Eram os deuses jornaleiros?

Jurandir Renovato é jornalista e editor-executivo da “Revista USP”

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Jurandir Renovato – Foto: Cecíla Bastos / USP Imagens

No subúrbio nunca existiu livraria. Ainda não existe. À medida que nos afastávamos do centro e/ou dos bairros contíguos a ele, as livrarias, que já não eram muitas, iam dando lugar às papelarias, onde se podia encontrar de tudo, de material escolar a utensílios de escritório, de cartões-postais (isso ainda existe?) a livros, principalmente didáticos. Hoje em dia, mesmo as papelarias mudaram sua feição, engolidas pelas grandes redes de lojas e supermercados.

Continuando essa espécie de percurso centrífugo na geografia da cidade, em direção àquela área do subúrbio mais longínqua, a que se denomina “periferia”, para não dizer “lá onde Judas perdeu as botas”, as papelarias também iam se obliterando, pelo menos aquelas nas quais havia livros, até desaparecerem por completo e serem substituídas por algo que originalmente não tinha a função (nem a vocação) de vendê-los: as bancas de jornal.

Esses quiosques de lata e zinco surgiram no início do século XX e logo se espalharam pela paisagem urbana como um meio eficaz de veicular a informação. Você acordava cedo para ir à padaria buscar o filão de pão e o leite de saquinho e aproveitava para dar uma olhada nas últimas notícias do país e do mundo, na vida íntima dos artistas de TV e rádio, na escalação do seu time de futebol, na previsão do tempo para o fim de semana. Se tivesse alguns trocados sobrando levava também o gibi do Tio Patinhas, o “coquetel” de palavras-cruzadas, a sabedoria do Reader’s Digest, o último número da Playboy.

Desde a década de 50 que algumas editoras pressentiram ali um local de venda de livros. Mas foi no final dos anos 60 e início dos 70 que a coisa vingou de fato. E a Editora Abril foi soberana. Sobretudo no segmento que Laurence Hallewell, no seu fundamental O livro no Brasil, chama de “público consumidor médio”. Primeiro vieram os fascículos; as enciclopédias que íamos adquirindo aos bocados, semanalmente, e então entregávamos ao jornaleiro para algum tempo depois, como por milagre, ele nos devolver um volume encadernado cheirando a novo.

Dessa época lembro particularmente de Os bichos e de A grande aventura do homem, mas foi sem dúvida a Enciclopédia Abril que se configurou como uma das mais ousadas investidas do mercado editorial brasileiro, ao reunir um grupo de notáveis intelectuais e cientistas tupiniquins para criar verbetes originais e exclusivos, sendo a primeira publicação desse tipo produzida integralmente no país.

Existiam também as coleções literárias, como os Imortais da literatura universal, os Clássicos modernos, os Clássicos da literatura juvenil e o Teatro vivo, organizado por Sábato Magaldi. Eram boas traduções, algumas muito boas, outras nem tanto, mas sempre edições bem cuidadas, em capa dura, com papel de razoável qualidade e preço acessível. Os pensadores, por exemplo, com autores e obras até então inéditos em português, ainda hoje são referência, inclusive na universidade.

Depois vieram os discos encartados em fascículos: os Grandes compositores da música universal, As grandes óperas, a História da música popular brasileira, esta última recuperando gravações raras de Chiquinha Gonzaga, Noel Rosa, Pixinguinha. A cantora Marisa Monte conta que aprendeu a gostar de MPB ouvindo essa coleção, cujos discos seus pais tinham em casa. Tudo em pleno regime militar! Mas claro que isso não foi mérito da ditadura, pelo contrário – foi descuido.

Dizem que no início dos anos 70 veio ao Brasil um pesquisador norte-americano para colher dados sobre hábitos culturais dos brasileiros, um paradigma, àquela altura, de povinho subletrado. Imaginem esse sujeito se deparando, logo de cara, com a circunstância de que os produtos culturais mais consumidos naquele momento, superando qualquer best-seller do Jorge Amado ou o último long-play do Roberto Carlos, foram, respectivamente, o romance Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski, e o disco contendo a Sinfonia nº 5 em dó menor, de Beethoven!

Imaginem o espanto desse pesquisador. Decerto pensou ter pousado no país errado, talvez na Argentina, cuja fama de suas inúmeras livrarias desde muito atravessara o oceano, ou quem sabe no Chile, uma tripinha riscada na margem ocidental da América do Sul, mas já com dois Nobel de literatura no currículo.

Tendo ou não ocorrido essa visita, no entanto, o fato é que tudo isso só faz sentido quando pensamos nos métodos de distribuição da cultura e da informação naqueles tempos, nos meios enviesados que os produtores de conteúdo lograram empreender para efetivar essa distribuição. E quando fazemos isso não podemos deixar de lembrar também da figura emblemática do jornaleiro.

Menos especializado que um livreiro, e portanto mais próximo do leitor médio, o bom jornaleiro, aquela pessoa a quem recorríamos na infância à procura de gibis ou figurinhas ou livros (e quase todo mundo tem o seu jornaleiro da infância), durante muito tempo se manteve (e ainda se mantém, a duras penas, é verdade) numa das extremidades da cadeia de produção e circulação da cultura impressa.

Esses quiosques de lata e zinco surgiram no início do século XX e logo se espalharam pela paisagem urbana como um meio eficaz de veicular a informação.

Banca de jornal na Av. Paulista – Foto: João Pedro C. Dorado

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Em Portugal a palavra “jornaleiro” tem outro significado, mais amplo, de quem trabalha por jornada, mais ou menos como free-lancer, só que diário, diferente do jornaleiro de banca, que, quando não é o dono do ponto, é assalariado mensalista. Na cidade de Lisboa, portanto, um jornalista, nesse sentido (ao menos em tese), pode ser jornaleiro, mas um vendedor de jornais, não.

Numa edição portuguesa de mitologia que li na adolescência, me surpreendeu saber que Aquiles trabalhava como jornaleiro. Quem assistiu ao filme Troia, com Brad Pitt no papel do herói grego, pode ficar agora tentado a inferir que o autor lusitano estivesse taxando Aquiles de mercenário, que também é uma espécie de free-lancer. Mas isso é meia verdade.

Aliás, quem não conhece as artimanhas e idiossincrasias desta última flor do Lácio, alguém de outro país, digamos, ou de outro planeta, pode facilmente confundir “jornaleiro” com “jornalista”. O que não estaria totalmente errado pois alguns jornaleiros, principalmente os mais antigos, aqueles que faziam de suas bancas um local de socialidade e discussão de ideias, eram tão ou mais bem informados que muitos profissionais da imprensa. O fato é que os sufixos -ista e -eiro geralmente formam palavras associadas a profissões, apesar de o primeiro, por algum obscuro motivo, relacionar-se quase sempre àquelas tidas como mais nobres.

Ao tentar desviar-se dessa armadilha, o incipiente falante de português pode cair em outra ainda pior, de chamar o sujeito de banqueiro ou bancário. Ainda assim, pensando bem, também não estaria tão enganado, já que o jornaleiro passa a maior parte do tempo sentado num banco…

Meu irmão foi jornaleiro por um tempo. Chegou a ter uma banca no interior de São Paulo, uma banca à maneira dos quiosques portugueses, de madeira e teto de zinco, a bem da verdade, um foguete espetado no meio de uma praça tranquila da cidade. Menos afeito à leitura de jornais, Marcelo preferia vender livros de filosofia, fascículos de enciclopédia e revistas de divulgação científica, eventualmente também de esoterismo, paranormalidade e ufologia. Assim, ao longo do tempo foi criando uma assídua clientela de leitores ávidos por ciências ocultas, relatos de experiências pós-morte e abduções extraterrestres.

Um cliente típico do meu irmão, portanto, estava mais interessado em saber se eram mesmo os deuses astronautas do que averiguar a sempre deselegante disputa política ou o previsível campeonato brasileiro. Antes um alienígena que um alienado, vamos dizer assim, ou ambas as coisas, já que os dois vocábulos provêm da mesma fonte. Mas como esse tipo de clientela não chega a ser exatamente o que conhecemos por legião, Marcelo precisou diversificar os negócios para sobreviver e assim passou a comercializar também alguns produtos fora do cardápio estritamente editorial.

Bem cedinho, ele abria a banca e pendurava seus livros e revistas nas folhas e batentes das janelas com a meticulosidade de um monge trapista. Numa manhã em que eu estava por perto, ele me pediu para tomar seu lugar por “alguns minutos”. Eu já havia vendido todo seu modesto estoque de jornais e algumas revistas quando vi aproximar-se um garotinho. Ele parecia um tanto desconfiado, visivelmente estranhando a minha presença ali. Depois de me entregar uma moeda, disse que queria uma fubeca, “das graúdas!”, fez questão de frisar.

Sem entender o que ele dizia, permaneci atônito. Então, com a complacência de quem sabe estar diante de um ignorante, mas tem dó, o garoto me fez compreender que as fubecas são bolinhas de gude mais duras e resistentes e, portanto, bem mais difíceis de se deixar cair no buraco. E por isso, além de sua natural resistência, quanto mais graúdas, melhor. Ele me explicou da maneira dele: simples e perfeita. Me ocorre então que nestes tempos em que a informação e o conhecimento se diluem no enxovalho das opiniões infundadas ou da “voz imbecil”, de que fala Umberto Eco, aquela que esganiça a si mesma, como um oroboro engolindo a própria cauda, um bom jornaleiro é também uma espécie de fubeca graúda, a resistir diante do buraco que se abre aos pés da inteligência. Da nossa inteligência.

Naquela noite, aconchegado com um bom livro de banca na varanda da casa dos meus pais, enquanto todos já dormiam, olhei para o céu e ele me pareceu forrado de bolinhas de gude, de fubecas de todas as cores e tamanhos. Posso jurar que também vi um óvni.

 

 

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