Periferias resistem à burocratização em busca de uma nova cidadania

Pesquisa observou execução das políticas sociais no cotidiano da periferia da zona sul, a partir de práticas e discursos de profissionais

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A zona sul de São Paulo tem mais de 2 milhões de habitantes – Foto: Jorge Maruta / USP Imagens
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Com uma população de mais de 2 milhões de habitantes, a zona sul de São Paulo foi objeto de uma dissertação de mestrado realizada na USP. O estudo observou a execução das políticas sociais no cotidiano da periferia da zona sul, a partir de práticas e discursos de profissionais e ativistas locais.

Formada em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a antropóloga Milena Mateuzi Carmo buscou, por meio da observação dos discursos e práticas entre serviços públicos e articulações locais, entender como o dia a dia destes discursos podem tanto reafirmar a forma de poder estatal, quanto resistir a ela.

Para a pesquisadora, a resistência é alimentada por discursos que se constroem localmente a partir da mobilização de identidades que articulam marcadores sociais da diferença, tais como raça, classe e gênero, e a ideia de sofrimento gerada pela reprodução de violências institucionais ligadas a estes marcadores.

Vista do bairro do Capão Redondo pela janela da estação de metrô homônima  – Foto: Anderson via Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0

Eu tenho uma trajetória de mais de dez anos em políticas sociais e trabalho em ONGs”, explica Milena, ao apontar que seu percurso foi inverso ao que normalmente se vê na academia, ao invés de partir da universidade para o campo, a antropóloga veio do campo para traduzi-lo na universidade.

“Desde antes de entrar na universidade, sempre fui ativista, atuei no movimento de alfabetização de jovens e adultos e hoje estou nessa posição híbrida”, esclarece ela ao relembrar que foi por causa de sua atuação na área e, em especial, na região, que germinou o desejo de estudar como se dão as relações entre ativistas e o Estado.

Na busca por encontrar seu lugar como antropóloga e ativista, Milena enxergou na vinda para a Universidade uma oportunidade de refletir sobre a prática de uma forma mais qualificada.

Seu percurso na dissertação começou com um posicionamento oficial do que os dados, a mídia e a própria academia dizem sobre a zona sul. Foi a partir do estabelecimento desses pressupostos que Milena concebeu o conceito que deu título à sua pesquisa: a ideia de grupos que estão nas margens do Estado.

A pesquisa mostra o que os dados, a mídia e a própria academia dizem sobre a zona sul – Foto: Jorge Maruta / USP Imagens
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Dados versus realidade

Na fronteira entre o ativismo e a pesquisa, Milena reconhece que os dados oficiais que são tão utilizados pelo Estado na formulação e aplicação de políticas públicas são úteis e essenciais para a formulação de discursos. São esses “discursos que a gente reproduz para captar recursos e introduzir políticas públicas, por exemplo. E são esses dados que servem para demonstrar que existe uma grande desigualdade na região”, explica ela.

Entretanto, ao prestar mais atenção nos dados sobre a população das periferias locais, Milena pôde notar que, muitas vezes, sua interpretação produz uma certa homogeneidade que não existe no cotidiano complexo dos habitantes. “A periferia tem mais vida e circulação do que esses dados demonstram”, revela.

Apesar de servirem para apontar desigualdades, concentração de pobreza e de violência local, suas interpretações frequentemente cristalizam uma imagem única: a da periferia como lugar do perigo, o lugar da ausência. Fato que, para a antropóloga, esconde a riqueza das produções locais e a resistência da população a esses estereótipos.

Ao conviver e entrevistar profissionais do Serviço de Medida Socioeducativa Capão II e do Comitê Juventude e Resistência, Milena pôde perceber de perto como se dão as relações entre as políticas que surgem do Estado, são aplicadas por funcionários e alteram vidas, em especial, dos jovens locais.

Num processo descentralizado, Milena atuou de forma mais próxima do que se espera da antropologia tradicional, valendo-se não apenas do aporte acadêmico que construiu durante seus anos de estudos, mas também de sua trajetória e relação pessoal com ativistas. A partir dessa aproximação, a pesquisadora percebeu como se formaram os vínculos entre os profissionais dessas organizações.

“Algumas ações realizadas na região foram aproximando essas pessoas, que tiveram ideias de como elas poderiam enfrentar a lógica burocrática e violenta das instituições”, explica Milena.

A saída, na opinião da antropóloga, está na criação de “lugares de resistência” – Foto: Jorge Maruta / USP Imagens
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Ressignificando a burocracia 

A função de um órgão como o Serviço de Medida Socioeducativa Capão II é ser um espaço de atendimento e convívio, no qual adolescentes, jovens e seus familiares poderão ressignificar suas relações pessoais e sociais, a partir de uma ação educativa fundamentada em valores humanos e referenciais éticos. No entanto, a rotina burocrática dura nem sempre viabiliza um acompanhamento cuidadoso. Cabe então aos profissionais locais resistirem às instruções frias e implementarem alternativas, contando, em especial, com o diálogo com os jovens.

No decorrer de suas entrevistas, Milena notou o surgimento de questionamentos materializados em exemplos como: “Por que vou fazer um relatório que vai ter como consequência a continuidade da medida do jovem? Será que ele deixou de ir pra escola não porque ele não está cumprindo a medida, mas porque existe uma resistência da escola em receber esse jovem? Como podemos atuar de forma diferente e não reproduzir automaticamente o protocolo?”.

“Em vez de focar a produção de relatórios, o que eu percebi é que os funcionários tentam uma saída mais politizada”, conta Milena. Ao tentar promover atividades de discussão, com a participação de mães em rodas de conversa, os profissionais deslocam atividades previstas no procedimento da medida socioeducativa.

“Articulando com outros coletivos mais horizontais, eles começam a transformar aquele lugar em um lugar de resistência, de produção de novos discursos”, sintetiza ela.

Surgido entre o final de 2012 e começo de 2013, o Comitê Juventude Viva nasceu após anos de discussão. “Os ativistas os veem como um órgão do Estado”, pontua a pesquisadora, ao relatar que foram muitos embates entre a coordenação do programa e os ativistas até que um grupo de dissidentes decidiu formar o Juventude e Resistência.

Para Milena, “a periferia tem mais vida e circulação do que esses dados demonstram” – Foto: Quero Cultura / Marilda Foto via Google Maps

É a partir da atuação de grupos como este que, conforme a pesquisadora, o Estado deixa de emanar a imagem única de promotor de direitos, para assumir também uma postura opressora e segregadora.

“Dentro desses equipamentos públicos existe toda a reprodução de violências sociais”, afirma Milena ao relatar em sua dissertação um esforço para normatizar e controlar a população local, por meio de, entre outros instrumentos, relatórios que definem as vidas das pessoas.

“Acontece com jovens da Fundação Casa, por exemplo”, explica ela. “Existe uma longa trajetória de institucionalização na vida desses jovens. E a atuação do Estado promove, ao invés de direitos, mais violência, mais estigmatização”, afirma.

A saída, na opinião da antropóloga, está na criação dos tais “lugares de resistência”, nos quais sujeitos autônomos tentam superar práticas burocráticas e dar visibilidade para produções que nascem nas chamadas margens do Estado.

Enxergando o engajamento daqueles que não apenas foram registrados na dissertação, mas também fizeram parte dos apontamentos e conclusões levantadas no texto, Milena não hesita em se identificar com todos os ativistas, assistentes sociais e psicólogos entrevistados, que, em suas palavras, dão sentido para suas vidas a partir de sua atuação profissional e política.

“São pessoas que vêm de classes populares, autodeclaradas negras e que fazem suas escolhas profissionais orientadas pelas suas experiências de vida”, reflete ela. “Têm muita indignação com essas contradições e toda a estrutura burocrática que o Estado impõe e até mesmo contra os próprios colegas que incorporam a estrutura e a reproduzem”, aponta.

Aproximando campo e universidade

Para ela, existe uma distância muito grande para quem está buscando soluções práticas para as contradições deste país. “Aqueles que estão na linha de frente, assumindo serviços públicos no Estado, propondo políticas ou ativistas, não estão na universidade”, discorre Milena. “Essas pessoas não alcançam a universidade”, pontua.

De acordo com a antropóloga, muitas vezes, a lógica da burocratização não dá espaço para refletir e produzir conhecimentos e apesar de a universidade ter o que, nas suas palavras, se traduz como uma “reflexão profícua”, ela está muito distante da prática.

Trabalhando atualmente no doutorado, Milena enxerga os percursos que está vivendo como os de alguém que atuou na prática, mas que se tornou, simultaneamente, uma acadêmica. “Esse processo serve para a minha prática. É um processo de produção de conhecimento com as pessoas”, finaliza.

A dissertação de mestrado Margem adentro: políticas sociais, sujeitos e resistências na zona sul de São Paulo, orientada pela professora Laura Moutinho da Silva, do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, pode ser acessada neste link.

Mais informações: e-mail mmateuzi@gmail.com, com Milena Mateuzi Carmo

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