Pesquisas de novas enzimas levam Nobel de Química 2018

Norberto Peporine Lopes é professor titular da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto-USP

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Norberto Peporine Lopes – Foto: Maria Leonor de Calasans/IEA
Um britânico e dois norte-americanos foram os laureados deste ano, por pesquisas que impactam principalmente produtos farmacêuticos e biocombustíveis

A Academia Real de Ciências da Suécia anunciou hoje, 3 de outubro, às 11h45, na cidade de Estocolmo, o Prêmio Nobel de Química 2018. Três cientistas foram laureados pelas pesquisas no desenvolvimento de novas enzimas e anticorpos para uso nas mais diversas áreas como: novos produtos farmacêuticos, detergentes, catálise verde e biocombustíveis. Os vencedores foram o britânico Sir Gregory P. Winter e os norte-americanos Frances H. Arnold e George P. Smith. Metade da premiação de nove milhões de coroas suecas (£ 770.000) vão para a doutora Arnold e a outra metade será dividida entre o doutor Smith e Sir Winter.

Arnold foi agraciada por suas pesquisas realizadas no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), nos Estados Unidos,  focadas em química verde e energias alternativas. Através de suas pesquisas foi possível introduzir mutações genéticas específicas visando à obtenção de enzimas estáveis e altamente ativas, principalmente focadas na degradação de celulose, permitindo um salto significativo no desenvolvimento de produtos a partir de biomassa.

A pesquisadora obteve sucesso na produção de enzimas estáveis em diversos solventes, ampliando significativamente o uso de proteínas como catalisadores que resultam na interrupção de uso de catalisadores tóxicos. Esse avanço levou ao desenvolvimento de enzimas para diferentes campos de aplicação, incluindo a produção de biocombustíveis e a de insumos farmacêuticos. Os resultados com os estudos de microorganismos, selecionados para converter biomassa renovável em biocombustíveis e produtos químicos, resultaram em diversas patentes e culminaram  na fundação da empresa Gevo, Inc. em 2005. Essa empresa é focada em produtos da biomassa, processos de fixação de CO2 e biocombustíveis com foco em jatos comerciais. Considerando a projeção de que em 2020 os jatos comerciais vão utilizar, anualmente, cerca de 15 bilhões de litros de combustíveis, a substituição destes, mesmo que parcial, pelos produtos oriundos das pesquisas da doutora Arnold, será de grande relevância econômica e ambiental.

A segunda metade do prêmio foi destinada às pesquisas realizadas por Sir Winter e o doutor Smith sobre a metodologia de Phage Display, técnica que proporciona a síntese e a expressão de peptídeos/proteínas na superfície de vírus filamentosos. Vírus estes conhecidos como fagos, que infectam bactérias. Os pesquisadores desenvolveram a tecnologia para projetar fagos geneticamente modificados que pudessem apresentar, em sua superfície (capsídeo viral), peptídeos/proteínas para uso nas ciências básicas e aplicadas e com potencial uso para terapias e diagnósticos. Um ponto de grande reconhecimento pela sociedade em geral foi o fato de esta tecnologia ter permitido a produção de anticorpos recombinantes humanos, hoje já empregados no tratamento de diversos tipos de doenças, como câncer e doenças autoimunes.

A doutora Arnold foi a única mulher a receber o prêmio de Química nesta edição. A última cientista da área de química agraciada com o prêmio foi a doutora Ada E. Yonath, em 2009, que dividiu o prêmio por seu trabalho de entendimento da estrutura dos ribossomos: as estruturas de fabricação de proteínas dentro das células. Ada Yonath esteve recentemente no Brasil para participar da IUPAC 2017 (46th World Chemistry Congress) e 40ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Química.

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