De “mãos vazias” a “mãos com luvas”: o karatê

Marcelo Alberto de Oliveira é professor de Educação Física e mestrando em Ciências da Escola de Educação Física e Esporte da USP

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Marcelo Alberto Oliveira – Foto: Arquivo pessoal
Com a aproximação dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 novas modalidades esportivas entrarão em cena – o que gera muita curiosidade e a formulação de perguntas. Na esteira desse megaevento, organizado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), o karatê acabou por ganhar uma oportunidade ímpar em meio às modalidades esportivas escolhidas naquele mês de agosto da edição olímpica Rio 2016. Assim, algumas questões podem surgir: como se constitui o campo esportivo no qual o karatê está inserido? Ou ainda, quais foram os fatores decisivos para sua entrada na edição de Tóquio 2020? Ou mesmo, como se estabelecem as disputas de poder em meio às rupturas, descontinuidades e continuidades de seu processo histórico? Essas e outras questões serão apresentadas no corpo deste texto, o que remete a reflexões acerca dessa modalidade que se desenvolveu sob o conceito de “mãos vazias” durante o século passado, e acabou por ganhar, também, contornos de esporte, aqui representados pelo conceito de “mãos com luvas”.

Os bastidores do karatê: uma análise sociológica

Para tentar responder essas e outras questões emprestamos a metodologia e os resultados de um estudo realizado por pesquisadores brasileiros intitulado “De ‘mãos vazias’ a ‘mãos com luvas’: uma análise sociológica sobre o karatê e os Jogos Olímpicos”. Esse artigo científico de Oliveira e outros (2018) se apoiou em documentos oficiais e fontes secundárias para discutir, a partir dos estudos do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), o comportamento de agentes dentro desse campo (atletas, técnicos, gestores, presidentes etc.). Salienta-se que as ações feitas pelos agentes, identificados pela pesquisa, trouxeram grandes conquistas para o karatê, sobretudo para a organização mundial World Karate Federation (WKF), na medida em que o processo histórico foi estimulado por diversos interesses (cultural, econômico, político) e seus resultados se sobressaíram, visto que a WKF fez diversos esforços para se adequar às exigências estruturais impostas historicamente pelo COI.

A pesquisa é relevante porque pode servir de apoio para possíveis projetos de políticas públicas referentes ao esporte, sobretudo aos que envolvem lutas, artes marciais ou esportes de combate. Nesse pensamento, identificam os atores sociais/agentes no campo esportivo em que o karatê está posto, bem como mapeiam a estrutura social que é composta por agentes (dominantes e dominados) que disputam o poder por meio do acúmulo de capitais (cultural, econômico, social, simbólico). Nesse âmbito, podem legitimar formas de dominação quanto a alguns aspectos, assim como podem também contestar quanto a outros. Desse modo, podemos engendrar projetos fundamentados, coesos e objetivos (Bourdieu, 1983; Marchi Jr., 2004; Pimenta & Marchi-Júnior, 2009; Sonoda-Nunes, 2012).

Entre a origem marcial e o seu processo de esportivização

O karatê é uma arte marcial que, embora não tenha registro histórico preciso, possui raízes na Ilha de Okinawa, localizada entre a China e o Japão Continental. Além disso, em sua evolução, passou por diversas transformações técnicas e terminológicas – como, por exemplo, se afastou do termo “mãos chinesas” para se tornar “mãos vazias” num esforço protagonizado pelo mestre Gichin Funakoshi (1868-1957) (Frosi & Mazo, 2011). Segundo Guttmann e Thompson (2001), com o advento do século XX, o karatê ganhou contornos esportivos arquitetados principalmente pelo professor Masatoshi Nakayama (1913-1987), aluno de Funakoshi (Oliveira, Telles & Barreira, 2019).

Com o transcorrer do século XX, especialmente em seu final, diversas organizações de karatê emergiram, uma vez que interesses de agentes entraram em conflito (disputas de poder), destacando-se a aproximação das instituições WKF e COI que, durante a segunda metade daquele século e começo do século XXI (1970 a 2016), produziram características em comum – no que se refere a estratégias e interesses. Além disso, dois processos foram significativos para o karatê nesse período: o processo de japonização – referente às mudanças técnicas e terminológicas; e de esportivização – referente à incorporação de aspectos esportivos como, por exemplo, o uso de luvas durante os combates (Guttmann & Thompson, 2001).

Objetivando responder como se estruturam as disputas de poder e como é apresentado esse comportamento a pesquisa trouxe as seguintes várias conclusões. Podemos observar que os agentes que mais atuaram na consolidação do karatê como modalidade olímpica foram dirigentes e presidentes das estruturas WKF e COI. Além disso, a ascensão foi buscada por atletas, técnicos, jornalistas, empresários, dentre outros. Assim, comportaram-se como apoiadores do karatê empresas como a Arawaza e Ajinomoto. Por outro lado, a Confederação Brasileira de Karatê (CBK) teve a Latam Airlines como empresa parceira. Os meios de comunicação como a SportTV e Revista Budo foram divulgadoras da modalidade. Já as marcas homologadas de vestuário e acessórios esportivos como a Shiroi, Zanshin, M. Bianchi, Kimonos Araújo, dentre outras, participaram de alguma forma na divulgação do karatê.

Neste cenário, os interesses da WKF e COI entraram em sintonia, e em decorrência novos equipamentos foram implementados ao karatê esportivo, tendo em vista a necessidade da preservação da integridade física dos atletas e da utilização de instrumentos de publicidade modernos (Pucineli, 2017).

A importância de estudos como este

Há diversos atores sociais que podem se beneficiar com os resultados do estudo apresentado, e dos quais destacam-se: secretários municipais, estaduais, ministros federais de diversas áreas (esporte, educação, saúde, lazer, turismo). Nessa conjuntura, destacam-se também presidentes de federações, confederações, ONGs, empresários do ramo esportivo, pesquisadores e professores. Enfim, agentes e estruturas que podem aproveitar deste saber para fundamentar, por exemplo, projetos em prol da sociedade.

Referências bibliográficas

Bourdieu, P. “O campo científico”, in Sociologia. São Paulo, Ática, 1983.

Frosi, T. O.; Mazo, J. Z. “Repensando a história do karatê contada no Brasil”, in Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, 25(2), 2011, pp. 297-312.

Guttmann, A.; Thompson, L. Japanese sports: a history, 2001.

Marchi Jr., W. “Sacando” o voleibol. São Paulo, Unijuí, 2004.

Oliveira, M. A. de et al. “De ‘mãos vazias’ a ‘mãos com luvas’: uma análise sociológica sobre o karatê e os Jogos Olímpicos”, in Olimpianos – Journal of Olympic Studies, 2(1), 2018, pp. 324-42.

Oliveira, M. A. de; Telles, T. C. B.; Barreira, C. R. A. “De Okinawa aos Jogos Olímpicos: o karatê”, in Do pós ao neo-olimpismo: esporte e movimento olímpico no século XXI. São Paulo, Képos, 2019, pp. 327-47.

Pimenta, T.; Marchi-Júnior, W. “A constituição de um subcampo do esporte: o caso do taekwondo”, in Movimento, 15(1), 2009, pp. 193-215.

Pucineli, F. A. Modernização do karatê: Gichin Funakoshi e as tecnologias políticas do corpo. São Paulo, Unesp, 2017.

Sonoda-Nunes, R. J. “Sport for all”: as relações entre Sesi e CSIT no campo esportivo (1996-2011). Curitiba, UFPR, 2012.

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