Desafios para o suprimento de respiradores para pandemia de covid-19

Por Adriana Marotti de Mello e Alvair Silveira Torres Jr., professores do Departamento de Administração da FEA/USP

Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=310127
Alvair Silveira Torres Junior – Foto: Arquivo pessoal
Adriana Marotti de Mello – Foto: Arquivo pessoal

Quem estuda gestão de operações sabe que um dos maiores desafios está justamente em se planejar a capacidade de uma operação, ou seja, como organizar os recursos de operação para atender a uma demanda futura, e muitas vezes incerta. E a previsão de demanda é um dado fundamental para o planejamento de recursos de produção, que significa responder às questões: quanto devo produzir? Como obter os insumos necessários? Quando devo pedir esses insumos?No atual cenário, com o rápido crescimento dos casos de covid-19 no Brasil, esse desafio de planejar a capacidade de atendimento é ainda mais crítico. O Ministério da Saúde afirmou em entrevista coletiva em 24/03 que o Brasil está relativamente bem atendido quanto a vagas em UTI. Novas unidades de atendimento estão sendo construídas em esquema de emergência, como na cidade de São Paulo.

Contudo, não são apenas necessárias vagas em uma UTI . A experiência na China e na Itália mostra que a evolução da doença leva à necessidade do uso de respiradores ou ventiladores mecânicos – equipamentos que mantêm a oxigenação quando o pulmão perde sua capacidade respiratória. Baseado em dados da experiência chinesa, publicados no New England Journal of Medicine, estima-se que cerca de 6% dos pacientes hospitalizados com a covid-19 necessitem do uso desses equipamentos.

Dados do Ministério da Saúde apontam que existem no país cerca de 61 mil respiradores/ventiladores em uso (sendo que 43 mil estão na rede pública do SUS). Boa parte desses recursos já estão sendo utilizados em pacientes graves já em tratamento. O governo anunciou (sem detalhar planos, contudo) a compra de 20 mil desses aparelhos. Para ter uma melhor visão sobre o problema a ser enfrentado, vamos fazer um breve exercício de previsão de demanda a seguir.

Com base em dados extraídos da curva de ascensão dos casos no Brasil, disponibilizada por colegas pesquisadores da plataforma Observatório Covid-19 BR, no último dia 21/03 , eram contabilizados 1.128 casos em todo país. No dia anterior eram 904, uma sexta-feira, dia em que algumas autoridades públicas anunciaram medidas de isolamento social.

A progressão de casos na última semana mostrava crescimento de aproximadamente 25% ao dia. Se essa taxa permanecer estável, com nenhuma medida de achatamento da progressão, ou se não houvesse crescimento – cenário pouco provável na ausência de medidas restritivas –, em 30 dias, a partir daquela data, a previsão seria de termos aproximadamente 55 mil casos graves necessitando de respirador.

Ora, diante de uma capacidade instalada de 61 mil, estaríamos no limite e obviamente já faltando em alguma localidade, uma vez que além da quantidade há desigualdades na distribuição em um país continental. Não consideramos aqui a dinâmica de renovação dos ocupantes dos leitos com pacientes curados ou entrando em óbito, uma vez que o período de previsão é curto, de 30 dias, diante de uma doença que exige até 21 dias de uso de respiradores.

Mais recentemente, os dados do Observatório apontam para uma taxa de progressão de quase 20% ao dia, para os próximos cinco dias. Não se pode ainda assegurar que tal redução se deva às medidas de isolamento que têm sido adotadas após o dia 20 de março e o fim de semana subsequente, mas o fato é que, voltando ao exercício de previsão, podemos verificar o grande impacto que uma pequena redução na taxa de progressão diária provoca na demanda.

Em um cenário um pouco mais otimista, considerando o crescimento em taxa de 19,7% ao dia e de forma estável para os próximos 30 dias, necessitaríamos de 40 mil ventiladores na última semana de abril, uma redução de 28% na demanda. Por outro lado, em um cenário mais pessimista, por exemplo, dobrando os casos a cada três dias, com uma taxa de 33% ao dia, em somente 21 dias alcançaríamos o limite de 60 mil casos e, com mais uma semana, 28 dias, a demanda alcançaria catastróficos 400 mil casos graves sem nenhuma condição de capacidade de atendimento.

Se ainda considerarmos que ainda existirá demanda por respiradores devido a outros problemas de saúde, percebe-se um gargalo crítico em relação a esse equipamento no curto prazo. Em resumo, vide o quadro abaixo:

 
Número de respiradores disponíveis (SUS + privados)

61.000

Respiradores anunciados pelo governo

20.000

Demanda estimada para covid-19 em final de abril (cenário otimista)

40.000

Demanda estimada para covid-19 em final de abril (cenário pessimista, sem isolamento social)

400.000

Taxa de ocupação média atual
de respiradores

Entre:

50-80%

Taxa de ocupação média atual
de respiradores

Entre:

50-80%

Número de respiradores disponíveis (SUS + privados)

61.000

Respiradores anunciados pelo governo

20.000

Demanda estimada para covid-19 em final de abril (cenário otimista)

40.000

Demanda estimada para covid-19 em final de abril (cenário pessimista, sem isolamento social)

400.000

 

O Governo Federal já está fazendo apropriações desses equipamentos junto a fabricantes e importadores, com base na lei 13.979, de 20/02/20. Secretarias Estaduais e Municipais tentam fazer o mesmo. Fabricantes nacionais e importadores não estão conseguindo suprir a crescente demanda.

Vários atores da sociedade, em diferentes países, estão anunciando projetos para tentar suprir esses respiradores, críticos para a recuperação dos afetados pelo covid-19. Empresas como Ford, GM e Tesla já anunciaram que pretendem fabricar os equipamentos. Seria apenas uma questão de obter recursos humanos e financeiros, certo? A resposta é não! Infelizmente, aumentar rapidamente a produção de equipamentos complexos em tão pouco tempo, na escala que será requerida, nem sempre é possível.

Mesmo em um cenário hipotético de recursos financeiros ilimitados, há uma série de obstáculos a serem contornados, como:

  • Projeto de produto desenvolvido e detalhado – com detalhamento de todos os componentes necessários no caso de novos equipamentos que estão sendo desenvolvidos por grupos de pesquisadores e empresas voluntárias.
  • Se o equipamento já é homologado, no caso de uma nova linha de produção para ampliar a capacidade produtiva, é preciso assegurar que o processo e os componentes alcançaram o padrão de homologação. Testes para assegurar que o equipamento funciona perfeitamente em regime de 24×7 são necessários. Um equipamento desse tipo não pode dar defeito na operação.
  • Necessidade de se obter as peças e materiais necessários para montagem dos componentes – são válvulas, motores e circuitos eletrônicos. Esses componentes são fabricados por diferentes fornecedores que estão atendendo a governos e hospitais privados de todo o mundo. Mesmo que haja disponibilidade de capacidade nesses fornecedores, há um tempo necessário para fabricação e entrega dos componentes – muitos deles são importados, o que alonga os prazos de entrega.
  • Montagem e teste dos equipamentos: há a necessidade de desenvolver processo de montagem. Mesmo em empresas que possuem experiência em um determinado tipo de produto, com funcionários experientes, quando um novo produto inicia a produção, há uma curva de aprendizado que levaria, na melhor das hipóteses, semanas até que a capacidade seja plena e a qualidade do produto final seja a requerida para o uso – o produto não pode apresentar falhas, sob pena de pôr em risco a vida dos doentes.
  • Por fim há ainda a questão logística de movimentação de componentes entre fábricas e a remessa e instalação dos equipamentos em seus destinatários que também demanda tempo.

Diante de tantas ações que podem e devem ser simplificadas e agilizadas, mas não eliminadas, sob pena de produzir um equipamento ineficiente e portanto danoso, torna-se fundamental ganhar tempo para aumentar a capacidade produtiva dos ventiladores.

Portanto, os próximos dias e semanas são críticos. Iniciativas que aumentem a capacidade de produção de equipamentos de ventilação são absolutamente bem-vindas, assim como o desenvolvimento de soluções alternativas – como o compartilhamento de ventiladores e uso de equipamentos mais simples para casos menos complexos.

Nós, professores do Departamento de Administração da FEA, nos colocamos à disposição para auxiliar a acelerar o ciclo de desenvolvimento e manufatura dessas iniciativas. Contudo, é nosso dever indicar que esse esforço não será possível de ser bem sucedido se a demanda continuar a aumentar sem controle algum. É fundamental aliar a estratégia de isolamento ao diagnóstico preciso dos casos.

A experiência da Itália, que relaxou as medidas de isolamento social bem no momento em que a curva de casos começava a crescer, demonstra que o aumento rápido do número de casos leva ao colapso dos sistemas de saúde, uma vez que não é possível aumentar a capacidade de atendimento – em termos de recursos humanos e de equipamentos como os respiradores – na mesma velocidade do crescimento.

Como responder a esse desafio?

Reforçamos a necessidade de “achatar a curva” do crescimento de casos através das medidas de isolamento social e confinamento, conjugada com testes de diagnóstico e isolamento dos casos conhecidos. Só por meio da desaceleração no crescimento dos casos seria possível ter tempo suficiente para aumentar a capacidade de produção dos equipamentos (e outros insumos) críticos para o tratamento dos doentes. A experiência na Alemanha indica que esse é o caminho a seguir. Os esforços devem estar direcionados, prioritariamente, para a detecção e isolamento dos casos. Reduzir a demanda, em primeiro lugar.

Negar as evidências apresentadas por dados é adotar um caminho leviano, que arrisca a vida de milhares de cidadãos.

 

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