Ricardo Ohtake substitui Rouanet na Cátedra Olavo Setúbal

Embaixador faz palestra de despedida no dia 16. No dia seguinte, o arquiteto assume a titularidade da cátedra

Por - Editorias: Cultura
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Sérgio Paulo Rouanet (dir.), na mesa com Alfredo Bosi, discursa na sua posse como o primeiro titular da Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência. -Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Sérgio Paulo Rouanet (dir.), na mesa com Alfredo Bosi, discursa na sua posse como o primeiro titular da Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência, em 2016 – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O diplomata e filósofo Sérgio Paulo Rouanet, primeiro titular da Cátedra Olavo Setúbal de Arte, Cultura e Ciência do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, se despede do posto nesta quinta-feira, dia 16, com palestra dedicada a Machado de Assis, que ocorrerá às 14h30 na antiga sala do Conselho Universitário da USP. No dia seguinte, Rouanet será substituído pelo arquiteto Ricardo Ohtake, que comandará os trabalhos da Cátedra até 2018.

Após um ano como catedrático, Rouanet disse estar muito satisfeito com a experiência, que classificou como “extremamente gratificante e significativa” por, entre outras coisas, ter tido a chance de agregar sua bagagem como professor visitante em Paris e Oxford, por exemplo, a uma nova experiência. “Se tivesse que resumir os diversos pontos bem-sucedidos deste trabalho em uma só palavra, ela seria ‘aproximações’, em diversos níveis”, afirmou.

Dentre elas, o intelectual citou a aproximação institucional entre a Academia Brasileira de Letras (da qual faz parte) e o IEA, e também entre o Museu de Arte do Rio (MAR) e a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP, “graças à gentileza de Paulo Herkenhoff (diretor cultural do MAR)”. Houve também encontros pessoais, dos quais Rouanet ressaltou aqueles com os professores Celso Lafer, “um grande jurista dedicado também à literatura”, José Goldemberg, com quem foi ministro de Estado entre 1991 e 1992, e Alfredo Bosi, além de Willi Bolle e das professoras Cremilda Medina e Jeanne-Marie Gagnebin (esta da Universidade Estadual de Campinas), especialistas que participaram de um debate sobre o pensamento do filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940), sobre o qual muito se falou quando a Cátedra discutiu temas como urbanismo. Por fim, houve também uma aproximação regional entre São Paulo, Rio de Janeiro e estados do Norte do Brasil.


O arquiteto Ricardo Ohtake substituirá Rouanet na Cátedra Olavo Setúbal de Arte, Cultura e Ciência – Foto: Maria Leonor de Calasans/IEA

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O professor Martin Grossmann, coordenador da Cátedra Olavo Setúbal, lembra que se trata da primeira cátedra dedicada à cultura e às artes na USP e que um de seus objetivos é dar à arte um tratamento ao menos equivalente ao que é dado às ciências na Universidade. Dentro dessa ideia, Grossmann explica a importância do período de Rouanet à frente da iniciativa: “Ele é um filósofo, um intelectual de primeira linha que tem toda uma importância na área da cultura e foi muito interessante para a cátedra por inaugurá-la com discussões de ordem filosófica e teórica, abordando o entendimento da modernidade e de como o Brasil se encaixa dentro dessa visão de modernidade, que ainda é muito eurocêntrica. Esse embasamento teórico, filosófico e conceitual é importantíssimo”.

Despedida com Machado de Assis

Embora Grossmann lamente que a ideia de realizar um curso de pós-graduação da cátedra com Rouanet não tenha vingado, ambos celebram a oportunidade de terminar o primeiro ano da iniciativa abordando Machado de Assis. “Depois de tratar de temas tão variados e heterogêneos entre si, faltou dedicar a atenção do nosso grupo à literatura, e não há autor mais universal que Machado de Assis. Será um grand finale, em que tentaremos trazer ideias originais e novos olhares sobre a obra do Bruxo do Cosme Velho”, afirma o diplomata.

Na mesa-redonda estarão presentes os especialistas em Machado de Assis Alfredo Bosi e Hélio Guimarães, ambos professores da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Irene Moutinho e Sílvia Eleutério, pesquisadoras que conceberam, ao lado de Rouanet, a coletânea Correspondência de Machado de Assis, lançada em cinco volumes pela Academia Brasileira de Letras e pela Biblioteca Nacional. “Trata-se de um conteúdo inédito, com correspondências ativas e passivas de Machado de Assis — estas últimas quase completamente ignoradas pelos pesquisadores do assunto”, diz Rouanet.

Além da vasta correspondência do escritor, os palestrantes tratarão também do conceito da “forma shandiana”, concebido por Rouanet enquanto era professor visitante na Universidade de Oxford, numa referência ao livro A vida e opiniões de Tristram Shandy, do escritor inglês Lawrence Sterne.”Machado faz parte de uma família literária que inclui, por exemplo, Diderot e Sterne, à qual eu chamei de forma shandiana. Ele desenvolveu essa forma com suas características estruturais, a hipertrofia da subjetividade, a digressividade, a fragmentação, as distorções no espaço e no tempo”, explica Rouanet.

Sobre seu sucessor, Rouanet se diz “contentíssimo”. “Eu admiro muito Ricardo Othake, e espero que esse trabalho, que julgo bastante exitoso, que realizei neste primeiro ano da cátedra tenha continuidade sob sua batuta, e que o sistema de relações que esbocei siga se desenvolvendo.”

Todas os debates e eventos promovidos pela cátedra sob a titularidade de Sérgio Paulo Rouanet foram gravados e estão disponíveis no site do IEA. O conteúdo produzido ao longo do ano está sendo compilado num livro, ainda sem previsão de lançamento.

Para participar da palestra sobre Machado de Assis, que será transmitida ao vivo pela internet a partir das 14h30 do dia 16 de março, é necessário realizar inscrição prévia neste link. O evento terá sede na antiga sala do Conselho do IEA, na rua da Praça do Relógio, 109, piso térreo, na Cidade Universitária.

Novo perfil para a Cátedra

A partir das 10 horas da manhã de sexta-feira, dia 17, quando ocorrerá uma cerimônia transmitida ao vivo pelo site do IEA e restrita a convidados, a titularidade da Cátedra Olavo Setúbal será passada para Ricardo Ohtake, arquiteto e diretor há 15 anos do Instituto Tomie Ohtake. Segundo o professor Martin Grossmann, o perfil bastante diferente entre os dois catedráticos nomeados até aqui reflete a própria ideia da cátedra, que “trata da criação humana, da inventividade, a invenção que só a arte produz”, e trará novas perspectivas para a experiência.

A ideia é que, depois de um ano dedicado à abordagem teórica dos temas adotados pela cátedra, Ohtake use sua experiência como gestor público para trazer as aplicações práticas da área artística e cultural. O arquiteto foi o primeiro diretor do Centro Cultural São Paulo – “o que mostra sua importância para a criação de novos quadros para a gestão cultural em São Paulo”, diz Grossmann -, foi também diretor do Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo e da Cinemateca Brasileira, além de ter sido secretário de Cultura do Estado de São Paulo e secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente “Faço esse trabalho do dia a dia, de ir atrás de dinheiro, resolver questões de uma exposição, trazer públicos novos, definir as publicações que devem ser feitas. Meu trabalho é nesse sentido da atividade cultural, e é com essa diferença em relação ao professor Rouanet que eu espero trazer uma contribuição para a Cátedra. É uma oportunidade de trabalhar na Universidade as artes e a cultura de maneira diferente do que se costuma fazer aqui dentro, de forma prática”, afirma o novo titular.

O diplomata e filósofo Sérgio Paulo Rouanet – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

No programa planejado para este ano, Ohtake diz que pretende levantar questões, com o apoio de especialistas convidados, sobre assuntos como arte e política, o papel das exposições na configuração cultural do Brasil, perfis de dirigentes culturais brasileiros e as instituições culturais e a gestão cultural no País. Além disso, desta vez será concretizada a ideia do curso de pós-graduação da cátedra.

“Quero transmitir minha experiência de 50 anos nesse setor e transmiti-la para os alunos, analisando o que é uma instituição cultural pequena, uma grande, o que é uma exposição, como se contextualiza a atividade cultural local com aquilo que acontece na cidade, nos Estados, no País e no mundo, o que liga tudo isso”, explica. “Também quero, se possível, fazer um trabalho com os alunos sobre a questão das instituições pós-ditadura, quando houve um grande desenvolvimento delas, por exemplo, com a readequação de prédios antigos para uso atual, e apresentar o pensamento e a ação de dirigentes culturais que vieram depois de Mário de Andrade, como Sergio Milliet, Mário Pedrosa, Walter Zanini e Paulo Herkenhoff, pessoas que foram excepcionais intelectuais e que contribuíram muito para o desenvolvimento do pensamento da arte e da cultura no Brasil.”

Segundo Grossman, o curso ainda está em construção e será realizado em parceria com a Pró-Reitoria de Pós-Graduação, no segundo semestre de 2017. “A ideia é que ele seja aberto a qualquer aluno de pós-graduação da USP. Claro que haverá uma seleção, não pode ser geral, mas será todo gravado, e queremos que ele seja extra-unidade, ou ‘trans-unidades’, abarcando vários programas de pós-graduação, que ele não tenha um lugar específico”, explica o professor.

Ao final do período catedrático de Ricardo Ohtake, um livro também será produzido para compilar os resultados da experiência.

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