Educação no novo governo – desafios e advertências

Luiz Carlos Menezes é físico e educador, Professor Sênior da Universidade de São Paulo

Por - Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=218008
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Luiz Carlos Menezes – Foto: Maria Leonor de Calasans -IEA/USP

É prerrogativa do governo eleito manifestar intenções e definir ministros, assim como é direito da cidadania reagir ao que se prenuncia, como o presente texto que adverte sobre riscos para a educação pública se os desafios que se apresentam não forem enfrentados.  Educação deve ser aperfeiçoada como política de Estado, não descontinuada a cada novo governo, assim como universidades precisam ser preservadas e respeitadas como espaço de pluralidade, mas há razões para crer que falte tal compreensão ao novo governo dominado por temores ideológicos fantasistas.

Na campanha eleitoral, centrada em enxugamento do estado, liberalização econômica e realinhamento internacional, o pouco do que se falou sobre Educação foi combater o pretenso proselitismo político na escola básica. Resta esperar que tal tolice seja logo superada, pois quem conhece nossas escolas, na rica variedade social e cultural deste país continental, sabe que, a despeito de dificuldades e limitações, nossos mais de dois milhões de professores trabalham movidos, sobretudo, por seu sentido de responsabilidade e dever.

O que sim se encontrará em nossa educação é descompasso entre formação, condições de trabalho e carreira de professores, recursos educacionais obsoletos, escolas com pouca vida cultural, estudantes em aulas que nem sempre lhes fazem sentido. No entanto, mudar essa realidade depende de compreender o que já se realizou, antes de definir como intervir. Nos estados e municípios, universalizou-se em poucas décadas o ensino fundamental e ampliou-se o acesso aos demais níveis e, na esfera federal, estabeleceu-se amplo sistema de avaliação do desempenho escolar e estendeu-se a distribuição territorial de universidades e escolas técnicas. Aperfeiçoar essas realizações começa por reconhecê-las e prossegue por superar problemas de qualidade já diagnosticados e os muitos desafios a serem enfrentados não são pequenos, como é relativamente fácil sintetizar.

O acolhimento infantil, a alfabetização e o início da escola estão a cargo dos municípios, geralmente sem estrutura para formar professores e aperfeiçoar currículos. Por isso, superar suas fragilidades depende de promover e apoiar ações em âmbito estadual, sem discriminação à orientação partidária de governos. Os anos finais do ensino fundamental e o ensino médio são responsabilidade dos estados, mas é em nível federal que se efetivam reformas curriculares para aprendizagem mais significativa e participativa, que se regulamenta a formação prática de professores e sua carreira em função de desempenho, assim como que se reforça um ensino técnico voltado à modernização produtiva. Nada disso precisa de doutrinação religiosa ou militar, mas sim de sensibilidade e atenção às demandas sociais e econômicas. Aliás, é sempre danoso qualquer viés moralista ou ideológico.

Nossas universidades, ao lado de institutos superiores de pesquisa, têm formado lideranças que são referências culturais nas muitas especialidades e tendências, trazendo nas notáveis contribuições ao desenvolvimento nacional áreas técnicas, como agropecuária, saúde, aeronáutica e prospecção petrolífera. E mais do que preservá-las, o desafio é mobilizar seu potencial bem distribuído no país para dinamizar seu papel no desenvolvimento nacional, ampliando sua associação com o sistema produtivo e de serviços. No entanto, pelo contrário, elas ultimamente têm perdido recursos, interrompendo programas de pesquisa e perdendo cientistas. Sua condição atual já exige uma atenção urgente, mas possivelmente duvidosa se depender de quem, por seu histórico pessoal, alimenta ressentimento em relação a elas e as considera “cientificistas”.

Os anos finais do ensino fundamental e o ensino médio são responsabilidade dos estados, mas é em nível federal que se efetivam reformas curriculares para aprendizagem mais significativa e participativa

Enfim, em todos os níveis, há realizações a preservar e desafios que devem ser enfrentados com isenção, como vale a pena resumir: garantir apoio logístico e de recursos para os municípios aprimorarem a educação da infância; implementar reforma curricular para uma educação básica eficaz e significativa; estabelecer carreira em que professores progridam exercendo suas funções; reforçar o ensino profissional e dinamizar as universidades. Países em condições mais difíceis do que as nossas transformaram sua educação, reencontrando desenvolvimento socioeconômico e sua participação no concerto mundial.

Mas para que o Brasil também seja capaz disso, precisa de gente lúcida na direção da educação, capaz de trabalhar em franca cooperação com estados e municípios de todas as regiões. Caso contrário, se fixações contra um imaginário “marxismo cultural” tomarem nossa educação atual como obra do inimigo a ser antes de tudo demolida, o único resultado será um lamentável embate estéril, em lugar do enfrentamento dos desafios. Vale advertir que o preço a pagar por isso será o agravamento de questões que dependem da educação, como atraso cultural, disparidade econômica e desemprego estrutural excludente, que tem feito parte de nossa juventude querer deixar o Brasil, levando consigo a energia e a coragem de que a nação tanto necessita.

 

 

 

 

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