A universidade em foco

Franco M. Lajolo é professor sênior da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP e ex-vice-reitor da USP

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Franco Maria Lajolo – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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Não tem sido pródiga a bibliografia brasileira sobre ensino superior. Na realidade, são raros os livros que fazem da universidade seu tema e assunto. Alguns títulos publicados no ano passado, no entanto, começam a preencher essa lacuna.

O primeiro a vir a público, Repensar a universidade: desempenho acadêmico e comparações internacionais, organizado pelo ex-reitor da USP, prof. Jacques Marcovitch, tem apresentação assinada pelos reitores das três universidades públicas paulistas.

Um pouco depois, saiu Os desafios da autonomia universitária, de autoria de José Roberto Drugowich de Felício e Paulo de Tarso Artencio Muzy, ambos professores profundamente envolvidos com a administração acadêmica e pública.

E o mais recente deles, Desafios e escolhas de uma liderança, é assinado pelo prof. Roberto Leal Lobo e Silva Filho, ex-reitor da USP, e pela profa. Maria Beatriz Lobo, ex-vice-reitora da Universidade de Mogi das Cruzes.

A publicação destes três ótimos livros representa bem-vindas respostas, dadas por vozes abalizadas, aos desafios da universidade brasileira para adaptar-se aos tempos que correm. Tempos duros, particularmente para a universidade pública, tantas vezes vítima de mal-entendidos das instâncias governamentais, do público que a financia e até – às vezes! – de seus próprios quadros.

O livro organizado pelo prof. Marcovitch vai fundo na discussão de aspectos da avaliação, tópico que nos últimos anos tem gerado acirradas polêmicas. Desde a antiga publicação de uma fatídica lista de professores tidos como improdutivos, até as atuais métricas impostas por organismos financiadores da pesquisa, a avaliação nunca mais saiu de pauta. E uma de suas ênfases é se uma avaliação quantitativa pode dar conta da natureza do que cumpre à universidade realizar. Se é (quase) unânime a ideia de que só números são insuficientes para a avaliação acadêmica, é grande a diversidade de alternativas (ou complementações) propostas.

Por isso a comunidade acadêmica tem tudo para beneficiar-se da  leitura e discussão deste livro. Seus capítulos são solidamente ancorados em dados e gráficos, dialogam com experiências internacionais de avaliação e são assinados por profissionais seriamente envolvidos com pesquisa e educação universitária.

Se questões da avaliação universitária correm acesas nos meios acadêmicos, outro tópico que domina conversas em corredores e laboratórios é a autonomia. E é dela que se ocupa Os desafios da autonomia universitária.

A Constituição de 1988 confere às universidades públicas o gerenciamento de recursos, projetos (e problemas!) voltados para o cumprimento de seu objetivo maior: produção de conhecimento, ensino e pesquisa. O livro dos professores Drugowich e Muzy acompanha e discute – nos quase 30 anos decorridos da lei que assegura a autonomia – como as universidades públicas paulistas (particularmente a USP) vêm lidando com a nova situação.

Com análises rigorosas, os autores relatam e discutem situações da vida universitária e de sua governança, que apontam para a urgência da construção de um novo discurso. Em discussões relativas à universidade do mundo contemporâneo talvez seja necessário minimizar resquícios de corporativismo, populismo e burocracia que, muitas vezes, impedem que a universidade faça uso melhor das oportunidades que a autonomia lhe garante.

O mais recente deles, Desafios e escolhas de uma liderança, tem perfil diferente dos anteriores. Quase autobiográfico – seus autores são ex-dirigentes de uma universidade pública e de uma universidade privada e resistem à tentação de reinventar o passado –, o livro faculta ao leitor uma instrutiva viagem pelo dia a dia da alta administração universitária. E é a partir dessa experiência que seus autores formulam propostas para alguns dos impasses que vive o ensino superior brasileiro.

O que torna este livro ímpar é a visão de limites e possibilidades da universidade pública e da privada, formulada por quem as viveu. A narrativa tem tudo para seduzir e educar seus leitores. Em tom coloquial, o relato das experiências vividas abre espaço para histórias, como a da renúncia do reitor da USP, do aluno que defendeu a tese depois de morto, ou  a dos estudantes que se cotizaram para comprar um ventilador para o laboratório.

Fechou-se, assim, 2018, com uma instigante proposta: a retomada e repaginação do que registra o Decreto 6.283 de 25 de janeiro de 1934, que criou a universidade pública paulista. No decreto, lê-se que “a organização e o desenvolvimento da cultura filosófica científica, literária e artística constituem as bases em que se assentam a liberdade e a grandeza de um povo”. E mais: “[…] somente por seus institutos de investigação científica, de altos estudos, de cultura livre, desinteressada, pode uma nação moderna adquirir a consciência de si mesma, de seus recursos, de seus destinos”.

O que não é pouco para um projeto voltado para uma resposta propositiva aos desafios que enfrentam as universidades públicas paulistas, talvez também as federais e as privadas.

 

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