Universidades precisam formar educadores que sejam interdisciplinares

Naomar de Almeida Filho, titular da Cátedra de Educação Básica do IEA/USP, diz que o caminho está na superação dos modelos disciplinares de formação

São muitos os desafios e as expectativas para o ensino superior, sendo necessárias diversas mudanças e discussões na estrutura universitária. Neste mês, a Cátedra de Educação Básica do IEA, parceira do Instituto de Estudos Avançados (IEA) e do Itaú Social, passou a ter um novo titular, Naomar de Almeida Filho, epidemiologista e ex-Reitor de universidades federais que, em sua trajetória, se esforçou para mudar o modelo de ensino dessas instituições. Um dos seus pilares é a interface da universidade com a educação básica, um dos temas que abordou em entrevista ao Jornal da USP no Ar.

Dois pontos de trabalho do professor visitante do IEA foram essenciais para sua aproximação com a Cátedra. O primeiro deles é a baixa internacionalização das universidades brasileiras, como a USP, com número de alunos estrangeiros muito inferior às universidades do Hemisfério Norte. O segundo é justamente o objetivo central da Cátedra, preocupada com a baixa contribuição para a qualidade da educação básica, principalmente as redes públicas.

“Nesse segundo aspecto, o trabalho que eu estava realizando já convergia com o foco principal da Cátedra: o desafio da USP para amplificar e lidar com a interface da formação para os níveis de educação fundamental e média no contexto nacional”, destaca Almeida Filho. Segundo ele, o caminho para isso se resume basicamente em superar os modelos disciplinares de formação, quando o educador formado é capacitado apenas para uma disciplina. Licenciaturas acabam sendo recortadas por áreas como história, matemática, biologia, entre outras.

Para exemplificar a necessidade dessa superação, passando para um modelo interdisciplinar, o professor traz a questão do entendimento da atual pandemia do novo coronavírus pela qual estamos passando. “A pandemia é um fenômeno que recorta muitas esferas da realidade e você não vai compreendê-la apenas do ponto de vista molecular”, afirma. Ou ainda com o conjunto de demandas complexas do sistema de saúde, ou como uma doença do ponto de vista clínico. “Se fizer cada um desses recortes isoladamente, vai haver uma perspectiva que não resolverá o problema.”

O professor cita uma hipótese de que aprender não é somente acumular conteúdo, e sim encontrar formas de se relacionar com a realidade. De acordo com ele, seus colegas na Cátedra têm uma clareza teórica muito boa sobre a educação infantil, havendo uma convergência de que a criança aprende de maneira integral. Contudo, a escola vai disciplinando essa forma de aprender e os alunos chegam no ensino médio presos, como ele diz, “em uma caixinha”. “Quando entram na universidade, eles estão ainda mais dentro dessas caixas e eu imagino que a educação desencoraja, de uma forma bem eficiente, a compreensão do mundo”, explica o novo titular da Cátedra de Educação Básica do IEA.

Ouça a entrevista na íntegra no player acima.


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