Populismo e discernimento na universidade

Por Walter F. Wreszinski, professor titular aposentado do Instituto de Física da USP

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Walter F. Wreszinski – Foto: Arquivo pessoal
Richard Feynman, professor da Caltech e detentor do Prêmio Nobel de Física pelas suas contribuições à eletrodinâmica quântica, disse uma vez: “Nessa era de especialização, pessoas que conhecem profundamente um campo de atividades são frequentemente incompetentes para julgar um outro. Os grandes problemas das relações entre um e outro aspecto da atividade humana têm, por esse motivo, cada vez menos sido discutidos em público”.

Entretanto, é uma das funções primordiais da universidade promover tais discussões! Um dos motivos principais de fazê-lo é entender os fatores sociopsicológicos que conduziram ao populismo, hoje observado em diversos países do mundo, e a sua repercussão na universidade.

Gostaria de fazer um breve apanhado desses fatores. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, surgiu como compensação do vácuo existente a teoria do mercado, que prometia a prosperidade. Mas já apareciam obstáculos. Em 1945, Paul Valéry afirmava: “A Europa acabou”. Em 1948, Georges Bernanos, de Ouro Preto, escrevia que “a vida moderna, robotizada, é uma conspiração contra todo tipo de vida interior”.

Quem poderia imaginar que isso tudo iria desembocar em tempos do smartphone, nos quais se “foge à liberdade” entregando-se por longos tempos a um cassino de jogos virtuais imbecis que estimulam a passividade e embrutecem a alma? Talvez Einstein, que afirmou: “Temo o dia no qual a tecnologia venha a superar o humanismo. No mundo restará apenas uma geração de idiotas”.

Com a queda do humanismo, ocorreu o distanciamento da Natureza, com o qual o Homem se tornou cada vez mais inseguro, e procurou as redes sociais para compensar o isolamento. Esse isolamento trazido pela tecnologia consumista se caracteriza pela ausência de contatos pessoais e discussões entre indivíduos, a não ser aquelas em que há um elemento de proveito. A velha “conversa desinteressada”, ponto culminante da civilização, foi substituída pela busca desenfreada de sucesso, pelo calculismo e pelo oportunismo selvagem.

A decadência dos contatos trouxe a queda da ética. Umberto Eco, nos seus Cinque scritti morali, diz: “Quando l’altro entra in scena, nasce la etica”. A verdadeira cultura e a parte conceitual da ciência também são consideradas “elementos inúteis” nesta paisagem pragmática e superficial. O populismo político, que se baseia no contato com o povo através de pouquíssimos elementos banais (sobretudo polarizar uma fração da população, fazendo que ela se sinta “superior” à outra, por motivos não ligados a qualquer mérito, como por exemplo pertencer a um grupo étnico “escolhido”), veio de forma natural, para distrair as massas dos problemas do cotidiano e compensar o vazio existencial.

Os populistas são os arqui-inimigos da cultura e da ciência, porque estas contribuem de forma decisiva ao discernimento das pessoas, dificultando a manipulação das massas. A ética, que também é um obstáculo a este último desígnio, não tarda a cair. Com o seu desaparecimento, predomina o caos, pois caem as regras precisas de comportamento a ela associadas. Um exemplo interessante ligado à cultura foi a proibição de pintar, por ordem de Hitler, ao artista Emil Nolde (ele continuou em segredo).

Esse quadro toma formas particulares na universidade. Com a queda do humanismo, de tudo o que é emocional e se tornou “mercadoria inútil” no sentido do mercado, desapareceu também o respeito à natureza. Heráclito dizia que a natureza ama esconder-se, e Einstein falava do “mistério” das leis naturais, mas hoje a natureza não precisa mais se esconder: impera a vida artificial, virtual.

Por exemplo, os múltiplos e difíceis problemas conceituais da física parecem ter cedido lugar a uma grande multiplicidade de possíveis descrições da realidade, e Dijgraaf, um eminente representante da Teoria das Cordas, afirma: “Não há leis da física” (ver www.quantamagazine.org). Dessa forma, um estudante certamente conseguirá contribuir com algo, pois as diversas teorias estão conectadas por uma vasta paisagem de possibilidades matemáticas. Por que não contribuir com a sua própria teoria?

Leonardo da Vinci, um dos maiores pensadores da humanidade, era um cidadão eclético (como Platão, Goethe), e afirmou: “A arte vive de obstáculos, e morre da liberdade”. Também na ciência, à qual Leonardo muito contribuiu, o processo criativo é profundamente ameaçado pelo refúgio em especializações que ignoram os difíceis problemas colocados pelo entendimento das leis da natureza.

Uma característica comum a quase todos os políticos populistas é negar fatos básicos até mesmo do cotidiano, quando esses não se “encaixam” no esquema político a que se propõem (por exemplo, o processo de aquecimento global e suas consequências).

Em uma recente intervenção no Parlamento Europeu, a menina Greta Thunberg afirmou: “Não é possível fazer acordos com a física”. Essa característica também invadiu a ciência, como observamos acima, e, nas artes (por exemplo, na música), esse processo é muito bem descrito por Stravinsky em suas aulas em Harvard (Poetics of music: a vintage books, 1956). A entrada do populismo científico-cultural na universidade já ocorreu, portanto, e isso em escala internacional.

A universidade necessita urgentemente enxergar as verdadeiras dimensões do populismo científico-cultural, e a ameaça que ele constitui à sua própria existência e razão de ser.

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