de outra vida que segue para outros papéis sociais. Como atleta deixou marcas a serem batidas pelas futuras gerações. Como cidadã diz que seguirá em outras tantas lutas pelos direitos das crianças, das mulheres, dos atletas dentro e fora do esporte, deixando assim a sua marca, provando que o esporte é muito mais que uma arena competitiva. Ele é também o palco para inúmeras dramatizações sociais.

 

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