Projeto FOB em Rondônia: aprimorando a graduação e a pós

Magali Caldana é chefe do depto. de Fonoaudiologia e J. Roberto Bastos, prof. Títular de Saúde Coletiva da FOB-USP Bauru

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A Extensão Universitária é o processo educativo, cultural e científico que articula o Ensino e a Pesquisa de forma indissociável e viabiliza a relação transformadora entre Universidade e Sociedade. A Extensão é uma via de mão-dupla, com trânsito assegurado à comunidade acadêmica, que encontrará, na sociedade, a oportunidade de elaboração da práxis de um conhecimento acadêmico. No retorno à Universidade, docentes e discentes trarão um aprendizado que, submetido à reflexão teórica, será acrescido àquele conhecimento.

Esse fluxo, que estabelece a troca de saberes sistematizados, acadêmico e popular, terá como conseqüências a produção do conhecimento resultante do confronto com a realidade brasileira e regional, a democratização do conhecimento acadêmico e a participação efetiva da comunidade na atuação da Universidade. Além de instrumentalizadora deste processo dialético de teoria/prática, a Extensão é um trabalho interdisciplinar que favorece a visão integrada do social.

(Plano Nacional de Extensão, 1988)

 

Magali de Lourdes Caldana - Fotos: Cecília Bastos/USP Imagens
Magali de Lourdes Caldana – Fotos: Cecília Bastos/USP Imagens
José Roberto de Magalhães Bastos - Fotos: Cecília Bastos/USP Imagens
José Roberto de Magalhães Bastos – Fotos: Cecília Bastos/USP Imagens
O diretor e o corpo docente da Faculdade de Odontologia de Bauru, unidade da Universidade de São Paulo (USP), em consonância com a Política Nacional de Educação (PNE 2001-2010) e com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação de profissionais na área da saúde (Brasil, 2001), idealizaram e concretizaram um Projeto de Extensão Universitária cujo enfoque fundamenta-se no exercício de práticas gerenciais e assistenciais participativas, em equipe, dirigidas às necessidades de saúde (epidemiológicas, demográficas, sociais e ecológicas) de uma dada população pertencente a um território delimitado.

A priorização do território deu-se, também, pela presença de um Centro de Pesquisa para doenças tropicais que serviu de apoio inicial ao projeto e propiciou a estruturação das ações em áreas urbanas, rurais e ribeirinhas, duas vezes ao ano. O território selecionado foi um município do interior do Estado de Rondônia. O município foi considerado pelo seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), pelas condições de vida e trabalho da população e pelo acesso restrito à saúde bucal e fonoaudiológica.

As bases ideológicas e os referenciais adotados na implementação do Projeto “FOB-USP-Rondônia” evidenciaram o conceito de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão; a Interação Dialógica; a Interdisciplinariedade e interprofissionalidade nas ações; a transformação da Formação teórica e prática do Estudante, com base nos determinantes sociais da saúde; na excelência técnica e na relevância social de sua produção.

O objetivo principal do Projeto “FOB-USP em Rondônia” consiste em desenvolver ações de promoção da saúde, prevenção de agravos, diagnóstico e tratamento a população vulnerável socialmente com base no conceito ampliado de saúde e na tríade – ensino, pesquisa e extensão.

Alguns dos objetivos específicos:

  • Ampliar o acesso aos serviços de saúde bucal e fonoaudiológica;
  • Propiciar interação e troca de saberes entre os profissionais de diferentes regiões criando uma rede de colaboração, apoio e conhecimento;
  • Formar recursos humanos com qualificação técnica, social e humana para a produção de saúde;
  • Produzir informações e conhecimentos atrelados à realidade social e as necessidades de saúde da população;
  • Articular com os gestores municipais de saúde e com os serviços de saúde do município ações de promoção e proteção, prevenção de agravos, diagnóstico, tratamento, reabilitação e manutenção da saúde da população.

Assim, no ano de 2002, foram iniciadas as atividades de extensão em Monte Negro-RO. Desde então todo o processo logístico, desde a preparação para a viagem até a realização prática dos atendimentos foram pautados em forte trabalho em equipe e sólida dedicação aos objetivos propostos.

O município de Monte Negro, no Estado de Rondônia, surgiu como núcleo urbano de apoio rural do Projeto de Assentamento Dirigido Marechal Dutra com o nome de Boa Vista. O projeto de emancipação que tramitava na Assembleia Legislativa do Estado de Rondônia trazia esse nome, fato que impedia a criação do município, isto porque já existia um município, com esse topônimo (nome próprio de lugares). Nas reuniões da Constituinte, em setembro de 1989, o deputado Sivernani Santos foi avisado da impossibilidade de criação de município com o nome de outro já existente. O deputado realizou uma reunião com os moradores do povoado que escolheram o nome de Monte Negro, em homenagem a um acidente geográfico que existe no local. O município com o nome de Monte Negro foi criado pela Lei Nº 378, de 13 de fevereiro de 1992, assinada pelo governador Oswaldo Piana Filho, com área desmembrada do Município de Ariquemes.

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Fica a 182 km da capital do estado, Porto Velho, possui 4.067 domicílios particulares permanentes onde residem 14.091 habitantes (Censo Brasil 2010), sendo 7.391 na zona urbana e 6.700 na zona rural.

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O território de Monte Negro é dividido em Setores, na área urbana, e em Linhas, na zona rural. O Projeto FOB/USP em Rondônia, em parceria com as Secretarias Municipais, realiza atendimento clínico odontológico e fonoaudiológico em várias dessas localidades.

PLANEJAMENTO DAS EXPEDIÇÕES: Processo de seleção dos Expedicionários.

Na fase de planejamento, a coordenação do Projeto “USP em Rondônia” prepara seus alunos de graduação, pós-graduação e docentes para prestarem atendimentos odontológicos e fonoaudiológicos à população, realizar atividades educativas e de promoção de saúde bem como proporcionar aos alunos uma experiência de trabalho em comunidades distantes com culturas e realidades diferentes das encontradas na região Sudeste.

A preparação dos alunos é iniciada com um curso realizado semanalmente, durante dois meses, sobre temas considerados importantes para que o trabalho seja desenvolvido da melhor maneira possível segundo as condições locais. Os alunos do último semestre da graduação têm a oportunidade de relembrar conceitos de Saúde Coletiva, conhecer a realidade local e participar diretamente das propostas para ações em cada expedição. Após o curso, os alunos passam por uma seleção e os que apresentam melhor desempenho embarcam junto aos pós-graduandos, docentes e funcionários para desenvolver ações por cerca de 15 dias.

A equipe presta serviços à população em uma área circunscrita às zonas urbana e rural do município de Monte Negro. Grande parcela desta população vive distante dos grandes centros, alheia às condições básicas de saneamento, educação e a programas de saúde básica (prevenção primária, secundária e terciária). Tal iniciativa surgiu para adequar à realidade estrutural e o perfil epidemiológico da população, com o intuito de dinamizar as ações já desenvolvidas no referido município e assim oferecer melhor qualidade de vida à população carente que vive distante dos grandes centros.

Todas as ações do projeto estabelecem laços entre realidade, aprendizagem, pesquisa e sala de aula. O fazer e o repensar devem retornar à Universidade e oxigenar o corpo docente e discente, e consequentemente, os currículos, tendo em vista que a tríade ensino, pesquisa e extensão têm de estar alicerçada no perfil do Profissional-Cidadão que se pretende formar.

A oportunidade de levar um grande grupo de alunos numa viagem longa permite o desenvolvimento de diferentes competências que propiciam maiores chances de que o aluno venha a obter sucesso e satisfação profissional. Realmente isso tem acontecido durante cerca de 15 anos. Alunos diretamente comprometidos com as expedições a Rondônia têm alcançado ótimas conquistas no serviço publico em geral, mas, principalmente, em Forças Armadas, e em Universidades públicas federais e estaduais, com ênfase nas do Estado de São Paulo. A visão da equipe coordenadora do Projeto esteve sempre ligada ao comprometimento de cada centavo aplicado pelo contribuinte para formação do melhor profissional, com visão não só clínica, mas também coletiva e cidadã.

“Numa sociedade cuja quantidade e qualidade de vida assentam em configurações cada vez mais complexas de saberes, a legitimidade da universidade só será cumprida quando as atividades, hoje ditas de extensão, se aprofundarem tanto que desapareçam enquanto tais e passem a ser parte integrante das atividades de pesquisa e de ensino.”

SANTOS, Boaventura de Souza

 

Referencias Bibliográficas

Brasil. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Texto consolidada até a Emenda Constitucional No 70 de 29 de março de 2012. Senado Federal. Disponível em: http://www.senado.gov.br/legislacao/const/con1988/CON1988_29.03.2012/CON1988.pdf>

Bastos, J.R.M; Caldana, M.L. – Odontologia e Fonoaudiologia: dez anos de práticas e políticas públicas em projeto de extensão: FOB-USP em Rondônia. Bauru, SP: Idea Editora, 2012.

Santos, S.B.A. Crítica da Razão Indolente: contra o desperdício da experiência. 4ª ed. São Paulo: Cortez, 2001.

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