Seria o Talibã o único capaz de pacificar o Afeganistão?

Marília Fiorillo diz que a mídia tenta nos fazer crer que o verdadeiro inimigo não é o Talibã, mas sim o Isis-K, que seria o verdadeiro responsável pelo ataque ao aeroporto em Cabul recentemente. Nessa versão, o Talibã surge como pacificador

 03/09/2021 - Publicado há 2 meses

Esta semana, a professora Marília Fiorillo foca sua análise na cobertura que a grande mídia tem dado à crise no Afeganistão, tentando nos persuadir de que só o Talibã é capaz de pacificar o país. Nessa versão, o grande inimigo seria, na verdade, o Isis-K, que seria, por sua vez, inimigo do Talibã e autor do ataque no aeroporto de Cabul. De acordo com Marília, o Daesh, ou Isis, é uma dissidência não do Talibã, mas da Al-Qaeda, da qual foi expulso por excesso de vandalismo desorganizador. O Daesh, diz a colunista, é o mais delinquente dos grupos delinquentes, mas a mídia insiste em proclamar que o verdadeiro perigo consiste no Isis-K, “portanto o Talibã seria dos males o menor”.

“A leitura de muitos artigos e reportagens”, prossegue ela, “nos levam sutilmente a crer que, conforme querem Trump e Biden, aqueles sujeitos que proíbem música e educação das meninas e adoram um apedrejamento em estádio são a única esperança de pacificação […] vende-se a ideia de que o Isis-K é inimigo e não o braço útil do Talibã”. Nessa linha de raciocínio, ignoram os massacres perpetrados pelo Talibã contra as minorias étnicas.

“A esperteza dessa versão sutil, que proclama o Talibã como único pacificador possível, é a sutileza em nos desviar do essencial e nos abarrotar com o uso estratégico da irrelevância, isto é, exibir os horrores como entretenimento negro e frisar a lealdade e carinho das potências com os seus. Quase nos convencem a torcer para que os modernizados e condescendentes Talibãs ponham logo ordem na casa, pois eles seriam a única saída contra o caos, já que não sobrou fuzileiro. Assim, nos impingem, sem que notemos, um verdadeiro garrote cognitivo, que subliminarmente estrangula nossa compreensão.”


Conflito e Diálogo
A coluna Conflito e Diálogo, com a professora Marília Fiorillo, vai ao ar toda sexta-feira às 10h50, na Rádio USP (São Paulo 93,7 FM; Ribeirão Preto 107,9 FM) e também no Youtube, com produção do Jornal da USP e TV USP.

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