Olimpíada Rio 2016 – Imagens em competição

Bianca Freire-Medeiros – FFLCH

Por - Editorias: Artigos
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Bianca Freire-Medeiros é professora do Departamento de Sociologia da FFLCH-USP e coordenadora do UrbanData-Brasil, banco de dados bibliográficos sobre o Brasil Urbano.com – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Ao som de uma animada batucada de fundo, uma voz feminina em off informa: “It is a land that celebrates its many faces. From cities that reach from sea to sky, to wilderness that man has yet to conquer” (“É uma terra que celebra suas muitas faces. Em cidades que vão do mar ao céu, até territórios selvagens que o homem ainda tem de conquistar”).

Se o texto faz referência ao que seria resultado da intervenção humana, é o segundo elemento – a natureza indomada – que predomina no vídeo promocional feito pela NBC, rede de televisão detentora dos direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos Rio 2016 nos Estados Unidos (http://www.wcsh6.com/sports/olympics/welcome-to-rio/285845315).

A cadência da narradora contrasta com a rapidez dos flashes de imagens que os nossos olhos tentam enlaçar: Baía de Guanabara, Grupo Olodum, praia, igreja, escadaria colorida pontilhada de gente sorridente, um sapinho em close, um indígena que aponta sua flecha em arco na nossa direção, cachoeiras e florestas – muitas florestas.  Afinal, como a narradora informa, trata-se de “one of the world’s last mysterious realms” (“um dos últimos reinos misteriosos do mundo”).

Mais à frente, a estátua do Cristo Redentor capturada em vários ângulos nos traz a certeza de que chegamos ao Rio de Janeiro. A cidade que se apresenta, porém, não é antítese de natureza. Os próximos flashes nos levam à praia e dali à favela, onde meninos soltam pipas e de onde se vê, ao fundo, mais uma vez o mar.

Quase sempre enquadrado de cima, o Rio revela edifícios desfocados, tímidos à sombra da natureza que os engolfa. Exceção para as habitações coloridas e desalinhadas da favela, onde a câmera se detém com um pouco mais de detalhe. Os elementos humanos remetem ao repertório da tipicidade: mulheres de biquíni, sambistas, crianças da favela, todos devidamente bronzeados e sorridentes. A nadadora americana Missy Franklin é o único rosto a quem é dada voz: “I am so excited to experience Rio” (“Estou tão animada para conhecer o Rio”).

Se o texto faz referência ao que seria resultado da intervenção humana, é o segundo elemento – a natureza indomada – que predomina no vídeo promocional feito pela NBC, rede de televisão detentora dos direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos Rio 2016 nos Estados Unidos. (http://www.wcsh6.com/sports/olympics/welcome-to-rio/285845315)

Sua expectativa justifica-se, segundo ela, em nome da notória vocação carioca para a diversão.  O vídeo transmuta a expectativa em certeza: na cena final, um grupo de passistas, com fantasias coloridas, ensina a gringa alta, loira e um tanto desajeitada a sambar em câmera lenta.

Ao longo dos seus 90 segundos de duração, a peça promocional da NBC faz apenas uma breve referência às queixas do Comitê Olímpico Internacional (COI) sobre a precariedade das obras às vésperas do início dos jogos. No mais, o que se tem é um desfile de clichês sobre o Rio de Janeiro e seus habitantes que há muito povoam o imaginário internacional: a polis vencida pela exuberância de sua natureza, onde corpos reluzentes enfrentam as adversidades com sorrisos e batucada.

A Prefeitura do Rio, há que se reconhecer, investiu pesado na produção de uma nova imagem de cidade. A série de vídeos oficiais por ela produzidos e veiculados ostenta production values inegáveis e representa um esforço de redirecionar o olhar estrangeiro das paisagens naturais para os feitos da cultura (ver https://www.facebook.com/CidadeOlimpica/videos).

Em uma dessas peças promocionais, eloquentemente intitulada Já nasceu um novo Rio, desfila o conjunto das grandes obras – museus, rodovias, complexos esportivos etc. – sem que qualquer menção seja feita às paisagens turísticas mais convencionais da cidade. O protagonismo não está na natureza nem nos corpos típicos, mas no Rio que se quer “smart city”, urbe alinhada com as demandas da economia globalizada, pronta para receber e agradar ao turista do rico norte.

Para além do legado de infraestrutura física que os jogos olímpicos garantiriam à cidade, uma das justificativas oficiais mais alardeadas remetia justamente à chance de reerguermos nossa imagem como destino turístico no competitivo circuito das mobilidades globais.

Ao fim e ao cabo, nem a cidade se fez para o conjunto de sua população, nem conseguimos superar os predicados que a imaginação estrangeira há tanto tempo nos oferta. Nos jogos de imagens, para prejuízo de todos, vencem mais uma vez os velhos estereótipos da Terra Brasilis.

Vale lembrar que, apesar do crescimento expressivo do turismo na cidade em números absolutos – 170% entre 1990 e 2003 –, a curva é descendente quando analisamos a porcentagem de turistas internacionais que, chegando ao Brasil, elegem o Rio como destino: 51% em 1990 contra 36,9% em 2003, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas.

Tomado como ápice de uma longa série de megaeventos que tiveram a cidade como palco nos últimos anos, os jogos olímpicos seriam nosso grande e definitivo ponto de virada. Daí o investimento estratégico na arquitetura icônica (o Museu do Amanhã, do badaladíssimo Santiago Calatrava, talvez seja o melhor exemplo), na revitalização das áreas ricas em patrimônio histórico (o projeto Porto Maravilha) e em ações variadas de marketing urbano.

Desse investimento, sempre seletivo e insciente das áreas tidas como não turísticas, surgiriam novas oportunidades de negócio que, mais adiante, haveriam de beneficiar a cidade como um todo. Em nome dessa aposta, áreas de proteção ambiental se converteram em campos de golfe, algo em torno de 70 mil pessoas sofreram processo de remoção e a repressão arbitrária do Estado aos segmentos populares encontrou legitimidade entre segmentos variados.

Encerro este pequeno texto no dia da abertura oficial dos jogos. Sou carioca e apaixonada pela minha cidade. Gostaria sinceramente de ver uma festa democrática e, inclusive, que a Cidade Olímpica, tão celebrada na propaganda oficial, fosse para todos os cidadãos cariocas. Mas, ao fim e ao cabo, nem a cidade se fez para o conjunto de sua população, nem conseguimos superar os predicados que a imaginação estrangeira há tanto tempo nos oferta. Nos jogos de imagens, para prejuízo de todos, vencem mais uma vez os velhos estereótipos da Terra Brasilis.

 

 

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