Tratamento da asma deve focar na inflamação e não apenas nos sintomas

“Nos últimos anos, temos de três a seis mortes por asma todos os dias no mundo”, destaca Rafael Stelmach

No Brasil, estima-se que a prevalência de asma seja em torno de 10% da população, sendo que os casos de asma grave estão abaixo de 5% do total. Em 2008, a asma foi a terceira causa de internação hospitalar pelo SUS, com cerca de 300 mil hospitalizações ao ano. O Ministério da Saúde abriu consulta pública para avaliar a incorporação do medicamento omalizumabe. Ele é indicado para tratamento da asma alérgica grave em pacientes que não conseguiram o controle da doença, apesar do tratamento preconizado. O Jornal da USP no Ar conversa com o doutor Rafael Stelmach, da Divisão de Pneumologia do Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina (FM) da USP, chefe do Ambulatório de Asma do Incor e embaixador da Iniciativa Global para Asma (Gina) no Brasil.

Stelmach esclarece que o omalizumabe já é utilizado no Brasil há mais de 15 anos. A utilização do medicamento acontece em grande parte na rede privada. Na rede pública, o remédio já foi obtido através de ações judiciais, ou administrativas junto à Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo. No Ambulatório de Asma do Incor, o omalizumabe faz parte da medicação padrão há quase seis anos, mesmo não sendo disponibilizado via SUS.

“Ele é eficaz no paciente certo, com asma grave”, discorre o doutor sobre a utilização do omalizumabe, e avança: “Já é a terceira consulta pública, mas é sempre a Conitec – Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS – que acaba não liberando. É uma medicação realmente cara para o SUS, mas necessária para esses pacientes”.

O chefe do Ambulatório de Asma explica que o diagnóstico costuma ser realizado na infância, entre os 6 e 7 anos de idade. Na maior parte dos casos, a origem é hereditária, no entanto não é baseada em asma propriamente dita, mas sim por uma doença alérgica respiratória – cientificamente chamada de atopia. A doença alérgica manifesta-se basicamente por três expressões clínicas: rinite alérgica, acompanhada da sinusite, dermatite alérgica e a asma. “Em geral, essas expressões não acontecem ao mesmo tempo, mas podem acontecer.”

Os sintomas da asma são falta de ar, tosse seca e chiado no peito. Isso acontece porque a doença fecha as vias aéreas de condução dos pulmões – os brônquios e os bronquíolos. Esse quadro pode ser popularmente chamado de bronquite, “mas uma bronquite que dura a vida inteira é uma asma”, ressalta Stelmach. O doutor lembra, também, que não há cura para a doença até o presente momento. “Na verdade, do ponto de vista médico, não trabalhamos com a ideia de cura, mas sim de controle, que é a definição de toda doença crônica. Elas precisam ser controladas”, esclarece.

As crises de asma são uma exacerbação da doença, muitas vezes por conta de fatores externos. Como há uma constante inflamação dos brônquios, o tratamento preventivo envolve o uso de anti-inflamatório. “Um medicamento que desinflama as vias aéreas, permitindo a passagem do ar. Temos, assim, as tais das bombinhas – nada mais que uma tecnologia.” Como a doença afeta o pulmão, nada mais lógico que introduzir o medicamento no órgão pelo menor trajeto possível.

Introduzida na década de 60, as bombinhas continham um broncodilatador. Ao utilizá-la, o paciente tem seu brônquio dilatado, com isso há um alívio dos sintomas da asma. Por muito tempo, esse procedimento era compreendido como um tratamento para a asma, o que não é. “Há uma mudança, desde os anos 90, sobre o que é a asma. Essa mudança entre tratar os sintomas e tratar a inflamação ainda não é entendido pela maior parte da população, inclusive por parte de alguns médicos”, discorre Stelmach.

Diferente do que se imagina, a morte por asma não é rara. “Nos últimos anos, temos de três a seis mortes por asma todos os dias no mundo”, destaca o embaixador da Gina no Brasil. “São mortes provocadas pelo não cuidado; o tratamento é muito eficaz, mas sem ele pode ocorrer um fechamento agudo das vias aéreas, impossibilitando a respiração do paciente.”

Para mais informações sobre a asma, visite as redes sociais da Gina no Brasil.


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