Pesquisa explora imagens da América Latina em García Márquez

Historiadora apresenta questão da identidade latino-americana no romance “Cem anos de solidão”

Por - Editorias: Ciências Humanas
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Pintura Ilustrativa de Macondo, a cidade fictícia de Cem anos de solidão, um perfeito retrato da América Latina de Gabriel García Márquez – Ilustração: Arquivo / La República

A produção literária de uma cultura, de um país, sempre comporta influências do meio, dos fatos históricos de uma época. A criação, a elaboração de uma identidade nacional ou mais abrangente, como a latino-americana, é um acontecimento social, um fenômeno que pode ser expresso por sua produção literária, visto não ser possível pensar a literatura de um período sem contextualizá-la em sua situação política, econômica ou cultural. Assim, a “literatura pode ser um documento para o trabalho do historiador, que se coloca como observador da obra em seu contexto de produção, circulação, recepção, de suas metáforas acerca do período e das ideias defendidas por seu autor”.

Com isso em vista, Bruna Ferreira da Silva, em artigo na revista Epígrafe, apresenta-nos a questão da identidade latino-americana no romance Cem anos de solidão, obra-prima com a qual o colombiano Gabriel García Márquez conquistou o Prêmio Nobel de Literatura em 1982. No romance, estão presentes a posição política desse autor e a sua proposta identitária, que vai ao encontro das ideias de Fidel Castro, em concordância com o pensamento anti-imperialista de sua geração, tendo como palco a América Latina pós Revolução Cubana de 1959. A autora conta como essa identidade foi construída: pela exploração e submissão que os países latino-americanos enfrentaram com a “política de intervenção dos EUA, retratada no romance pela empresa Companhia Bananeira, inspirada na United Fruit Company americana, símbolo da repressão aos trabalhadores e às ideias socialistas”.

Cem anos de solidão põe em pauta o tema de uma unidade latino-americana – Mapa: Domínio Público via Wikimedia Commons

Cem anos de solidão, obra moldada no realismo mágico, mostra a trajetória da família Buendía em meio aos conflitos políticos e familiares, personagens seculares, e põe em pauta o tema de uma unidade latino-americana que ultrapassa questões culturais. García Márquez denuncia a manipulação política e econômica da América Latina pelos países ricos e alerta para a necessidade da união latino-americana com o fim de frear a dominação norte-americana. No romance, a cidade de Macondo é uma personagem da trama, uma metáfora da história que trata da “solidão dos personagens, representação do isolamento político, econômico e social, no qual, para o autor, os latino-americanos sempre estiveram enredados”.

O romance mostra a trajetória da família Buendía em meio aos conflitos políticos e familiares – Foto: Divulgação

Para a autora, “O romance tornou-se a expressão da posição política de Gabriel García Márquez e de seu alinhamento aos ideais da Revolução Cubana”, partilhados com seus contemporâneos, na intenção de posicionarem-se contra o imperialismo e as intervenções dos EUA na região. Um exemplo contundente desse pensamento, no livro, é a greve dos funcionários da Companhia Bananeira, que retrata o fato real ocorrido na Colômbia de 1928, com mais de mil trabalhadores grevistas mortos pelo exército norte-americano na empresa United Fruit Company, expressando o poder de coação dos países ricos e a negação dos direitos sindicais aos trabalhadores.

As décadas de 1960 e 1970 foram o cenário do boom da literatura latino-americana, um fenômeno literário e editorial com picos inéditos de vendagem de autores influenciados pelas vanguardas modernistas e politizadas. Gabriel García Márquez se tornou porta-voz de Fidel, defendendo-o das críticas e permanecendo ao lado dele quando os intelectuais latino-americanos romperam com o chefe do governo cubano. Concluindo, completa a autora, García Márquez assume a postura de “enfatizar uma visão da região como una”, e , “as particularidades culturais de cada país não foram destacadas no romance, a fim de se privilegiar o que há em comum a todos, isto é, a exploração e intervenção europeia”, o que deu origem à longa solidão de cem anos da América Latina.

Bruna Ferreira da Silva é graduanda em História (Bacharelado e Licenciatura) pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP), com Iniciação Científica realizada na área de História da América e subárea em História da América Latina.

SILVA, Bruna Ferreira da. A identidade latino-americana em Cem Anos de Solidão (1967), de Gabriel García Márquez. Epígrafe, São Paulo, v. 3, n. 3, p. 157-170, out. 2016. ISSN: 2318-8855. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/epigrafe/article/view/111490>. Acesso em: 21 nov. 2016.

Margareth Artur / Portal de Revistas da USP

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