Elton Medeiros: um orgulho do samba do Brasil

Por Eliete Negreiros, cantora e doutora em Filosofia pela Universidade de São Paulo

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Eliete Negreiros – Foto: Arquivo pessoal da autora

Momento de luto no samba. Dia 3 de setembro morre o grande sambista Elton Medeiros. Deixa uma obra maravilhosa. Um tesouro. Seus sambas estão e estarão entre as mais belas canções populares brasileiras. Não são apenas belos sambas, o que já seria muito. São canções emblemáticas que, mesmo sendo eternas, falam de uma época, de um modo de viver, de ser, de compor. Só para citar algumas: O sol nascerá, com Cartola, Pressentimento, com Hermínio Bello de Carvalho, Mascarada, com Zé Kéti, e Onde a dor não tem razão, com seu parceiro mais constante, Paulinho da Viola.

Elton Medeiros nasceu na Glória, no Rio de Janeiro, no dia 22 de julho de 1930. Estava com 89 anos. Sobre ele, Luiz Fernando Viana disse: “Viveu o suficiente para testemunhar o seu reconhecimento como mestre em tudo que se propôs a fazer em música – compositor, cantor, ritmista e até pensador, já que era um militante contra a estigmatização racista do samba como algo menor”.

Elton Medeiros em foto de 2011, durante lançamento do livro Ensaiando a canção – Paulinho da Viola e outros escritos, de Eliete Negreiros – Foto: Arquivo pessoal da autora

Em sua juventude, tocava trombone e talvez aí esteja a origem de tão refinadas melodias. Sobre isso, Zuza Homem de Mello disse: “Do mesmo nível dos mais destacados compositores da história do samba, Elton Medeiros levava uma vantagem que se reflete nitidamente em sua obra, a de ter sido trombonista. Suas melodias tinham uma elaboração mais refinada, sua obra é mesmo a de um compositor diferenciado”.

Outro elemento que o identifica é a sua inconfundível caixinha de fósforos, que ele tocava como ninguém. Basta lembrarmos das gravações de Para ver as meninas (Paulinho da Viola) e Meu mundo é hoje (José e Wilson Batista), ambas por Paulinho da Viola.

Os anos 60 foram especialmente marcantes para ele. Nessa década, fez parte de dois grupos de samba muito importantes: A Voz do Morro e Os Cinco Crioulos. Formavam este último: Elton, Paulinho da Viola, Jair do Cavaquinho, Nelson Sargento e Anescarzinho do Salgueiro.

Elton Medeiros, Eliete Negreiros e Eliane Faria, filha de Paulinho da Viola, Rio de Janeiro, abril de 2011 – Foto: Arquivo pessoal da autora

Em 1961 ele e Cartola compuseram O sol nascerá. Há uma história conhecida e surpreendente sobre a criação desse samba. Ele nasceu de um desafio: num encontro, um amigo os desafiou a fazerem um samba naquele momento. E surgiu esta beleza, que veio a ser gravada por Nara Leão, em seu disco de estreia, em 1964. Foi nessa década também que Elisete Cardoso gravou dois sambas seus: Meu viver (Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho e Kléber) e Rosa de Ouro (Elton Medeiros, Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho). Elisete ouviu as canções no restaurante Zicartola, no antológico show Rosa de Ouro, criado por Hermínio Bello de Carvalho e que revelaria Clementina de Jesus. Conta Elton: “O Zicartola nasceu dos encontros na casa do Cartola, na Rua dos Andradas. O Cartola se reunia com a gente”. Foi lá que nasceram dois dos principais shows do período: Rosa de Ouro e Opinião. E é por isso que Hermínio Bello de Carvalho disse que o “Zicartola não foi um restaurante, foi um movimento cultural”.

Foi em volta de Cartola que Elton Medeiros e Paulinho da Viola foram tecendo os laços de uma grande amizade e de uma parceria musical que os uniria por toda vida – Recomeçar, Vida e Onde a dor não tem razão.

Um dia, eu estava pensando nessa incrível parceria. Como será que eles compunham? Quem fazia o quê? Elton, a música e Paulinho, a letra? Seria o mais provável. Mas… quem sabe fizessem ambos as duas coisas? Ou não havia regra, cada vez acontecia de um jeito? Eu podia perceber que em algumas composições a melodia parecia ter a assinatura do Elton, como em Vida e em Onde a dor não tem razão. Mas não tinha certeza. Fui então perguntar para o Alexandre Rainer, amigo e produtor do Elton, que respondeu o seguinte: “Ele me disse que as composições dele em parceria com Paulinho alternam melodias de um e de outro e nas letras o mesmo caso, sendo que no processo criativo os dois se permitem também sugestões de frases melódicas e versos, tanto de um como de outro. No caso de Vida, a melodia é toda dele e a letra toda do Paulinho. É o mesmo caso de Onde a dor não tem razão.

Paulinho da Viola compôs um lindo samba para o amigo Elton Medeiros, Um cara bacana. E é com esses versos que termino esta homenagem ao grande sambista, mestre que tive a felicidade de conhecer, de ouvir, de gravar – Peito vazio, parceria com Cartola, e O melhor carinho, parceria com Eduardo Gudin – e de ter como amigo querido nesta vida:

Carregar uma lua no peito e a fama/ De tecer melodias em busca de um samba/ Que desfaz e refaz/ Como fosse um menino/ É assim que se tem a essência/ De um cara bacana/ Aprendiz de uma escola de amor onde o lema/ É criar e sonhar espalhando poemas/ E se o sol nascerá/ O melhor é sorrir/ Pra levar esta vida […] E são tantas histórias e tantos parceiros/ Sou um deles e posso mostrar seu perfil/ De quem falo, é claro/ É de Elton Medeiros/ Um orgulho do samba do Brasil.

Eliete Negreiros – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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