Inverdades, pós-verdades e outras mentiras deslavadas

Jurandir Renovato é jornalista, crítico literário e editor executivo da “Revista USP”

Por - Editorias: Artigos
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Jurandir Renovato, jornalista da Revista USP – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Para Heitor Ferraz

Uma vez perguntei ao biógrafo e historiador Jorge Caldeira, autor do excelente Mauá, empresário do Império, se ele já se sentiu tentado a mudar uma verdade histórica a fim de obter um efeito literário melhor. Ele não gostou da pergunta. E tinha todas as razões do mundo para não gostar.

No momento em que celebridades enraivecidas juntavam forças contra as ditas biografias não autorizadas, cujo estopim havia sido o livro do pesquisador Paulo Cesar de Araújo sobre a vida do cantor Roberto Carlos, naquele momento, digo, uma pergunta como aquela carregava em si um componente perigoso que podia dar munição extra a quem, no fim das contas, fosse por arrogância, ingenuidade ou má assistência jurídica, defendia, sim, a volta da censura.

A minha pergunta, contudo, não era capciosa. Até porque, entre sentir-se tentado e sucumbir à tentação vai um caminho bem largo. Acontece que eu estava pensando naquela ideia de a história ser uma interpretação ou reinterpretação, com lentes atuais, de um fato passado. Nesse sentido, nada impedia de um relato histórico ser constituído por verdades reconstruídas a partir, enfim, da subjetividade de quem o descreve. Queria entender isso melhor.

Pensava, também, na Decadência da mentira, do Oscar Wilde, quando ele fala que os historiadores antigos, como o próprio Heródoto, nos deram ficções encantadoras como se fossem fatos reais. Curioso que alguém pudesse dar valor justamente às fantasias do Pai da História. Era como prestigiar os descompassos de Beethoven, os gols perdidos do Pelé ou a unha encravada da Scarlett Johansson.

Por outro lado, também tinha ouvido um romancista dizer que, ao criar um personagem baseado numa pessoa de carne e osso, tivera de mudar a profissão do sujeito para não parecer marmelada de ficção. Como assim? Seria possível que um fato verídico fosse tão pouco convincente a ponto de precisar ser reinventado para parecer real?

Meti a mão na sacola das minhas lembranças filosóficas e puxei de lá um Aristóteles desmilinguido com cara de quem passou a noite na esbórnia. Tá bom. Aquela suposta contradição tinha a ver com a ideia de verossimilhança interna, disso eu sabia, tinha lido a Poética. Mas o que valia para a literatura podia valer também para a história, para a biografia, para o jornalismo?

E o estagirita maldormido do meu lado disse que não, que daí estávamos entrando no terreno movediço da ética. Ele arregalou os olhos como os bêbados fazem quando tentam se manter acordados e resmungou: “Procura o Nicômaco, que ele te explica tudo tim-tim por tim-tim”. Como eu não queria saber de outro grego me atazanando a paciência, despachei o peripatético sabichão de volta pra Antiguidade.

Mais ou menos isto, então: quando a realidade não é verossímil, sorte do romancista, azar do historiador. Tinha minhas dúvidas. Após ter feito toda a pesquisa em fontes confiáveis, entrevistado inúmeras pessoas, consultado centenas de documentos, em algum momento o historiador (ou o biógrafo ou o jornalista) vai ter de enfrentar-se consigo mesmo. É o momento – aquele momento – em que ele passa a contar a história a seu modo e do seu ponto de vista.

Tratando exclusivamente do biógrafo, o historiador François Dosse, em seu livro O desafio biográfico, diz que “o recurso à ficção no trabalho biográfico é, com efeito, inevitável na medida em que não se pode restituir a riqueza e a complexidade da vida real”. Concordo plenamente, mas vai falar isso pro Roberto Carlos e pro Caetano Veloso!

Pensava, também, na Decadência da mentira, do Oscar Wilde, quando ele fala que os historiadores antigos, como o próprio Heródoto, nos deram ficções encantadoras como se fossem fatos reais.

É perigoso mexer com as idiossincrasias e melindres das pessoas. Principalmente quando são famosas. Até os mortos têm quem cuide de seu patrimônio biográfico. E, nesses casos, a ética é mesmo implacável.

Oscar Wilde que o diga. Ele feriu a ética e os bons costumes de sua época e por isso foi condenado à prisão. Como escritor, apesar de ter uma das línguas mais ferinas de seu tempo, nunca escreveu a biografia não autorizada de ninguém; como homem, no entanto, apesar de se ressentir da decadência da mentira, teve a coragem de dizer a verdade sobre si mesmo. E esse foi o seu erro.

Se vivesse nos dias de hoje, Wilde talvez até se surpreendesse com a quantidade de mentiras veiculadas diariamente no mundo virtual. Mentiras sem encanto algum que recebem o nome de “pós-verdades”. Talvez, como eu, ele não conseguisse alcançar direito o sentido exato do termo. Nem a sua vantagem.

Pior ainda se soubesse que o conceito de pós-verdade, como eu suspeito, é primo de primeiro grau daquela odiosa sentença de Goebbels (só podia vir daí) de que uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.

Portanto, se Wilde fosse uma dessas celebridades que vez ou outra são dadas como mortas na internet e se o seu pretenso obituário recebesse, digamos, umas quinhentas mil curtidas no Facebook, não adiantaria tentar desfazer o mal-entendido. Se o fizesse conseguiria no máximo uma meia dúzia de emoticons emburrados e o comentário de que “eh 1 mentirozo 100 nossaum!”, escrito assim mesmo, pois nas redes sociais – ele logo descobriria – não há também quem acredite muito na ortografia.

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