Molécula descoberta em pesquisa brasileira pode salvar diabo-da-tasmânia de extinção

Inicialmente identificada em aranha em SP, gomesina tem ação terapêutica e é estudada para tratar doença que acomete mamífero australiano

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Diabo-da-tasmânia: entre 70% e 90% dos espécimes morreram nos últimos 15 anos, grande parte de câncer de face, tumor altamente contagioso entre esses animais, e que causa feridas principalmente na boca e no nariz – Foto: Gelmo94/Wikimedia Commons

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Um peptídeo (composto que pode formar proteínas) encontrado em pesquisas brasileiras está sendo aplicado em estudos internacionais buscando a cura de doença que acomete o diabo-da-tasmânia, mamífero marsupial que habita a ilha australiana e está em risco de extinção.

A maior ameaça ao animal – conhecido mundialmente pelo personagem de desenho animado Taz – é o tumor facial, e a molécula que agora representa esperança para o tratamento foi descoberta em doutorado realizado no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB)_da USP no ano 2000.

A gomesina é um peptídeo isolado do sangue da Acanthoscurria gomesiana, uma aranha encontrada no Estado de São Paulo. Essa molécula possui fortes características antimicrobianas. “Nós temos no nosso sangue anticorpos que ajudam a nos defender de doenças, e esses animais mais simples também têm substâncias que os protegem”, explica Pedro Ismael da Silva Junior, professor da Pós-Graduação Interunidades em Biotecnologia do ICB e pesquisador do Instituto Butantan. O peptídeo já apresentara eficiência contra fungos, vírus, bactérias e alguns tipos de câncer.

Foto: Amada44/Wikimedia Commons

Proteínas ou peptídeos com ação antimicrobacteriana são aqueles que possuem a capacidade de identificar células ou agentes estranhos ao sistema do animal e destruí-los. Essas moléculas podem agir de duas formas, segundo Silva Junior: rompendo a parede celular do agente estranho, derrubando seu conteúdo interno e lhe causando a morte, ou entrando no micro-organismo e causando danos internos, como inibição da produção de outras proteínas.

A busca por novos medicamentos em animais peçonhentos é algo muito comum no mundo acadêmico. O interesse em particular por aranhas é explicado pela pouca evolução dos animais. O doutor explica que as aranhas são animais que surgiram há 400 milhões de anos e que, pelos fósseis encontrados, apresentam poucas mudanças evolutivas desde então, mesmo vivendo em locais com grande presença de micro-organismos, como fungos e bactérias.

O diabo-da-tasmânia, representado no personagem Taz, da Warner Bros. – Foto: Reprodução/Warner Bros. Animation

Soma-se a isso, o fato de ficarem expostas periodicamente a esses agentes enquanto crescem, uma vez que os artrópodes, filo ao qual pertencem os aracnídeos, possuem esqueleto externo (exoesqueleto). Isso significa que as aranhas precisam trocar de exoesqueleto para crescer, ficando desprotegidas dos agentes externos até a formação de um novo esqueleto. Dessa forma, para terem sobrevivido tanto tempo com tão poucas mudanças, esses animais possuem um bom sistema de defesa adquirido pelo processo de seleção natural, o que o tornou tão efetivo contra doenças e agentes estranhos, explicou o professor Ismael Silva Junior.

Câncer de face em diabos-da-tasmânia

A doença que acomete os diabos-da-tasmânia é o tumor facial do diabo-da-tasmânia ou cancro facial do diabo-da-tasmânia (TFDT). O TFDT é um tipo de câncer altamente contagioso entre esses animais, caracterizando-se por feridas na face, principalmente na boca e no nariz. Esses machucados vão aumentando e se espalhando, destruindo os rostos dos diabos-das-tasmânia e os impedindo de comer, o que lhe causa a morte por inanição.  O câncer se espalha de maneira rápida e se apresenta em 65% da ilha da Tasmânia. A cura do tumor pode salvar essa espécie da extinção.

Mais informações: e-mail pisjr@usp.br, com Pedro Ismael da Silva Junior

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