Cientistas investigam origens de variantes do vírus da hepatite Delta no Nordeste brasileiro

Uma das variantes do vírus (HDV-8) era encontrada somente na África e, segundo os pesquisadores, pode ter chegado à região por uma das rotas do tráfico de escravos

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Foto: Evando Oliveira via Fotos Públicas
Cerca de 4 mil amostras de sangue foram coletadas em cinco cidades do Maranhão – Foto: Evando Oliveira via Fotos Públicas

A hepatite Delta é uma doença viral causada pelo vírus HDV (Hepatitis Delta Virus) que atinge pessoas infectadas com a hepatite B crônica. “Mas ela também pode ser transmitida junto com o HBV [Hepatitis B Virus] a pessoas sem contato prévio com este vírus, caracterizando o que é descrito na literatura científica como a chamada coinfecção”, descreve o biólogo Max Diego Cruz Santos.

O cientista, que realiza doutorado no Programa Interunidades em Biotecnologia da USP, é o autor principal de um artigo veiculado na revista internacional Virus Research (The hepatitis delta genotype 8 in Northeast Brazil: The North Atlantic slave trade as the potential route for infection) em que descreve um dos genótipos (variantes) do HDV, o HDV-8, em três cidades do Estado do Maranhão. “Até cinco anos atrás, quando foram descritos os primeiros casos do HDV-8 pelo nosso grupo de pesquisa, esta variante nunca havia sido descrita no Brasil, sendo encontrada somente no continente africano, de acordo com outras pesquisas publicadas.” Além disso, segundo o pesquisador, os casos publicados no Brasil descrevem a infecção por HDV com a variante HDV-3, principalmente no Estado do Amazonas.

Assim, o artigo alerta para que novos estudos sobre a variante HDV-8 sejam feitos em outras regiões do País. Os cientistas também analisam a hipótese de este genótipo ter sido transmitido por gerações de escravos, chegados ao norte do Brasil por uma rota específica do comércio escravagista da África Ocidental para regiões do Caribe, no Atlântico norte. “Podemos verificar essa hipótese através de mais estudos sobre esse vírus”, constata Santos.

Amostras

Durante um período de quatro anos, o biólogo, junto com outros cientistas, coletou cerca de 4 mil amostras de sangue em cinco cidades no interior do Maranhão: Urbano Santos, Humberto de Campos, Morros, Axixá e Icatu. Todos na região nordeste daquele Estado. “Identificamos as pessoas com sorologia positiva para infecção pelos vírus. Nos casos positivos para HBV, realizamos testes se alguns tinham o anticorpo do vírus Delta e, entre os que tinham o HDV, encontramos novamente o HDV-8”, explica Santos. Ele lembra ainda que as primeiras variantes do HDV-8 no continente africano foram localizadas em indivíduos naturais da África ocidental, como citado no artigo. “Curiosamente, dentre as quatro pessoas infectadas nas cidades maranhenses, três se autodeclararam negras e uma como mulata.”

Foto: Divulgação
O biólogo Max Diego Cruz Santos desenvolve tese sobre genótipos dos tipos de vírus da hepatite tipos B, C e Delta – Foto: Divulgação

Para Santos, o estudo chama a atenção para que mais estudos sobre o HDV sejam feitos fora da região do Amazonas. “Assim como detectamos a variante HDV-8 fora de lá [Amazonas], no Estado do Maranhão, novas infecções poderão ocorrer em outros locais sem que saibamos”, alerta o pesquisador.

No Programa Interunidades em Biotecnologia da USP, onde Santos foi bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ele desenvolve sua tese sobre os genótipos dos tipos de vírus da hepatite dos tipos B, C e Delta, nos cinco municípios do Maranhão. Sob a orientação do professor João Renato Rebello Pinho, do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da Faculdade de Medicina (FM) da USP, Santos está prestes a defender seu doutorado.

Também fazem parte da pesquisa cientistas do Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em São Luís. “Foi lá no Centro de Referência para Tratamento do Fígado que demos início à caracterização de genótipos do vírus da hepatite B no Maranhão, sob coordenação da professora Adalgisa de Sousa Paiva Ferreira”, conta Santos. Segundo ele, pesquisas publicadas em revistas internacionais importantes já mostram que as análises de genótipos são importantes para determinar tipos de tratamentos para a doença e auxiliar no entendimento do espalhamento desse vírus no mundo.

Mais informações: com Max Diego Cruz Santos, email maxdiegocs@usp.br

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