Foto de menino refugiado morto é trauma cultural de tragédia síria

A foto de Aylan Kurdi alude à injustiça e à desigualdade de oportunidades em um mundo globalizado

Por - Editorias: Ciências Humanas
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Migrantes tentam entrar na Europa apesar das dificuldades – Foto: Manu Gomez/ Fotomovimiento via Fotos Públicas

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Desde a Segunda Guerra Mundial não se registrava um número tão grande de deslocamentos migratórios no mundo – segundo a International Organization for Migration, em 2015 e janeiro de 2016, computou-se a marca de 1.122.907 migrantes em direção à Europa, em busca de refúgio e acolhimento, com 3.771 mortos ou desaparecidos no Mediterrâneo. Jordânia e Líbano, Croácia e Hungria, Suécia e a Noruega e Alemanha são países que receberam muitos imigrantes, e também o Brasil se tornou destino de mais de oito mil refugiados sírios. Os meios utilizados para os deslocamentos e travessia dos mares Egeu e Mediterrâneo são bastante deficientes e impróprios, resultando em eventos lamentáveis veiculados pelas mídias, indignando, chocando e provocando repulsa em todo o mundo.

Refugiado, segundo a Convenção da ONU de 1951, é a pessoa que, devido à violação generalizada de direitos humanos ou em razão de fundados temores de perseguição devido à sua raça, religião, nacionalidade, associação a grupo social ou opinião política, encontra-se fora de seu país de origem e, por causa dos ditos temores, não pode ou não quer regressar ao seu Estado. Dados do governo esclarecem que o Brasil abriga 8.400 refugiados de mais de 80 nacionalidades distintas, “além de 12.666 solicitações em análise, com prevalência de países africanos como a República Democrática do Congo, Nigéria e Angola, mas com recente crescimento de sírios, oriundos do conflito civil que já completa cinco anos”.

Apenas uma morte, dentre os refugiados, foi notada, divulgada, propalada e abominada mundialmente: a do menino sírio de três anos, Aylan Kurdi, que não resistiu à viagem da Turquia para a Grécia, tornando-se um símbolo da tragédia dos refugiados do Oriente Médio. Esse fato é visto como trauma cultural de nosso tempo, denominado, pelo sociólogo Zygmunt Bauman, de “contemporaneidade líquida”, “tempos de hoje, marcados pela velocidade de comunicação e informação, e de incertezas e inseguranças”. A foto do menino, desfalecido na areia, foi reinterpretada pelo artista chinês Ai Weiwei e explorada como possibilidade de encarar o traumático, “ação de chamamento contra o esquecimento e a negação de uma responsabilidade humanitária e moral”.

“Na esfera psíquica nenhum evento é inerentemente traumático”, afirma Eda Nagayama, e, “do ponto de vista da cultura e da sociedade, o trauma também depende antes do impacto, recepção e reação diante dos acontecimentos”. Para a autora, a foto da morte do menino Aylan Kurdi é “eticamente questionável, perturbadora em relação ao arquétipo da criança, aos pressupostos básicos de infância, à antinatural associação entre primeira infância e morte”. O artista chinês Ai Weiwei reinterpretou a foto original, observada como uma alternativa de encarar e defrontar-se com o fato traumático, como um alerta contra o esquecimento e a negação de uma responsabilidade humanitária e moral, em que o artista aparece na mesma posição e situação da criança, na intenção de expressar que, se fosse ele, o fotógrafo a morrer, ninguém se comoveria.

Foto: Manu Gomez/ Fotomovimiento via Fotos Públicas

A foto de Aylan Kurdi, além do tema infância e morte, remete-nos às causas dessa problemática: a injustiça e a desigualdade de oportunidades em um mundo globalizado. Dessa forma, na ilustração de Naser Jafari, o menino ganha asas de anjo,”em uma solução de sublimação e apaziguamento coletivo, a morte é transformada em sono de inocência, adormecimento”. Mas que ninguém se engane, pois em um sintoma da “modernidade líquida”, de acordo com Bauman, fluida e efêmera, o menino também cairá no esquecimento. Concluindo, a autora afirma a importância da arte e da literatura como denúncia de “tão cotidiana transformação de indivíduos e/ou cidadãos em massa anônima” criando “ferramentas de comunicabilidade e compartilhamento”, […] “a serviço da memória e do testemunho da violência”.

Eda Nagayama, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, São Paulo, Brasil.

NAGAYAMA, Eda. Testemunhos de um Trauma Cultural Contemporâneo: Aylan Kurdi e os Deslocamentos Migratórios. Revista de Cultura e Extensão USP, São Paulo, Brasil, v. 15, p. 29-38, set. 2016. ISSN: 2316-9060. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/rce/article/view/123101. Acesso em: 7 dez. 2016.

Margareth Artur / Portal de Revistas da USP

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