Núcleo da USP aproxima público da arte afro-brasileira

Dança, batuque, teatro e capoeira; atividades são conduzidas pelo contramestre Pinguim na USP

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Núcleo de Artes Afro-brasileiras da USP completa 10 anos de existência em 2017  – Foto: Cecília Bastos/USP Imagem

 

“A capoeira é a luta para fugir da briga”. É assim que o contramestre Pinguim define essa manifestação cultural genuinamente brasileira que junto com a dança, percussão e o teatro são algumas das atividades desenvolvidas pelo Núcleo de Artes Afro-brasileiras da USP. Resultado da atuação do grupo Guerreiros de Senzala e sob liderança de Luiz Antonio Nascimento Cardoso, o contramestre Pinguim, o núcleo está comemorando 10 anos de atividades.

“Estamos desenvolvendo cultura, mexendo com transmissão de saber, com o corpo que fala, e é isso que o ser humano faz há mais de 300 anos”, comenta Pinguim. “Contamos história de sotaque, de gingado, de tudo o que está acontecendo nesse Brasil colorido. Não somos livros didáticos falando apenas de um passado.”

A ressocialização proposta pelo projeto teve início conturbado, com uma série de realocações, falhas de permanência e dificuldade no diálogo com a Universidade. Presentes na USP desde 2007, os Guerreiros da Senzala nasceu na década de 1990 na zona oeste de São Paulo e trouxe para o meio universitário – um espaço predominantemente técnico – o lúdico, como cultura.

O trabalho social sempre foi precursor nas atividades do grupo. Empregando aspectos culturais afro-brasileiros enquanto ferramenta pedagógica da realidade social, o objetivo maior deles é reconhecer e valorizar a diversidade nacional, indo contra o preconceito e o racismo.

Outro aspecto presente no núcleo é o respeito com o contramestre Pinguim. Participantes e colaboradores lembram que Luiz Antonio Nascimento Cardoso foi, e continua sendo, um dos grandes responsáveis por quebrar barreiras da exclusão impostas no ambiente acadêmico.

“O Pinguim é uma pessoa fundamental. Com sua dedicação, consegue passar conhecimentos da cultura afro-ameríndia da maneira como elas são. Essa preservação da tradição, da essência dos costumes populares é a responsável por provocar esse choque de cultura, que questiona quem é você, e se você está vivo.”, comenta Thiago Mendes, colaborador do núcleo.

Para além do conhecimento individual, o espaço interdisciplinar que o grupo ocupa serve de base para pesquisas de alunos da graduação, mestrandos e doutorandos. As atividades ali realizadas são analisadas por uma panorama acadêmico.

Cotidiano

O núcleo conta com uma série de cursos permanentes, nos quais semanalmente lecionam-se aulas de Capoeira Angola, Dança Afro e Maculelê, Percussão e Aperfeiçoamento em Dança e Criações de Espetáculos. O foco é atingir e convidar a comunidade como um todo, trabalhando com a disciplina e dedicação daqueles que se dispõem a se envolverem no projeto.

Nascida na época da escravidão, contramestre Pinguim afirma que a capoeira é algo brasileiro. “As lutas vieram da África, mas a capoeira é nossa”. Desenvolvida sempre com ginga, durante as aulas não se trabalham apenas movimentos, mas uma contextualização da história, dos motivos de cada golpe e da falsidade envolvida naquela dança — que na verdade era combate.

Nas quatro horas semanais onde se joga dentro do núcleo, lembra-se da herança negra e da resistência dos escravos. A negativa — movimento tradicional da Capoeira Angola — nas palavras do contramestre, vira uma cobra preparando o bote. Cada deslocamento tem sua essência conservada na natureza e na observação que escravos faziam dos animais para descobrirem de que maneira os bichos se defendiam.

Contramestre Pinguim durante atividade no Núcleo de Artes Afro-brasileiras – Foto: Cecília Bastos/USP Imagem

Os ensinamentos transportam alunos a dois séculos no passado, motivando cada passo e comparando cada situação a um momento que já foi real para negros e negras no Brasil — a defesa da vida em relação ao senhor.

A percussão, por sua vez, trabalha com toques de base nos moldes da cultura afro. O aluno tem desde o primeiro contato com o instrumento, as primeiras lições, atividades avançadas e canto. “Tanto no Maculelê, na Capoeira e no Samba mesclam-se toque, voz e corpo, já que na tradição africana, não se divide música e dança como é feito em nossa sociedade”, explica Thiago.

O foco do grupo é aprendizado. A partir do momento que alunos ingressam nas atividades, cobra-se apenas a dedicação ímpar com os ensinamentos transpassados nas aulas. Nenhuma das atividades realizadas possui algum tipo de formatura ou graduação — fato que reitera uma aquisição diária do conhecimento no espaço.

Extensão

O Núcleo de Artes Afro-brasileiras é responsável pela organização de diversos eventos, exposições e projetos de extensão. Além das atividades que irão ocorrer no mês de outubro em comemoração aos 10 anos, a iniciativa já realizou também mostras fotográficas, viagens sociais e espetáculos destinados ao público externo.

Dentre os destaques, o grupo sediou encontros nacionais de artes afro-brasileiras, recebeu visitas de professores estrangeiros e acumulou prêmios. Contramestre Pinguim ganhou o troféu África-Brasil por seu trabalho à frente da iniciativa.

“As ações do Núcleo de Extensão e Cultura em Artes Afro-brasileiras transcendem o espaço físico que ocupa na Universidade. O diálogo com a sociedade ocorre através de esforços múltiplos como apresentações artísticas em eventos científicos e culturais, palestras, oficinas, workshops e publicações.”, dizem os colaboradores do grupo em nota.

Participantes de aula de capoeira no Núcleo de Artes Afro-brasileiras da USP – Foto: Cecília Bastos/USP Imagem

Em mais uma dessas aproximações, o núcleo promove de 17 a 19  jantar de recepção com os mestres, exibição de documentários, rodas de samba e conversa, atividades de culinária, música, dança, interpretação e cultura afro-brasileira.

Encontro de Artes Afro-Brasileiras 2017 ocorre nos dias 17, 18 e 19 de Outubro, no Núcleo de Artes Afro-Brasileiras da USP (Travessa 5 da Avenida Professor Lúcio Gualberto). Confira o horário das programações no flyer. O evento é gratuito, no entanto, pede-se uma colaboração voluntária a ser destinada aos mestres e mestras presentes.

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