A perda de um grande cientista e professor. Morre Sérgio Mascarenhas de Oliveira

Por Vanderlei Salvador Bagnato, diretor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP

 01/06/2021 - Publicado há 6 meses
Vanderlei Bagnato – Foto: IFSC/USP
Ser cientista é estar sempre comprometido com o avanço do conhecimento e sempre na procura de soluções para problemas que afligem a sociedade. A motivação e determinação pela verdade são uma constante no cientista. Assim era o professor Sérgio Mascarenhas.

Natural do Rio de Janeiro, estudou com as melhores mentes que construíram a ciência brasileira no século passado, contando-se, nesse grupo de notáveis, nomes como os de Joaquim da Costa Ribeiro e Cesar Lattes, dentre muitos outros. Motivado por estas grandes personalidades, trabalhou como professor visitante em diversas instituições no mundo e finalmente chegou a São Carlos, interior de São Paulo, com a missão de contribuir para a formação da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC).

Não apenas fez esta tarefa com maestria, como foi além, juntando um lote de professores que permitiu formar o Instituto de Física e Química de São Carlos (IFQSC), em 1968. Foi o início da interiorização das ciências básicas no Estado de São Paulo.

Com seu caráter construtivo e motivador, a iniciativa logo prosperou e o IFQSC rapidamente se tornou em uma próspera unidade da Universidade de São Paulo. Cresceu tanto que originou duas das unidades dentre as mais produtivas da USP: o Instituto de Física de São Carlos (IFSC) e o Instituto de Química de São Carlos (IQSC). Sérgio Mascarenhas nunca se contentou em fazer progredir o conhecimento sem promover sua aplicação.

Em São Carlos, não só deu início a diversos laboratórios experimentais, que colaboraram para avançar a chamada Física da Matéria Condensada, como também a áreas interdisciplinares, como a biofísica; sua paixão pela ciência aplicada impeliu-o a formar a Unidade de Apoio à Pesquisa e Desenvolvimento de Instrumentação (UAPDIA), da Embrapa, também em São Carlos. Desenvolvendo a aplicação da física, química e engenharia à agricultura e pecuária, a unidade de instrumentação da Embrapa foi fundamental para o avanço do agronegócio no Brasil. Entre estes grandes feitos, o professor Sérgio Mascarenhas foi o elemento seminal na colaboração com o deputado federal Ernesto Pereira Lopes para formulação e início das atividades da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), tendo aí criado o curso de Engenharia de Materiais – o primeiro na América Latina.

Incansável, Sérgio Mascarenhas tratou a todos com dignidade e, com isso, fez uma infinidade de amigos, sempre dizendo que os alunos tinham que superar seus mestres. Essa postura e simplicidade motivaram que um grande número de jovens se dedicasse à ciência e superasse seus próprios limites. Formou um grande número de pessoas que ocupam hoje posições de relevo dentro da ciência brasileira. Sempre motivado e motivando, foi pioneiro na inovação tecnológica, incentivando a formação de empresas de apoio à dosimetria de radiações ionizantes, aos bisturis criogênicos e também, mais recentemente, ao desenvolvimento de dispositivos para medição da pressão intracraniana.

Frases e citações célebres do professor Sérgio Mascarenhas sempre ficarão retidas em nossa memória, como, por exemplo: “Um cientista deve sempre exercer uma função social“. Incontestável defensor da ciência como um dos pilares do desenvolvimento de qualquer nação, o professor Sérgio Mascarenhas almejava um Brasil que avançasse no caminho da ciência, da computação, Inteligência Artificial, robótica e nanotecnologia, por forma a que nunca fosse uma nação colonizada pela tecnologia estrangeira.

“Quem não admira Sérgio Mascarenhas é porque não o conheceu”, diz o físico Alaor Chaves, em correspondência com o IFSC. Seu legado é imenso e valoroso. Como dizem os professores do IFSC: “Não sabemos o que o professor Sérgio Mascarenhas leva com ele, mas sabemos que deixou uma infinidade de feitos e ideias que nos alimentarão ainda por muito tempo”.

Seus feitos e sucessos motivarão, certamente, diversas instituições brasileiras, como a SBPC e a SBF, só para nomear estas duas. A grande responsabilidade deixada para aqueles que ficam é imensa, já que levar adiante e ampliar os feitos do professor Sérgio Mascarenhas exigem fortes habilidades intelectuais, energia imensa e, principalmente, coragem de leão.

Sentiremos falta do professor Mascarenhas, mas comemoraremos seus feitos por muito tempo ainda.


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