Aos formandos da Universidade de São Paulo

Cristiano Barreira é diretor da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP-USP)

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Antunes Barreira – Foto: Gabriel Soares / Divisão de Comunicação da SCS – Polo Ribeirão Preto

 

As festividades de formatura são um rito de passagem. Apostem, formandos, que vocês ainda levarão um tempo para decodificar todo o alcance desse rito. Ele existe como demarcação de uma mudança existencial e social, tão significativa, porque lhes autoriza a participar da vida pública com o prestígio e a responsabilidade de uma profissão de nível superior. Cada um de vocês venceu um desafio pessoal, com percursos e percalços singulares, com uma trajetória única, tecendo um momento memorável de sua biografia, alçando, mais do que em outras fases de suas vidas, a independência de sua própria personalidade, de sua própria pessoa. Cada um fez por merecer em cada conquista, nos desafios pela aprovação em cada disciplina, ao longo de, no mínimo, quatro anos, as competências atestadas pelo Diploma outorgado. E cada um sabe que, junto ao prestígio da conquista, vem a responsabilidade profissional. Mas não só!

Tão ou mais importante do que a responsabilidade profissional, é a responsabilidade cidadã, esta que dá o nível superior outorgado pelo Diploma de vocês. Esta palavra designa a ocupação com o convívio na cidade, em grego com a polis, portanto, trata-se de uma responsabilidade política. E não existe ação cidadã sem espírito crítico e reflexivo.

Este tema nos aflige a todos e deve afligir a vocês formandos, porque diz respeito à sua maior responsabilidade com o seu tempo histórico. Testemunhamos hoje uma intensa propaganda de sinais trocados, repercutida amplamente graças a mecanismos desafeitos ao pensamento criterioso, que acusa escolas e Universidades, em especial as públicas, de doutrinação ideológica. Os sinais trocados a que me refiro significam inversão de sentidos, cujo diagnóstico, claro e límpido, é fácil de ser realizado por qualquer pessoa que se detenha no exame racional da questão e de suas fontes. Tais acusações anti-intelectualistas às Universidades provêm de emissores, em geral, simpáticos ou diretamente vinculados a duas importantes e respeitáveis instituições em nossa sociedade, ambas com naturezas doutrinárias: as Forças Armadas e a Religião. Todavia, a instituição universitária moderna, ao contrário das bases dos pensamentos militar e religioso, não resistiria a doutrinações, porque se organiza e se desenvolve sob o eixo do fazer científico, o que depende de uma racionalidade sempre posta à prova da exposição e do debate público, seja em suas comunidades especializadas e competentes, seja amplamente na sociedade. Se os sinais trocados dessa mensagem anti-intelectualista – e, portanto, anti-científica – tiveram algum sucesso em ganhar a mente e o coração das pessoas, isso parece especialmente devido aos dispositivos automatizados das redes sociais que depreciam o efetivo debate público, em favor de uma troca de informações rápidas e emocionais, sem a necessidade da exposição das razões que as fundamentem, e servindo muito mais a reafirmar posições político-ideológicas pré-estabelecidas, do que a incrementar a racionalidade e a liberdade. Critérios psicológicos, instilados por simpatia e antipatia, se impõem e superam critérios racionais, o que não é uma novidade, a não ser pelos meios que os catalisam e ampliam seu alcance e impacto sociopolítico.

Em um momento tão solene da vida de vocês, formandos, eu não gostaria de deixar dúvidas de que essa não é uma mensagem ideologicamente apegada a posições políticas de esquerda ou de direita, mas uma fala comprometida com a cidadania e com os valores que dinamizam a Universidade. Por isso, recorro a José Ortega y Gasset, um filósofo espanhol insuspeito de esquerdismo, que fazia uma interpretação aristocrática da história, e defendia o liberalismo como o único modelo de sociedade aceitável para a Europa e para o mundo ocidental moderno. Em seu pensamento, ele dividia a sociedade não em classes sociais, mas em classes de homens: as massas – os homens medianos – e os excelentes, os aristocratas. Sem maior exame, esse ponto de partida certamente provocaria arrepios não só em esquerdistas, mas em muitos liberais de nossos tempos. Mas essa divisão política entre esquerda e direita não era a preocupação imediata de Ortega y Gasset, filósofo muito apreciado pelo pensamento conservador. O fenômeno que o preocupava, e que ele viu ascender já na década de 1920, era a ascensão política do homem-massa, portanto não as lateralidades, e sim a verticalidade de atitudes humanas. Para o pensador de Madrid, o homem-massa transferia, de modo indevido e pretensioso, a convicção adquirida por sua competência especializada em determinado domínio profissional para as demais áreas da vida social. A seu ver, essa petulância do especialista se traduzia nesse homem que tem opiniões taxativas sobre tudo e qualquer coisa. A psicologia do homem-massa designa uma mentalidade fechada ao questionamento, à reflexão e à crítica. O diagnóstico do pensador madrilenho está para fazer um século e, trazido para cá, talvez nunca acertasse tão bem o alvo, como nesse momento, enquanto chave interpretativa do que se passa hoje no Brasil, em boa parte do mundo e das acusações que recaem sobre a Universidade.

É porque nós zelamos pela autonomia crítica de vocês, caros formandos, é porque nós apostamos na atitude cidadã de vocês, caros formandos, é porque qualquer esperança por uma nação mais justa com seus filhos passa também pela ação de vocês; é porque, não só a formação especializada, mas a abertura e a prontidão para questionar, dando as razões de suas posições próprias, sempre fez parte de nossa relação educativa com vocês, que essas palavras são um alerta em defesa da Universidade e da formação com a qual, nesses dias, vocês concluem seu ciclo universitário.

Vocês testemunharão olhos emocionados e orgulhosos de pais, mães e familiares por suas conquistas. Tenham esse mesmo orgulho das profissões de vocês e trabalhem para qualificá-las sempre mais, sem perder a reflexão e a crítica que constituem sua cidadania.

 

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