Estudantes da USP levam música para escolas

Projeto da Faculdade de Educação e da Escola de Comunicações e Artes promove concertos em escolas públicas

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Os estudantes de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP Fábio Ferreira e Lucas Vieira interpretam composições de Jacob do Bandolim, Astor Piazzolla e Máximo Diego Pujol, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Solano Trindade, em São Paulo
Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

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Estamos no Jardim Boa Vista, zona oeste de São Paulo. É uma sexta-feira chuvosa, 8 de dezembro. A Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Solano Trindade já está em ritmo de final de ano. As crianças brincam no pátio de entrada e professoras carregam doces para a confraternização de encerramento do semestre. Numa sala nos fundos da escola, contudo, algo diferente acontece. Uma turma de estudantes se encontra com a música de Jacob do Bandolim, Astor Piazzolla e Máximo Diego Pujol, trazidas à vida pela flauta e pelo violão de graduandos da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

Após as apresentações, os músicos conversam com estudantes, apresentam os instrumentos e tiram dúvidas – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

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A apresentação faz parte do projeto Música na Escola, organizado pelo Departamento de Música da ECA, em parceria com a Faculdade de Educação (FE) da USP. Sob a coordenação do professor Antonio Carrasqueira, estudantes das disciplinas do Laboratório de Música de Câmara (Lamuc) realizam exibições em escolas públicas de São Paulo. São duas instituições municipais, a Emef Solano Trindade e a Emef Brasil-Japão, e duas estaduais, a Escola Estadual Antonio Francisco Redondo e a Escola Estadual Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo.

Ainda em caráter experimental, o projeto começou neste segundo semestre de 2017 e levou a cada escola uma apresentação mensal. A seleção das instituições participantes e a mediação com os gestores ficaram a cargo da Faculdade de Educação.

“Esse projeto tem a ver com a Universidade abraçar mais a comunidade”, conta o professor Antonio Carrasqueira. Para ele, a USP possui um “tesouro” em seu Departamento de Música que precisa estar mais próximo da população. “A música é tão manipulada nas rádios, nas televisões, a gente fica muito triste de ver a pobreza musical que vem sendo oferecida à população, sabendo que há uma riqueza tão grande.”

Segundo Gina Falcão, mestranda em Música, o projeto busca uma troca de saberes entre os estudantes da USP e os alunos da educação básica – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

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Conforme explica a mestranda em Música Gina Falcão, da equipe de produção do projeto, o objetivo é ampliar o repertório tanto dos estudantes de graduação quanto dos alunos da educação básica. “Nossa intenção é que exista uma troca de saberes, tanto para a educação básica quanto para os alunos da Universidade, porque, uma vez que eles vêm aqui, têm de se preparar, saber o contexto das obras, pensar no que estão tocando, refletir sobre a prática. E, em contrapartida, para os estudantes que estão aqui, é a oportunidade de parar para pensar, ouvir, sentir, fruir.”

Antes das apresentações, os estudantes preparam e disponibilizam materiais de apoio para as escolas. Biografias, sugestões de contextualização histórica e trechos de vídeos e áudios são oferecidos para os professores.

Exibições abertas ao público fazem parte das atividades obrigatórias das disciplinas do Lamuc. A novidade que o Música na Escola traz é levar essas apresentações, tradicionalmente feitas na própria Universidade, para fora de seus muros.

Fábio Ferreira e Lucas Vieira, em apresentação na escola Solano Trindade – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

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“O perfil da plateia muda bastante”, comenta o estudante de Música da ECA Fábio Ferreira, um dos músicos que tocaram na Solano Trindade durante a sexta-feira chuvosa. “O mesmo concerto, como o coral de flautas que a gente apresentou em todas as escolas, em cada uma teve um contexto diferente, porque as pessoas, as crianças, os adolescentes, os jovens, os adultos, professores, funcionários são diferentes. Então, ao mesmo tempo em que você leva uma experiência única para cada escola, também é uma experiência única para os músicos que estão executando nas escolas.”

Os músicos do projeto são alunos das disciplinas oferecidas pelo Laboratório de Música de Câmara do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

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Ferreira destaca também a possibilidade de diálogo das crianças e adolescentes com os graduandos. “É muito difícil o contato presencial com o músico. Existe uma distância muito grande entre quem está na plateia e quem está no palco. Muitas vezes não se abre para perguntas, não se sana a curiosidade de saber como é a vida de músico, que existe a possibilidade de ser um músico. Então, sempre nos finais de concerto a gente abre para perguntas também.”

A diretora da Emef Solano Trindade, Silvana Camargo Ribeiro, também destaca essa interação. “Nós temos um currículo que se fortalece a partir do repertório dos nossos alunos, mas o que eles conhecem é geralmente o funk, o pagode, o que está na mídia. Quando eles veem uma flauta, por exemplo, têm acesso a uma parte da música que é importantíssima para a gente.”

Silvana reconhece que o alcance da iniciativa pode ser limitado, mas não considera isso um problema. “Se conseguimos, num universo de 800 alunos, acender uma centelha em um ou dois, isso já é um ganho. Pode parecer pequeno, mas é aí que vemos o resultado.”

Para a educadora Marina Capusso, da Faculdade de Educação, projeto traz benefícios para o público das escolas e para os estudantes da USP – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

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A educadora da Faculdade de Educação da USP Marina Capusso destaca o significado do projeto como uma troca que a Universidade faz com a sociedade. “Nós entendemos que o projeto pode ser uma contrapartida da USP a essas escolas, já que elas recebem nossos estagiários, os estudantes das licenciaturas da USP. Ou seja, elas são parte essencial da formação desses alunos.”

O próximo objetivo do Música na Escola é se transformar em projeto de extensão da USP, conforme explica Marina. “É um projeto piloto. Ele começou neste semestre e a pretensão é que ele continue. E para isso a gente precisa de um apoio institucional da Universidade.”

“A gente gostaria que ele fosse muito maior”, comenta Carrasqueira. Segundo o professor, a expectativa para 2018 é ampliar o número de escolas participantes e oferecer bolsas para os músicos.

“Achamos que Música deveria estar na escola como matéria regular, como Matemática, Português, Geografia. A música é fundamental para o pleno desenvolvimento humano. Estamos fazendo um esforço como o beija-flor, que tenta apagar o incêndio na floresta. A gente tenta levar uma gotinha, um pouco de música para as crianças e adolescentes.”

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