Alfabetização: entre o método fônico e o construtivismo, a necessidade de reconstruir o debate

Carlota Boto é professora da Faculdade de Educação da USP

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Carlota Boto – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

O tema da alfabetização voltou ao circuito do debate pedagógico. Em virtude das manifestações do antigo ministro da Educação quanto à possibilidade de adoção do método fônico como diretriz do Ministério para as escolas brasileiras, passou a haver novamente discussões e controvérsias a respeito de método para o ensino da primeira leitura e da primeira escrita. Alguns chamarão isso de alfabetização, quando enfatizam os aspectos técnicos do aprendizado do ler e escrever. Outros já recorrem à expressão letramento, por focar a análise nos usos sociais das habilidades da leitura e da escrita. Seja como for, é preciso falar no assunto.

O debate sobre alfabetização, em língua portuguesa, data aproximadamente dos anos 50 do século XIX. Até então, tanto em Portugal quanto no Brasil, o foco dos escritos sobre a educação coincidia com a busca de extensão das oportunidades escolares. Mais do que abordar questões de método, falava-se de expandir a escola para todos. Acontece que essa escola que se espraiava não cumpria sua função. Não conseguia ensinar as crianças a ler e a escrever. Não era capaz sequer de manter todas as crianças nos bancos escolares. Nesse sentido, particularmente em Portugal, por volta de 1850, António Feliciano de Castilho projetou um método para o ensino da leitura e da escrita, que ele chamou de leitura repentina.

O método que ficou conhecido como português-Castilho propunha-se a valorizar o som das letras como ponto de partida do aprendizado. Surgia, na língua portuguesa, o método fônico. Tratava-se de romper com a tradicional soletração, que começava o processo através dos nomes das letras. Castilho argumentará que o nome da letra não consta em lugar nenhum. Tratava-se, contra essa prática, de iniciar o percurso do aprendizado da leitura pelo reconhecimento do som da letra: mmm, ssss, rrrr…

O método fônico daria o tom do debate pedagógico até os anos 70 do mesmo século XIX, quando – ainda em Portugal – João de Deus rejeita a alternativa de Castilho, que começara a ensinar a ler pelo reconhecimento do som. Para João de Deus, isso estaria errado. Havia de se iniciar o processo do ensino da leitura pela identificação da palavra. Um partia do reconhecimento da leitura pelo som, entendendo que a alfabetização é, sobretudo, auditiva. O outro partia da identificação da palavra, à luz da concepção de que o processo da alfabetização é fundamentalmente visual. Para Castilho, o som é a base do aprendizado da língua. Para João de Deus, o significado da palavra é o primeiro passo do mesmo processo. Por isso, em 1876, João de Deus lança sua Cartilha maternal, onde ele se propõe a ensinar a ler com a mesma naturalidade com que se aprende a falar. Essa disputa entre Castilho e João de Deus corresponde à expressão do que teria sido a oposição entre o método fônico e o método global de alfabetização quando pensados para a realidade dos países de língua portuguesa.

Maria do Rosário Longo Mortatti já evidenciou o modo pelo qual houve no Brasil uma propaganda do método João de Deus, por parte do educador Silva Jardim. O método era apresentado como científico e como progressista. A partir daquele último quartel do século XIX, opunham-se então, também no Brasil, os partidários do método analítico da palavração elaborado por João de Deus e os defensores dos métodos sintéticos – tanto os métodos fônicos, quanto a soletração e a silabação. Criava-se ali em nosso país a clássica oposição entre métodos analíticos e métodos sintéticos.

Se nós pensarmos na querela internacional dos métodos de ensino, no início do século XX, o debate entre o modo de ensinar a ler de Decroly, que partia da frase e das palavras, e o modo de ensinar a ler de Montessori, que partia do som da letra, reproduz, na Europa do início do século XX, aquilo que em Portugal e no Brasil já ocorrera no final do XIX. Seja como for, estava posta no debate internacional a já conhecida disputa dos métodos. Foi somente no final do século XX que essa contenda foi deslocada com a entrada no cenário da alfabetização da concepção construtivista do ensino da leitura.

Na mesma época, para além da alfabetização, entra em cena o conceito de letramento. Ou seja: amplia-se a acepção de ser alfabetizado pela perspectiva de um ser letrado, que corresponde àquele que é capaz de – como diz Magda Soares – “fazer uso competente da leitura e da escrita em práticas sociais”. Mortatti também qualifica esse momento da entrada do construtivismo no debate pedagógico como uma “revolução conceitual”, ao dizer que se deslocou o eixo das discussões dos métodos de ensino para o processo de aprendizagem da criança. Emília Ferreiro apontava a necessidade de se situar a discussão sobre métodos de ensino sobre novas bases. Assim, o ponto de partida do construtivismo é o de tomar como centro do processo de ensino as concepções das crianças a respeito do sistema de escrita. Da centralidade posta no ensino passa-se a focar no aprendizado. Valoriza-se o estímulo para que a criança na etapa de sua alfabetização escreva tal como acredita poder escrever um determinado conjunto de palavras; “como se soubesse escrever”. Em função disso, são estabelecidos estudos sobre as práticas de escrita infantis correlacionadas à fase de desenvolvimento da criança no tocante à aquisição da língua escrita. Nesse sentido, não se trata mais de pensar o método; mas os processos mentais de cognição da linguagem escrita.

Os críticos dirão que, nos últimos 20 anos, houve uma adesão ao modelo construtivista de alfabetização, o qual não foi acompanhado pelo melhor desempenho das crianças no seu percurso de alfabetização e de letramento. Tudo isso leva a que se retorne à discussão para pensar a possibilidade de um voltar atrás: de uma retomada dos modos sintéticos de ensinar a ler, particularmente expressa na defesa do método fônico, tal como era o método que, em 1850, António Feliciano de Castilho adaptou para a língua portuguesa.

Hoje o debate tende, então, a estar polarizado entre os adeptos do paradigma construtivista e aqueles que defendem o método fônico alegando que este seria mais eficaz, mais rápido e mais efetivo. Frequentemente, os defensores do construtivismo apresentam a si como os setores mais progressistas entre os educadores, sendo os que propugnam o método fônico tomados como conservadores. É preciso recolocar, talvez, a questão.  Mais do que nunca, a realidade da alfabetização no Brasil requer critérios técnicos e pesquisas sólidas, capazes de verificar a situação atual, diagnosticar os problemas e apontar soluções para o futuro de nossa juventude letrada. Se as antigas respostas não respondem mais às questões, talvez seja o momento de reformularmos as perguntas. O que é certo é que não será voltando para trás que nós caminharemos para a frente.

 

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