USP tem a maior coleção de carrapatos da América Latina

Com 75 espécies catalogadas, o acervo está distribuído entre 3.500 frascos com mais de mil exemplares cada

Por - Editorias: Universidade
Share on Facebook0Share on Google+0Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn120Print this pageEmail
A coleção está localizada no Laboratório de Doenças Parasitárias do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal – Foto: Adriana Carrer

A Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP conta com o maio arquivo de carrapatos da América Latina e da região Neotropical: a Coleção Nacional de Carrapatos Danilo Gonçalves Saraiva (CNC). Criada em 1997 e localizada no Laboratório de Doenças Parasitárias do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal (VPS), a coleção abrange 75 espécies catalogadas, distribuídas entre 3.500 frascos, com mais de mil carrapatos cada.

De acordo com professor Marcelo Bahia Labruna, um dos curadores do repositório – a curadoria é dividida com o pós-doutorando Thiago Fernandes Martins -, a criação da CNC começou para atender demandas da FMVZ em novas linhas de pesquisa que abordassem o tema. Com o tempo, ganhou reconhecimento entre os pesquisadores e é uma das mais recentes coleções no País e a que mais cresce no segmento. A mostra conta ainda com intercâmbio com outras coleções do gênero no mundo, que solicitam o material para estudo.

Do lado esquerdo, frascos numerados da coleção. Do direito, vista dorsal de um macho e de uma fêmea da espécie Amblyomma longirostre metalizados em ouro para estudo – Foto: Adriana Carrer

Carrapatos são artrópodes pertencentes à classe dos aracnídeos – nela, também estão incluídas as aranhas, escorpiões e diversas espécies de ácaros. Parasitas externos que se alimentam de sangue, eles podem permanecer fixados na pele do hospedeiro por dias ou semanas, quando secretam uma saliva que impede a coagulação sanguínea e as reações de defesa do organismo na área em que se fixou, podendo assim adquirir e transmitir agentes causadores de doenças para animais e humanos.

São conhecidas aproximadamente 930 espécies de carrapatos no mundo. No Brasil, são relatadas 70 espécies. Segundo Labruna, cerca de 80% dessas espécies encontradas no País parasitam exclusivamente os animais silvestres. Os outros 20% estão em animais domésticos e homem – esta minoria representa uma grande parte das espécies presentes na coleção.

Importância médico-veterinária da coleção

O registro das espécies catalogadas representa a construção de um banco de dados para comparações de espécies entre pesquisadores de diversos centros de pesquisa do mundo. Os curadores do arquivo – orientando e orientador – criaram uma “chave taxonômica” para identificar espécies de ninfas de carrapatos do gênero Amblyomma – os mais importantes do País, já que parasitam e transmitem agentes causadores de doenças para seres humanos. As chaves são utilizadas para classificar os carrapatos, garantindo segurança na classificação da espécie de cada exemplar que chega à coleção.

Vista dorsal de uma fêmea da espécie Amblyomma brasiliense fotografada em lupa estereoscópica – Foto: Thiago Martins

Para Martins, a criação da chave “foi um grande avanço na pesquisa no Brasil. Com isso, conseguimos identificar a importância na medicina humana e veterinária, se parasitam humanos, quem é o hospedeiro e a região geográfica na qual existe a ocorrência da espécie.”

São dados técnicos importantes para pesquisadores e estudantes que atuam nas diferentes instituições de pesquisa e ensino brasileiras. Desta forma, conhecer a diversidade de espécies é fundamental para o planejamento das ações de saúde pública, defende Martins sobre a importância dos estudos no segmento.

Formação do acervo

Parte do material catalogado na CNC foi coletada por Labruna e seus alunos de mestrado e doutorado. Já a outra  parcela foi adquirida por meio de doação de outras instituições, de pesquisadores – que trabalham com animais silvestres em vida livre ou com animais em cativeiro em zoológicos – e também de centros de triagem e de reabilitação de animais silvestres.

Martins explica como um novo exemplar é adicionado à coleção: “Todo carrapato para ser depositado na CNC passa por uma triagem que consiste em identificar o estágio de vida do carrapato: larva, ninfa ou adulto, o gênero do carrapato e a espécie”. Todo o processo é realizado no Laboratório de Doenças Parasitárias da própria faculdade.

Vista dorsal de um macho (menor) e de duas fêmeas da espécie Amblyomma varium, conhecida popularmente como carrapato gigante da preguiça –  Foto: Adriana Carrer

Desafios da curadoria

Para os curadores, um dos maiores desafios é manter a coleção sem o devido suporte financeiro. “A captação de recursos para as coleções zoológicas no Brasil é deficitária”, defendem. As agências de fomento e governantes ainda não reconheceram o valor e a importância histórica e científica dos acervos. Labruna e Martins concordam que o problema fica mais evidente no Hemisfério Sul onde “muitos pesquisadores preferem depositar seus exemplares, especialmente quando se trata de novas espécies, nas renomadas coleções da Europa e Estados Unidos, pois seria uma garantia que estes exemplares seriam preservados”.

Segundo Labruna, se maiores investimentos não forem realizados, uma das soluções a longo prazo “é doar a coleção para uma instituição no exterior. Se um pesquisador brasileiro precisar consultar o material, vai precisar pedir autorização para os curadores estrangeiros para examinar uma espécie que foi coletada no Brasil”, explicou.

Os avanços com as pesquisas sobre carrapatos ainda carecem de mais investimentos. “Descrevemos em média uma espécie nova por ano no Brasil, e duas ou três na América do Sul. Isso quer dizer que nossas descobertas sobre a diversidade de carrapatos ainda é muito incipiente. Temos muita coisa a ser descoberta”, concluiu Labruna.

Serviço

A coleção é aberta ao público e está localizada no Laboratório de Doenças Parasitárias do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal da FMVZ, que fica na Av. Prof. Orlando Marques de Paiva, 87, Cidade Universitária, São Paulo.

Pesquisadores, alunos e interessados podem pedir empréstimo para o uso dos exemplares mediante assinatura de um termo de responsabilidade para consulta. Qualquer pesquisador ou aluno também pode colaborar para o aumento do acervo.

O Laboratório de Doenças Parasitárias funciona das 8 às 18 horas, de segunda a sexta-feira, mesmo horário de atendimento da CNC. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 3091-1446 e pelos e-mails labruna@usp.br e thiagodogo@hotmail.com.

Adriana Carrer/Da Assessoria de imprensa da FMVZ

Share on Facebook0Share on Google+0Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn120Print this pageEmail

Textos relacionados