Atentado no Afeganistão torna ainda mais incerto o destino do país e de seu povo

Samuel Feldberg vê o destino do Afeganistão com incertezas, mas “sua população provavelmente sofrerá com a reimposição da lei islâmica. Talvez o Talibã tenha aprendido com a lição de 2001 e não promova o terrorismo internacional”

 27/08/2021 - Publicado há 3 meses
Apesar dos grupos extremistas estarem fora do país há duas décadas, a estabilidade nunca chegou a reinar de fato no Afeganistão –  Foto: Fardin Waezi/Fotos Públicas

 

Até o momento desta publicação, mais de 100 pessoas haviam morrido, incluindo 13 militares americanos e, ao menos, 90 cidadãos afegãos, no atentado terrorista do Estado Islâmico-Khorasan (Isis-K), no aeroporto internacional de Cabul, capital do Afeganistão, na quinta-feira (26). As forças de segurança americanas estão em alerta para a possibilidade de mais ataques, e a retirada de americanos e afegãos não foi suspensa. As explosões ocorreram perto do portão Abadia, onde a segurança é feita pelos Estados Unidos, e o ataque foi assumido pelo braço afegão do Estado Islâmico,um grupo extremista rival do Talibã. O ataque foi obra de homens-bomba e homens armados, que atacaram não só afegãos que se aglomeravam no portão, na tentativa de sair do país, como também soldados americanos que faziam a triagem para os voos de evacuação. O porta-voz do Talibã condenou o atentado.

O alerta sobre um ataque do tipo já havia sido dado pelas Agências de Inteligência de diversos países, como os Estados Unidos, o Reino Unido e a Alemanha. Em pronunciamento, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, afirmou que a filial afegã do Estado Islâmico pagará pelo atentado e que a operação de retirada de americanos e aliados afegãos do país não será interrompida. Biden, no entanto, não deu detalhes sobre qual será a retaliação. “Aos que executaram esse ataque: Não perdoaremos nem esqueceremos. Caçaremos vocês e faremos vocês pagarem”, disse o presidente. “Os Estados Unidos não serão intimidados.” Biden ainda ofereceu condolências às famílias das vítimas do ataque.

O certo é que a retomada do controle do Afeganistão pelo Talibã apenas confirma o que diziam os especialistas nos conflitos dessa região, ou seja, que apesar dos grupos extremistas estarem fora do país há duas décadas, a estabilidade nunca chegou a reinar de fato naquele lugar.
Samuel Feldberg – Foto: Arquivo pessoal

O cientista político Samuel Feldberg, doutor em Ciência Política pela USP, professor de Relações Internacionais, especialista em Oriente Médio e conflitos internacionais, diz “que foi necessário negociar com o Talibã para obter acesso a diversas regiões do país, muitas delas distantes da capital Cabul”, explica. Diferentemente do que se imagina, não foi a retirada das tropas americanas do Afeganistão que levou ao êxito do Talibã, mas a rendição das forças de segurança dos próprios afegãos.

Para entender por que os Estados Unidos ocupavam o Afeganistão é preciso voltar um pouco na história. Após os ataques de 11 de setembro de 2001, o presidente dos EUA na época, George Bush, declarou “guerra ao terror” e invadiu o Afeganistão. Visando a colocar um fim ao conflito, que já durava 20 anos, o Talibã fez negociações diretas com os Estados Unidos em 2018 e, em fevereiro de 2020, os dois lados fecharam um acordo de paz em Doha, no Catar. Os Estados Unidos, através do presidente Donald Trump, se comprometeram a tirar as tropas norte-americanas do país e o Talibã prometeu não atacar as forças americanas. O Talibã, um grupo fundamentalista islâmico, surgiu no início da década de 1990, no norte do Paquistão, após a retirada das tropas da União Soviética do Afeganistão. No decorrer dos anos, vários líderes foram se articulando politicamente.

O cientista político Samuel Feldberg avalia que “as fronteiras não se alteram, mas as áreas fronteiriças, especialmente no norte, são habitadas por grupos étnicos, como uzbeques e tadjiques, que se opuseram ao Talibã no passado. E no Vale do Panjshir já se articulou um movimento de resistência”, prossegue. “China, Rússia e Irã, por estarem próximos e verem com bons olhos a retirada americana, podem apoiar o novo governo.”

O destino do Afeganistão é incerto, mas “sua população provavelmente sofrerá com a reimposição da lei islâmica. Talvez o Talibã tenha aprendido com a lição de 2001 e não promova o terrorismo internacional”, conclui o especialista em Oriente Médio e conflitos internacionais.


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