50 anos do tri: A impossível missão de torcer contra aquele maravilhoso time do Brasil

Por Luiz Roberto Serrano, jornalista e superintendente de Comunicação Social da USP

Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=330812
Luiz Roberto Serrano -Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Eu tinha 11 anos de idade quando o Brasil foi campeão do mundo de futebol em 1958. Morava em Santos e meu pai empurrava a caixa de som lá de casa cada vez mais para a rua, a cada gol do Brasil – e foram nada menos do que cinco, num time em que despontava Pelé, o menino genial do meu alvinegro da Vila Belmiro.  O Brasil superava o “complexo de vira-lata”, na expressão do genial Nelson Rodrigues, que o humilhava desde o Maracanazo de 1950, quando o Uruguai calou 200 mil brasileiros que foram ao estádio para ver a seleção se sagrar campeã e espalhou lágrimas por todo o País. Em 1962, no Chile, confirmamos nosso reinado no futebol mundial. Em 1966, já no regime militar, tomados pela soberba e pela desorganização fomos desclassificados da Copa pelo Portugal de Eusébio. Em 1970, com a então Confederação Brasileira de Desportos tutelada pelo governo militar comandado pelo general Garrastazu Médici, o Brasil montou um time excepcional de craques, ainda liderado por Pelé. Eu, aos 23 anos, ainda aluno da Poli USP, me deparei com o dilema dos brasileiros que eram contrários ao regime: como torcer para uma seleção cuja vitória irrigaria a popularidade do duro governo militar instalado em Brasília?

Foi um dilema atroz para todos que adoram futebol. João Saldanha, o jornalista/técnico que dirigiu o time nas eliminatórias da Copa montou um time baseado no meu Santos e no Botafogo do Rio, as melhores equipes do País. Saldanha caiu, seja porque simpatizava com a oposição ao regime, seja porque não convocou Dario, o Dadá Maravilha, o Peito de Aço, craque ídolo de Garrastazu Médici. Zagalo, o ponta-esquerda bicampeão mundial, o substituiu, modificou o time, dando-lhe ainda mais solidez. A seleção viajou um mês antes para o México, sede do campeonato, para melhor se preparar fisicamente para uma competição em altitude de média para alta. Tudo muito organizado. O governo não queria perder a chance de conquistar o tricampeonato que daria ao País a posse definitiva da Taça Jules Rimet. E animava o País com a música Pra Frente Brasil, salve a seleção, 90 milhões, etc., etc.

No ataque, a Seleção Brasileira contava com Pelé, Tostão, Jairzinho, Edu, no meio de campo Rivelino ou Paulo César Caju, que jogaram pela ponta esquerda, Clodoaldo e Gerson, o Canhotinha de Ouro, na defesa Carlos Alberto e Piazza. Um timaço de craques, com Pelé sedento para provar ao mundo que, aos 30 anos, não havia acabado para o futebol. Uma história ilustra essa sede de vitória. Certa vez, perguntaram a Pelé se ele se intimidara diante do desafio de jogar uma Copa do Mundo pela Seleção Brasileira aos 17 anos, na Suécia. Ele respondeu que não, que a responsabilidade era dos veteranos como Didi, Zito, De Sordi, Vavá, craques consagrados. Em seguida, acrescentou que sentiu enormemente a responsabilidade em 1970, pois já era o melhor jogador do mundo e havia uma grande expectativa sobre sua atuação. “Em 1970, eu não dormia antes dos jogos.”

Em pé: Carlos Alberto, Felix, Wilson Piazza, Brito, Clodoaldo, Everaldo e Admildo Chirol (preparador físico); agachados: Mário Américo (massagista), Jairzinho, Gerson, Tostão, Pelé, Rivelino e Nocaute Jack (massagista) – Foto: Divulgação / CBF

Torcer contra esse time de craques, todos atuando em nossos times do coração aqui no Brasil, com quem nos identificávamos diariamente, foi uma tarefa dificílima, impossível, por mais que se soubesse que a conquista do tri favoreceria o regime comandado por um presidente que curtia futebol e usava essa paixão para lustrar sua imagem diante da população, num momento em que a economia dava sinais positivos, apesar dos problemas na distribuição de renda no País. “A economia vai bem, mas o povo vai mal”, dizia o próprio Médici. Nada como uma seleção vitoriosa, tricampeã, para escamotear problemas econômicos e o regime político do AI-5.

A caminhada da seleção, com craques consagrados, excelente forma física e um sistema tático que equilibrava enorme talento no meio de campo e no ataque e solidez na defesa, foi virtuosa. Dois jogos em especial foram preocupantes, contra a Inglaterra e o Uruguai, este último ameaçador.

Contra a  Inglaterra, por ser a Campeã do Mundo de 1966, Copa disputada na Loura Albion, o único título mundial que os criadores do futebol até hoje conquistaram – e numa disputa contra a Alemanha vencida com um gol duvidoso. Mas era um jogo da primeira fase, sem perigo de desclassificação, uma eventual derrota seria ruim, mas não fatal. Apenas afetaria o moral do time, o que é sempre ruim.

Contra o Uruguai, já na semifinal, jogo decisivo em que o perdedor seria desclassificado, foi o primeiro encontro em Copa do Mundo, depois do trágico Maracanazo, frustração que foi amplamente relembrada pela mídia nos dias que antecederam o encontro.  Haveria revanche, vingança, ou seríamos mais uma vez desmoralizados, apesar de nosso timaço?

Assisti ao jogo contra a Inglaterra numa república de estudantes da FAU, na Vila Mariana. Casa cheia, torcedores desconfiados, ainda vivendo a ambiguidade entre o desejo de derrota ou vitória. Jogo difícil, equilibrado, a Seleção Inglesa praticando um bom futebol, chegando ao nosso gol. Uma das jogadas marcantes foi quando Pelé subiu uns quatro andares, cabeceou para o chão, junto ao pé da trave, e o goleiro inglês Banks voou lá embaixo e pôs a bola para escanteio. Deu a sensação de que, se aquela bola não entrou, nenhuma entraria.

Foi quando Tostão, segundo seu próprio relato, percebeu uma movimentação no banco de reservas, indicando que seria substituído. Foi para o tudo ou nada. Avançou pela esquerda, driblou dois, entrou na área, passou a bola para Pelé que entrava pelo meio, que a serviu, açucarada, para Jairzinho. GOOOOLLLL. 1×0, passamos, o time ganhou mais moral e foi tirar a Romênia e o Peru do caminho, este dirigido por Didi, o Folha Seca, bicampeão mundial em 1958 e 62, profundo conhecedor do futebol tupiniquim. Também passamos.

Matéria do jornal O Globo sobre a vitória do Brasil contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1970 – Foto: Acervo O Globo via CBF

Assisti ao jogo contra o Uruguai, a semifinal, a um passo da partida decisiva, no vão da História e Geografia, aqui no campus Butantã. Uma TV havia sido especialmente colocada lá e atraiu a atenção de um bom número de uspianos que não resistiram ao apelo de um jogo daquela seleção, apesar da pretensa torcida contra o escrete canarinho.  O Uruguai fez um 1×0 e a lembrança do Maracanazo mexeu com os sentimentos ambíguos, contra e a favor, da plateia. Mas no fundo, no fundo ninguém queria outro Maracanazo.

O jogo estava difícil e a experiência dos craques em campo se fez valer. Por iniciativa própria, Gerson trocou de posição com Clodoaldo. Por estar muito vigiado Gerson recuou, passando a jogar mais atrás, atraindo seus marcadores, e pediu a Clodoaldo que avançasse. Pois, minutos depois, Tostão enfiou um passe milimétrico para um Clodoaldo livre que empatou o jogo. O vão da História e Geografia explodiu de alegria e contentamento.

Ir para o vestiário, no intervalo, com 1×1, era o melhor dos mundos, já que o jogo era eliminatório e o Uruguai não poderia jogar na retranca no segundo tempo, o que dificultaria enormemente as coisas para o Brasil. O jogo acabou em 3×1 e passamos. Torcer contra aquele time fantástico? Reavivar o Complexo de Vira-Latas, apesar de vivermos em um regime político ditatorial? Ninguém merecia, não havia ideologia que justificasse tamanho fracasso.

A grande final seria na Cidade do México, no dia 21 de junho, e pela primeira vez o Brasil saiu de Guadalajara, até então não se desgastara com viagens, sem dúvida um privilégio (veja a tabela abaixo). O adversário, a grande Itália, praticante de um futebol de primeira grandeza, também candidata a ser tricampeã, chegou desgastada, depois de uma final disputadíssima, com prorrogação, contra a poderosa Alemanha Ocidental. Assisti ao jogo no escritório da casa de uma ex-namorada, praticamente sozinho. O Brasil fez valer sua superioridade técnica e melhor condição física. Para um santista como eu, depois dos quatro dribles seguidos com que o nosso Clodoaldo armou o começo de um dos gols do Brasil, nada mais lindo do que a jogada que Pelé e Carlos Alberto fizeram no quarto gol, inspirados no seu entrosamento no Santos. À beira da área, o maior jogador da história rolou lateralmente a bola para Carlos Alberto, sabendo que ele entraria por ali vindo de trás. Não deu outra, Brasil 4 x Itália 1. A torcida mexicana, que adotara o time brasileiro, invadiu o campo, disputando peça por peça os uniformes dos jogadores brasileiros. E o povão foi às ruas, festejar muito. E o Palácio do Planalto também.

Quanto ao regime militar, demorou mais 15 anos para acabar e nesse meio tempo o futebol brasileiro foi se fragilizando, se transformando aos poucos em exportador de jogadores, de pé-de-obra, especialmente para a Europa, que, depois que a publicidade e o business invadiram o futebol, nos anos 1980, transformou-se em uma potência no esporte, Espanha, Inglaterra, Itália, Alemanha, França e Holanda, estas um pouco menos, à frente.

Consequência? Hoje a Seleção Brasileira depende visceralmente de jogadores que atuam fora do País, perdeu-se aquela identificação, o elo, entre torcedores, times locais e seleção, em que um torcedor vibrava quando um craque de sua equipe era convocado. A CBF só cuida praticamente da Seleção, pois pode contar com nossos craques que jogam no exterior e fatura fortunas com isso. Os campeonatos no Brasil? Times fortes no Brasil? Pouco lhe importam.

Chegamos ao penta, depois do tri, com seleções cujos times titulares eram quase legiões estrangeiras. De lá para cá, nada ganhamos e ainda tivemos que engolir os 7×1 do vexame da desclassificação contra a Alemanha em plena Copa no Brasil, em 2014 – um outro Maracanazo, desta vez em Belo Horizonte.

São razões suficientes, embora bem diferentes das da época do regime militar, para arrefecer  o entusiasmo pela Seleção Brasileira.

Em tempo: não esqueçamos que a Taça Jules Rimet, a conquistada definitivamente no México, foi roubada da CBF e provavelmente fundida como barra de ouro. Pode?

A CAMPANHA DO BRASIL CAMPEÃO

Primeira fase
Brasil 4×1 Checoslováquia 3/6 Guadalajara
Brasil 1×0 Inglaterra 7/6 Guadalajara
Brasil 3×2 Romênia 10/6 Guadalajara
 
Quartas de final
Brasil 4×2 Peru 14/6 Guadalajara
 
Semifinal
Brasil 3×1 Uruguai 17/6 Guadalajara
 
Final
Brasil 4×1 Itália 21/6 Cidade do México

.

P.S.: A TV brasileira transmitiu a Copa de 1970 ainda em preto e branco. As transmissões coloridas só foram introduzidas no País em 1973.

.

.


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.