A crítica empenhada

Heitor Ferraz é poeta, doutorando em Letras pela FFLCH e professor de Jornalismo Cultural na Cásper Líbero

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Heitor Ferraz – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

 

Para o jornalismo cultural brasileiro, a presença de Antonio Candido deveria ser uma referência obrigatória. Sabemos que, desde cedo, o crítico desempenhou um papel importante, seja nas suas primeiras críticas publicadas na revista Clima, ao lado de seus colegas de faculdade e geração, como Paulo Emílio Salles Gomes, Lourival Gomes Machado e Décio de Almeida Prado, seja posteriormente em sua atividade empenhada de crítico de rodapé, em jornais como Folha da Manhã e Diário de S. Paulo.

Parte desses ensaios foi selecionada e reunida pelo próprio crítico nos livros Brigada ligeira (1945) e Observador literário (1959). Já no começo deste novo século, em 2002, outros ensaios daquela época apareceram no volume Textos de intervenção, com seleção, apresentação e notas do pesquisador Vinicius Dantas. Nesses textos, escritos no calor da hora, vamos encontrá-lo atuando e participando, com entusiasmo e lucidez, da vida literária brasileira daquele momento, correndo todos os riscos de julgamento que a atmosfera politizada da época poderia acarretar.

Como nota Dantas, a crítica de rodapé de Candido é “toda ela percorrida por uma onda permanente de questionamentos e autorretificação, que refaz seus pontos de vista, até transformar o ato do juízo crítico num processo assumidamente interessado e relativo”. Neste sentido, Dantas selecionou, para o volume de artigos que permaneciam inéditos em livro, textos em que podemos observar essa atitude francamente reflexiva, expondo, ao leitor do jornal, que passa a fazer parte desse processo, qual seria a sua orientação crítica no momento.

Se em 1943, quando começa a escrever para a Folha da Manhã, ele afastava do seu horizonte o “conceito impressionista que faz da crítica uma aventura da personalidade” e se propunha a “integrar a significação de uma obra no seu momento cultural”, ou seja, pensar na obra a partir dos acontecimentos presentes, como ele mesmo escreveu, um ano depois, em 1944, num balanço de sua atividade, reafirmou a sua postura de praticar uma crítica “viva e participante”, mas destacou o que ele chamou de inconvenientes da orientação que esposara. Entre eles, o de dar mais importância “aos fenômenos de condicionamento do que à própria obra condicionada”.

Uma espécie de ajuste da lente do leitor agudo que sempre foi. “A verdade é que o condicionamento social e histórico da literatura não é apenas a sua moldura, mas – sem que isso implique num atentado à sua autonomia – a própria substância de sua realidade artística e a condição de existência dos elementos que, nela, podem ser chamados de eternos, graças, não a uma misteriosa participação em algo incondicionado, mas a uma forte virtude de eloquência e generalidade”, escreveu nesse mesmo artigo.

Um ano depois, quando passa a ser colunista do Diário de S. Paulo, essa posição será mais uma vez reavaliada por ele, num novo ajuste de rumo, mas, como sempre, mais incorporando posturas do que descartando: “Pretendo tratar a literatura cada vez mais literariamente, reivindicando a sua autonomia e a sua independência, acima das paixões nem sempre límpidas do momento”. Não significava um retrocesso, mas sim um passo adiante, pois evitaria os exageros do radicalismo para encontrar um ponto de equilíbrio entre o julgamento estético e o ideológico.

Essas discussões públicas, pois, expostas no espaço do jornal, dão a dimensão do empenho de Candido em socializar o seu conhecimento e os debates que ele travava com seu meio e consigo mesmo. O próprio impressionismo que ele havia rejeitado inicialmente também se torna objeto de sua reavaliação, poucos anos depois. Ao escrever sobre Paulo Barreto, ele percebe nessa atividade descompromissada uma função dentro da sociedade, mesmo que “se exprimindo sem espírito de sistema”. Como ele dirá, no ensaio “Um impressionismo válido”, “criticar é apreciar; apreciar é discernir; discernir é ter gosto; ter gosto é ser dotado de intuição literária”.

Foi imbuído dessas ideias, principalmente a certeza de que a “crítica de jornal é civilizadora”, que ele correu os riscos de suas escolhas literárias, abordando tanto obras de autores já consolidados no meio, como Jorge Amado, Graciliano Ramos ou José Lins do Rego, quanto a de estreantes – como é o caso de seu belo texto sobre a poesia inicial de João Cabral de Melo Neto, ou sobre os primeiros romances de Clarice Lispector e de Fernando Sabino.

A lição de Antonio Candido, assim como seu minucioso projeto para o Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo, feito em 1956, que incluía até a remuneração dos colaboradores, infelizmente parece não ecoar nos dias que correm. É uma pena. O Brasil tem uma sina desgraçada de esquecer o empenho de tantos intelectuais, para chafurdar na lama da mercadoria. As novidades do nosso jornalismo cultural continuam sendo cópias toscas e preguiçosas de modelos estrangeiros, sem o esforço mínimo de pesquisar o que já foi realizado no País, a partir de nossa própria realidade. No jornalismo, as gerações se sucedem, apagando as anteriores, sem incorporá-las ao seu pensamento. A cada morte, como a de Antonio Candido, aumenta a sensação de que voltamos à estaca zero.

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