Diário de um bacalhoeiro

Jurandir Renovato é jornalista e editor executivo da “Revista USP”

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Jurandir Renovato – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Para quem julgava, como eu, que as singularidades do bacalhau não fossem além das batatas e do azeite, aqui vão compilados alguns excertos do diário de bordo do lugre bacalhoeiro Santa Gertrudes, redigido por seu capitão João Ferreira Gomes da Silva no ano de 1529. Tais documentos foram depositados na Biblioteca da Torre do Tombo sob o número 666.666, o que, além de atestar sua veracidade, talvez explique o sobrenatural desinteresse de estudiosos e pesquisadores portugueses ao longo dos anos. E ainda que não possam ser enquadrados categoricamente como “crônicas do descobrimento”, decerto o são de alguma forma.

Encimando os papéis há a seguinte inscrição, manuscrita e sem data: “Em que se justifica e dá testemunho da provável compatibilidade dos fatos aqui narrados com a ulterior Revolução Francesa, donde também se depreende ser tal narrativa diarística antecipadora nalguns aspectos, e em mais de duzentos anos, da dita Revolução, bem como, por conseguinte, gênese do uso figurado dos termos ‘esquerda’ e ‘direita’ mui em voga nos dias correntes; e de uma possível primeira expedição à Terra Nova dos Bacalhaus”.

Como esses documentos chegaram até mim é quase tão inacreditável quanto o conteúdo de suas páginas, mas isso fica para outro momento… Digo apenas que soube pela primeira vez de sua existência numa certa banca de alimentos do Mercadão Municipal de São Paulo, local dos mais propícios para se discutir os descaminhos da política e do estômago. O que, no mais das vezes, é a mesma coisa.

***

Terça-feira, 12 dias do mês de abril do ano da graça de 1529 sob os auspícios do venturoso El-Rei Dom Manuel, senhor de toda terra de Portugal e Algarves, daquém e dalém mar. Só hoje me dei conta de que há entre a tripulação uma figura estranha ao meu conhecimento, de nome Joaquim Antunes, que de pescador não tem nada, salvo arrotar bafos de marinheiro, alegando-se neto de um dos integrantes da esquadra de Pedro Alvarez Cabral, dito e havido como legítimo descobridor das terras do pau-brasil. O sujeitinho anda por aí, de popa a proa, a meter caraminholas na cabeça dos desocupados, tirando-lhes a atenção dos bacalhaus para botá-la nas perdições do diabo. Vou vigiá-lo com mais cuidado.

Quarta-feira, 13 dias do mês de abril do ano da graça de 1529 sob os auspícios do venturoso El-Rei Dom Manuel, senhor de toda terra de Portugal e Algarves, daquém e dalém mar. Passei o dia espreitando o tal Antunes nas suas arengas com os homens e ainda agora posso ouvi-lo a ouriçá-los com a descrição das gentis formosuras das moças brasílicas. Segundo atesta pela alma do avô, as tais andam como Nosso Pai Santíssimo as criou, todas saradinhas de pelugem e sem a indispensável vergonha de suas vergonhas mui graciosas, trocadilho esse que ele afirma ser de autoria de um certo Pero Vaz de Caminha, a que nosso larápio acrescenta outro, de sua própria lavra e estilo, para regalo dos tontos do convés, de já estarem as índias bem descobertas, calculadas e certinhas antes de o Cabral as descobrir por um erro de cálculo.

Sábado, 16 dias do mês de abril do ano da graça de 1529 sob os auspícios do venturoso El-Rei Dom Manuel, senhor de toda terra de Portugal e Algarves, daquém e dalém mar. Toda a tripulação passou o dia consertando uma verga de traquete que se desprendeu por conta da insensatez do proeiro de nome Belmiro Gaspar, o qual, por desarrazoado, tentou encaixar a adriça no nariz de proa, no que, por desaforo, encaixei-lhe um bom chute no rabo. Só me mandam estrupícios aqui neste barco. E depois não me venham reclamar da falta do prato de bacalhau lá por terra, se aqui pelo mar o que falta é gente que preste para me ajudar na “faina maior” de pescá-lo. Por essas e por outras, perdi o Antunes de vista e de ouvido.

Segunda-feira, 18 dias do mês de abril do ano da graça de 1529 sob os auspícios do venturoso El-Rei Dom Manuel, senhor de toda terra de Portugal e Algarves, daquém e dalém mar. O dia de hoje passou tal e qual os de ontem e anteontem, no reparo intermitente dos mastros e velas que se desarranjam ao sabor das refregas. Os ventos sopravam tão forte pela manhã que até eu, capitão e escrivão desta nave, tive de ir para o convés instruir esses trastes. Não sei se pelas patranhas do Antunes – pois ninguém neste mundo está a salvo das fraquezas da carne nem das tentações do chifrudo –, ou se pelo desacostume nas lidas do trabalho braceiro, o fato é que o meu pulso direito enrosca como uma dobradiça velha.

Terça-feira, 19 dias do mês de abril do ano da graça de 1529 sob os auspícios do venturoso El-Rei Dom Manuel, senhor de toda terra de Portugal e Algarves, daquém e dalém mar. Meu pulso direito está que não se aguenta. E como, por bênção do Santíssimo, não sou canhoto, que pela esquerda, como é dito e sabido, não se cumprimenta Deus, pior que este dilúvio a despencar desde a madrugada é ter de escrevinhar dia sim dia sim esse cabeçalho comprido, que não chega a lugar nenhum. Tanto me incomoda esse costume diarístico que noite passada tive um sonho estranho, no qual, estando em meio às índias do pau-brasil, inventava, antes do tempo certo das coisas, o control-c e o control-v.

Quarta-feira, 20 dias do mês de abril do ano da graça de 1529 sob os auspícios do venturoso El-Rei Dom Manuel, senhor de toda terra de Portugal e Algarves, daquém e dalém mar. Esses cabeçalhos estão a me dar nos nervos. Ao inferno com eles! Quem há de me repreender? Esses marujos de meia-tigela mal sabem diferenciar um sinal de interrogação de um anzol. A não ser o Joaquim Antunes, são todos analfabetos de sete gerações. Ademais, onde já se viu bacalhoeiro ter diário de bordo? Pronto e decidido: a partir de amanhã só coloco o dia da semana.

Quinta-feira. Sobreveio uma caganeira geral na tripulação. Mesmo com a torrencial chuvarada não tem como não sentir o odor fétido que desce do tombadilho já tão castigado do ordinário fedor das tripas dos peixes. Sou obrigado a me refugiar nos meus aposentos. Daqui não saio nem sequer para satisfazer as necessidades, que atiro fora pela escotilha. Tenho de subir num banquinho para fazer isso. Ontem as pernas do dito cujo se partiram em duas e eu recebi na cabeça toda sorte de imundícies. Será que o Todo-Poderoso resolveu me punir? Sem contar que esse aguaceiro todo me impede a visão do firmamento, de onde sempre guiei o caminho por estes mares gelados de bacalhaus, desde o Mar do Norte até a Noruega, pois de sextantes e astrolábios só conheço o nome e não a cara.

Sexta-feira. Ai, Jesus! que este Gertrudes vai acabar dando com os cornos em algum iceberg.

Domingo. As ferrugens do pulso sumiram junto com as águas da tormenta. Talvez devesse voltar ao modo escorreito de encabeçar o registro dos acontecidos do dia, com precisões de data e salamaleques. Tanto mais que, por tantas e quantas terças e quintas apartadas do dia do mês, é bem capaz de um futuro leitor destas tortas linhas ter-me na conta de um lunático a encolher e esticar o tempo ao seu bel-prazer. Para o bem da minha sanidade, no entanto, que se danem os leitores e toda essa corja que há de vir e que ainda não veio e à qual nunca vou conhecer, pois a me fiar no pândego Agostinho, que por sua época de santo ainda não tinha nada, só posso viver no presente, hic et nunc. Então continuemos assim como está. Que vai muito bem.

Quinta-feira. A calmaria em que nos encontramos há dois dias tem deixado os homens ainda mais amolengados do que já o são por natureza. O tal do Joaquim Antunes se aproveitou da situação para retomar suas anedotas indecentes sobre a terra das índias peladas. Os menos sensatos se amontoam ao redor dele para ouvir-lhe a prosa despudorada. Teve um, de nome José das Saudades, que chegou a dar de prancha e cair na água gélida de tão abstraído no sensacionalismo das histórias. Mandei-lhe aplicar então duas dúzias de vergastadas bem dadas com o objetivo terapêutico duplo de lhe esquentar os ossos e endireitar-lhe os miolos. Outros tantos, por certo ainda aconchegados à palavra do Senhor, parecem já mostrar sinais de incômodo com a situação, mas mantêm-se calados, amoitados pelos cantos, sabe lá fazendo o quê. Isso ainda vai acabar mal.

Quinta-feira. Hoje aconteceu um fato inusitado. Nem bem o sol mostrou as graças, surgiram cardumes do “fiel amigo”, como cá chamamos os bacalhaus, dos dois lados da embarcação. Por sorte o Sta. Gertrudes é provido de quantos desses pequenos barcos pesqueiros que se chamam dóris à esquerda e à direita, o que em linguagem náutica é tido por bombordo e estibordo. Os homens ficaram alvoroçados e tive de ralhar com eles para que se pusessem em ordem antes de se lançarem ao mar. Continuando assim, não há de faltar mais bacalhau na mesa de Vossa Majestade.

Sexta-feira. O dia de hoje foi cópia do anterior, apenas com uma nota de distúrbio entre os homens devido a um fato excepcional esquecido por mim de mencionar ontem. Os cardumes que apareceram dos dois lados não são exatamente iguais, sendo os de estibordo de uma espécie diferente, mais cabeçudos que os de bombordo, de modo que os pescadores, por assim dizer, da esquerda se ressentiram pelo fato de os seus peixes serem mais franzinos que os da direita, e quiseram trocar de lado. Foi uma confusão dos demônios, tão maior que o próprio diabo do Antunes se pôs a requerer a igualdade dos cabeções. Amanhã, a se repetir o quiproquó, terei de tomar alguma medida.

Sábado. Tendo se repetido as animosidades do dia de ontem, resolvi dar um basta aos chiliques do convés por meio de uma lei salomônica: a partir de hoje todo bacalhau pescado, seja à esquerda ou à direita, à bombordo ou à estibordo, terá sua cabeça extirpada e devolvida ao oceano, para que assim, diante de Deus e dos homens, os mesmos ditos “fiéis amigos” passem a ter iguais condições de peso e aparência. Se não se faz a igualdade na alma indelével dos pescadores pela consciência da razão divina, que se faça então na carne salgada dos peixes pela imposição da justiça humana.

Domingo. A lei acabou desagradando a gregos e troianos. Os da direita porque tinham na conta certa as vantagens da sua boa sorte, e se Deus lhes proporcionava os peixes graúdos é porque assim queria a natureza das coisas e que assim o ficasse, como um direito divino. Os da esquerda, por sua vez, inconformados com a raquitice de seus peixes, e já vislumbrando a troca de lado de modo a se compensar a injustiça e a diferença de cobre nos bolsos, indignavam-se com a perda do que para eles representava uma desforra diante dos privilégios de alguns poucos. E foi aí que o Joaquim Antunes viu uma brecha para amotiná-los, em prol de sabe-se lá que ligação entre eles, gritando “liberdade! igualdade! fraternidade!”, a fim de mudarem o curso dos ânimos e do leme para irem ao encontro das maravilhas do Novo Mundo. Então, ai Jesus!, o pau comeu solto à estibordo e à bombordo.

Sábado. Nada me resta fazer contra a insurgência desses esquerdistas de bombordo, os quais de bom não têm nada, posto que, como se diz, é à direita de Deus que estão as boas ovelhas, e estas, quais sejam as de estibordo, já não têm o poder de mudar o rumo do destino, o mesmo que se faz agora não pela fé, mas pela ré, na direção das terras do inferno, em busca das vergonhas saradinhas. Ei-los embriagados a comemorar a vitória com seus confrades, sendo seu líder, o Antunes, o mais vitorioso dentre todos.

Domingo. De minha cabine posso ouvir o amolar dos cutelos para o abate dos inocentes. Em breve virão me buscar, para decepar-me a cabeça e jogá-la ao mar dos bacalhaus e das sardinhas. Ai, que de tanto amputar cabeçalhos e cabeçorras me arrancam agora o cabeçote! A mim, João Ferreira Gomes da Silva, capitão do lugre bacalhoeiro Sta. Gertrudes, fiel servo de Deus e de V. M. El-Rei Dom Manuel, bem-aventurado senhor de toda terra de Portugal e Algarves, daquém e dalém mar, aos 18 dias do mês de maio do ano da graça de 1529, mas isto – maldito seja! – já vai sobrescrito e encabeçalhado até o Dia do Juízo. Amém.

 

 

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