A leitura da geração dos 2000

Carlota Boto é professora titular da Faculdade de Educação da USP

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Carlota Boto – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Neste ano de 2018, a geração que entra na Universidade de São Paulo é a geração que nasceu nos anos 2000 e isso exige alguma reflexão. Quem são esses nossos alunos que vivem em uma realidade tão diferente daquela que formou seus pais? As circunstâncias políticas são outras, a vida social foi modificada, as tendências culturais, estéticas e até afetivas mudaram, mas houve, sobretudo, uma revolução no campo das tecnologias. Isso produziu o advento de uma sociedade digital, o que traz efetivamente enormes implicações educacionais. Essa sociedade digital impactou as formas de ler e de conviver. Presenciamos hoje uma geração de ‘leitores de celulares’. Uma geração profundamente familiarizada com os recursos da internet, mas com alguma dificuldade de discernimento sobre o que “merece” ser lido…

É preciso meditar sobre o significado dessa nova realidade. Tal desafio supõe discutir a historicidade das atividades de leitura. A leitura, como prática social, existia já na Grécia e coincide com o letramento da sociedade. Houve uma primeira revolução da leitura quando, no princípio da era cristã, o rolo foi progressivamente substituído pelo códice. As formas de ler foram, com isso, alteradas. O rolo não permitia, por exemplo, a leitura e a escrita ao mesmo tempo. O códice já admite essa possibilidade. É preciso lembrar, entretanto, que na Alta Idade Média, perdeu-se praticamente a capacidade da leitura silenciosa. Até o século VIII não havia separação das palavras. A paragrafação foi algo que aconteceu apenas no século XIV.  Com Gutenberg temos uma nova revolução da leitura. Permanece o estilo do códice, mas amplia-se ali significativamente o conjunto de exemplares que passam a circular no cenário cultural da época. Com a cultura impressa, os livros passarão a circular em maior quantidade. Progressivamente, deixam de ser um produto raro. A Reforma protestante oferecerá um cenário no qual a leitura intensiva das obras torna-se imprescindível. No século XVIII, como se sabe, os livros serão, com o Iluminismo, um poderoso instrumento de crítica social. Os livros sempre desempenharam esse papel. Mas a crítica no século XVIII surge como uma arma de ação coletiva dos intelectuais, que falavam por textos escritos…

A partir do século XIX, os livros circulam de maneira absolutamente livre pelas populações. Porém, a alfabetização era ainda diminuta. Daí o papel que os impressos terão na produção dos livros didáticos, dos compêndios escolares que se constituirão desde que se organizaram os sistemas nacionais de ensino, tanto na Europa quanto, especialmente a partir do final do século XIX, nas Américas. A escola moderna sempre lidou de maneira desconfiada com a leitura. Daí a criação de manuais didáticos, voltados não apenas para ensinar a matéria ao aluno, mas para mostrar qual matéria deveria ser ensinada ao aluno. Com as práticas de ler didaticamente organizadas, a leitura torna-se, ela mesma, uma leitura regrada. Todavia as sociedades tinham receio do poder transgressor dos conteúdos lidos. Daí o medo que tinham do gesto de ler.  Estudos demonstram que o receio por leituras subversivas persistiu no mundo ocidental até os anos 70 do século XX, quando, com a televisão, houve um decréscimo nas práticas leitoras.

Neste ano de 2018, a geração que entra na Universidade de São Paulo é a geração que nasceu nos anos 2000 e isso exige alguma reflexão. Quem são esses nossos alunos que vivem em uma realidade tão diferente daquela que formou seus pais?

Desde os anos 90, a computação e a internet tornam-se disponíveis para um grande público, alterando as maneiras de acessar o conhecimento. Com a escrita no computador, um novo estilo de ler é inaugurado. Especialistas como Roger Chartier dizem que o impacto da leitura na tela é absolutamente inovador, assemelhando-se à revolução que existiu quando se passou do rolo ao códice; mais impactante, portanto, do que a revolução de Gutenberg. Teria havido, nesse sentido, com o ingresso dos computadores à cena cultural, uma transformação maior do que aquela que representou o advento da tipografia. O códice impresso não era estruturalmente diferente do códice manuscrito. Ou seja: a forma de ler o livro não era alterada, como fora quando se passou do rolo ao códice e como seria quando se passasse do livro em códice ao texto no computador. Por ser assim, a leitura no computador foi absolutamente revolucionária.

Por sua vez, na contramão da tendência de seu tempo, de alguma maneira, a universidade solicita dessa juventude que lê pelo computador a leitura no livro impresso ou mesmo no xerox, a leitura – digamos – mais tradicional. E tem mesmo de fazer isso. Cada vez mais, entretanto, as sessões de fotocópias das faculdades têm menos trabalho – por assim dizer. Muitos professores já disponibilizam textos digitalizados. Será que esses textos são mais acessados do que aqueles que vêm por outros suportes? E o que dizer do conteúdo desses textos? Será que lemos o mesmo texto quando o acessamos pelo computador e quando o lemos a partir de um livro? Seria o mesmo texto que é lido? De todo modo, essa forma de leitura – que cada vez mais invade a universidade – leva a que repensemos obrigatoriamente nossas práticas em sala de aula. Fazemos ainda com que os alunos imprimam o que leram? Como trabalhar o conteúdo do que é lido sem que ele possa ser objeto de um registro que acompanhe essa leitura? Para levar o texto para classe, se não o imprimirem, em tese, todos precisariam ter em sala de aula um computador. Essa ainda não é a realidade de muitos dos cursos da universidade. Nesse sentido, a leitura acaba sendo prejudicada. Os alunos parecem ler menos porque leem de outra maneira.

Acresce-se a isso a questão da internet. O contato com uma biblioteca sem fronteiras parece absolutamente sedutor. Aparentemente constam dali todos os conteúdos culturais que podem interessar à juventude. A internet altera os padrões de apropriação do texto. É claro que todos nós também lemos na tela. Acontece que há uma geração nova que está desaprendendo como se lê fora da tela. O uso que a juventude faz da leitura parece ser alguma coisa ainda desconhecida das gerações mais velhas. Será que nós sabemos fazer a leitura de como essa juventude lê? Eis a questão.

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