USP amplia diversidade social e étnica

Perfil dos novos alunos da Universidade mudou; em 2019, a USP tem mais calouros vindos de escolas públicas e pretos, pardos e indígenas

Pedro, calouro da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Mais pretos, pardos e indígenas

Em 2019, o número de calouros autodeclarados pretos, pardos e indígenas (PPI) nos cursos de graduação da USP aumentou. Neste ano, dos 10.779 alunos ingressantes*, 2.734 são estudantes pertencentes a esse grupo, o que representa 25,7% do número total de vagas, independentemente da modalidade de concorrência.  No ano passado, esse índice foi de 18,5%.

Segundo dados da Pró-Reitoria de Graduação, 36,7% desses alunos não utilizaram o sistema de reserva de vagas para ingressar na Universidade – 702 entraram na modalidade Ampla Concorrência, 302 na modalidade Escola Pública e 1.730 estudantes foram admitidos por meio da modalidade EP-PPI.

“Esse resultado nos mostra que a Universidade está se tornando cada vez mais representativa da sociedade brasileira. Um terço dos candidatos optou por concorrer em outras categorias para além da reserva de vagas, o que mostra que nossas políticas de inclusão estão sendo efetivas para estimular esses estudantes a fazerem parte da nossa Universidade”, destaca o reitor Vahan Agopyan.

Outro dado que chama a atenção, segundo o reitor, é o fato de 41,8% dos alunos ingressantes terem cursado todo o ensino médio em escolas públicas, contra os 49,7% vindos de instituições particulares. “Estamos diante de um marco histórico da nossa Universidade e caminhando a passos largos para que essa proporção chegue a 50% até 2021”, afirma Agopyan.

Os demais 8,5% dos ingressantes cursaram o ensino médio parte em escola pública, parte em escola privada ou, ainda, em escolas particulares com bolsas e em fundações.

Desde 2018, a USP adota a reserva de vagas para alunos de escolas públicas e autodeclarados PPI. Na inscrição do vestibular, tanto para a Fuvest quanto para o Sisu, ao escolher sua carreira e seu curso, o vestibulando tem três opções: Ampla Concorrência (AC), Ação Afirmativa Escola Pública (EP) e Ação Afirmativa Preto, Pardo e Indígena (PPI).

* Dados referentes à quarta chamada da Fuvest e segunda chamada do Sisu (situação em 15/03/19)

Vahan Agopyan, reitor da USP –
Foto: Marcos Santos/USP Imagens

USP mais acessível

Importante mudança no perfil dos ingressantes diz respeito à situação socioeconômica da família. Em 2019, 45% dos calouros têm renda familiar bruta entre um e cinco salários mínimos e 55% têm renda acima dos cinco salários mínimos. Em 2017, esses índices foram de 39% e 61%, respectivamente.

“A inclusão social e étnica é um importante instrumento para oferecer oportunidade de ascensão social a estudantes que não provêm dos segmentos mais abastados da sociedade. Com esses dados, fica claro que, hoje, a USP é uma universidade acessível para todos”, considera Agopyan.

Perfil dos novos alunos

41,8%

Ensino todo em
escola pública

49,7%

Ensino todo em
escola particular

5,3%

Em outra situação

(escola particular com bolsa ou fundações)

2,2%

Maior parte do ensino em
escola particular

1,0%

Maior parte do ensino em
escola pública

Renda Familiar Bruta
em salário mínimo (SM)

% em relação ao
nº de ingressantes

Inferior a 1 SM

2,4%

De 1 a 1,9 SM

10,7%

De 2 a 2,9 SM

12,0%

De 3 a 4,9 SM

19,9%

De 5 a 6,9 SM

15,4%

De 7 a 9,9 SM

13,4%

De 10 a 14,9 SM

11,6%

De 15 a 19,9 SM

5,5%

Igual ou superior a 20 SM

9,1%

Ingressante de 2019

Juan Comamala, de 20 anos, estudou durante dois anos após terminar o ensino médio para passar em Direito na USP, na capital. No segundo ano, estudando sozinho, conseguiu a aprovação pelo Sisu

No último ano de colégio, Juan Andrew Diniz Comamala estava focado no objetivo de cursar uma universidade pública. Aproveitava ao máximo as aulas e complementava fazendo cursinho aos sábados. Em 2017, não foi aprovado, então no ano seguinte decidiu estudar sozinho e o resultado foi o melhor possível: ingressou no mais tradicional curso de direito do País.

Ele lembra que acordava cedo, fazia as tarefas de casa pela manhã e, então, passava o resto do dia estudando. “Eu estudava de cinco a seis horas por dia, em geral, mas também já cheguei a estudar de dez a 12 horas”, conta. Aos finais de semana fazia provas antigas do Enem e também simulados.

Juan decidiu concorrer apenas ao Enem e conseguiu uma vaga na USP por meio do Sisu, na modalidade PPI. “Quando eu saí da prova achei que tinha ido muito mal”, conta.

O estudante conta que sua maior motivação foi a convicção sobre ensino público. “Eu acredito que o acesso à educação é um direito meu. Nunca pensei em pagar por ela”.

O sonho de cursar Direito surgiu aos 13 anos, enquanto assistia a um programa de televisão. Juan não tem certeza ainda do que gostaria de seguir no futuro, mas cogita tornar-se promotor.

“Eu falaria para as pessoas que ainda estão prestando vestibular para não desistirem e estudarem. Se manterem firmes e acreditarem nelas mesmas. Jamais duvidarem de si.”

Larissa Nunes, caloura da Escola de Comunicações e Artes, com veterano durante a recepção aos calouros de 2019 - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Mais alunos de escolas públicas

Em 2019, a USP alcançou a meta estabelecida pelo Conselho Universitário para a reserva de vagas destinadas a alunos de escolas públicas (EP) e autodeclarados PPI nos cursos de graduação, com mais de 40% de alunos matriculados oriundos de escolas públicas e, dentre eles, 40,1% na modalidade PPI.

Esse foi o maior índice de alunos de escolas públicas alcançado pela USP nos últimos anos. Até o vestibular de 2014, a proporção de estudantes desse grupo ingressantes na USP variou na faixa de 24% a 27%. Entre 2015 e 2017, esse índice ficou entre 34% e 37% e, em 2018, chegou a 39%.

Este é o segundo ano em que a USP adota a reserva de vagas. A reserva vem sendo feita de forma escalonada: no ingresso de 2018, foram reservadas 37% das vagas de cada Unidade de Ensino e Pesquisa; em 2019, a porcentagem é de 40% de vagas reservadas de cada curso de graduação; para 2020, a reserva das vagas em cada curso e turno deverá ser de 45%; e no ingresso de 2021 e nos anos subsequentes, a reserva de vagas deverá atingir os 50% por curso e turno.

Nessa reserva também incide o porcentual de 37,5% de cotas para estudantes autodeclarados PPI, índice equivalente à proporção desses grupos no Estado de São Paulo verificada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Uma das mudanças do vestibular deste ano foi a adoção, pela Fuvest, das inscrições por modalidades de vagas já a partir da primeira fase do vestibular. Assim como já ocorre no Sisu, a partir de 2019, ao escolher sua carreira e seu curso, o vestibulando tem três opções: Ampla Concorrência (AC), Ação Afirmativa Escola Pública (EP) e Ação Afirmativa Preto, Pardo e Indígena (PPI). Com a institucionalização da reserva de vagas, a concessão de bônus na Fuvest deixou de existir.

Meta alcançada em 2019!

40%

de alunos matriculados oriundos de
escolas públicas

40,1%

na modalidade PPI​

Metas cumpridas

Segundo levantamento feito pela Pró-Reitoria, dos 183 cursos oferecidos pela Universidade, 168 cumpriram a meta, atingindo 40% ou mais das vagas preenchidas por alunos de escolas públicas. Os 15 restantes ainda estão em fase de preenchimento das vagas resultantes das últimas chamadas da Fuvest e do Sisu.

Entre os PPI ingressantes segundo a modalidade EP/PPI, 150 cursos cumpriram a meta de, no mínimo, 37,5% das vagas destinadas a esse grupo. Outros 33 cursos ainda estão em fase de preenchimento das vagas resultantes das últimas chamadas da Fuvest e do Sisu.

Em 56 cursos, o porcentual de autodeclarados PPI dentre os alunos oriundos de escola pública foi de, pelo menos, 50%, destacando-se os cursos de Odontologia (Bauru), com 52%; Direito (São Paulo e Ribeirão Preto), com 56%; Relações Internacionais e Ciências Biológicas (Ribeirão Preto), ambos com 73%; e Geografia (noturno), com 83%.

Os cursos de Medicina oferecidos nos campi de Ribeirão Preto e de Bauru tiveram, entre os matriculados, 43% de alunos PPI oriundos de escolas públicas. Em São Paulo, esse índice foi de 39%.

No caso dos cursos de Engenharia, a Escola Politécnica (Poli), a Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) e a Escola de Engenharia de Lorena (EEL) tiveram a média de 44% de alunos EP-PPI.

Dos 183 cursos oferecidos pela Universidade

168 cumpriram a meta

atingindo 40% ou mais das vagas preenchidas
por alunos de escolas públicas

Ingressante de 2019

Aos 16 anos, a sergipana Alice Silva já publicou quatro livros e prepara o quinto, enquanto se adapta ao ritmo de caloura de Ciências Biológicas no campus de Ribeirão Preto

Alice Vitória Rocha Silva é uma sergipana de 16 anos, famosa no mundo literário e agora caloura na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP.

Aos cinco anos, iniciava o ensino fundamental, entrando direto no segundo ano. Ao mesmo tempo, escrevia seu primeiro livro, O monstro de chocolate, publicado em quatro idiomas. Foi estrela mirim da Bienal Internacional do Livro em São Paulo, em 2010, e, em 2013, sua obra foi exposta no The London Book Fair, na Inglaterra, considerada uma das mais importantes feiras literárias do mundo.

Sua inspiração para a literatura, diz, foi a escritora Ruth Rocha, especialmente. Aos 11 anos, Alice publicou sua segunda obra, A bruxinha boazinha e os ratinhos de circo, com prefácio de Maurício de Sousa. Em abril próximo sai seu quinto livro, Saída discreta pelas portas do fundo, em parceria com o ator Kaique Pereira. O texto fala de preconceito racial nas redes sociais.

A jovem escritora e bibliófila acredita que tenha lido até hoje cerca de 3 mil livros, o que, na sua opinião, foi o seu diferencial no Enem e lhe rendeu aprovação na USP. “Na prova, saber interpretar é fundamental. Mesmo que você não saiba muito do assunto, sabendo interpretar dá para responder”, afirma.

Sobre a escolha da Universidade, a estudante é categórica. “Ao analisar as instituições que ofereciam o curso, vi que a USP é considerada a melhor da América Latina. Li sobre a infraestrutura, o currículo e o peso no mercado de trabalho. Tudo isso me chamou a atenção e também recebi grande incentivo da minha mãe, pedagoga e socióloga, para optar pela USP”.

Ela chegou ao campus acompanhada do pai, André Jorge Silva, um jornalista e radialista de Olinda, Pernambuco. Disse que gostou do espaço arborizado e da arquitetura e que espera que o ensino na USP seja tão bom quanto ouviu falar.

Pedro Schuetana, calouro 2019 da Psicologia - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Vem pra USP! aprova alunos na Fuvest

Mais de 350 estudantes do ensino médio público, incluindo treineiros, que participaram da Competição USP de Conhecimentos (CUCo) foram aprovados no vestibular da Fuvest.

As áreas que tiveram mais aprovados da CUCo foram as Engenharias, Ciências Exatas e da Terra, Administração/Economia, Farmácia, Direito, Enfermagem, Letras e Educação Física.

A CUCo é uma competição que integra o programa “Vem pra USP!”, uma parceria com a Secretaria Estadual da Educação para valorizar os estudantes da rede pública, incentivá-los a estudar na Universidade e prepará-los para o vestibular.

Antonio Carlos Hernandes, vice-reitor da USP – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Em 2018, a competição contou com cerca de 50 mil alunos inscritos procedentes de 528 municípios do Estado de São Paulo e, do total de 2.743 escolas, foram premiados 4.233 estudantes.

“O Vem pra USP! tem como principal diretriz a valorização do mérito centrada em cada escola e para as três séries do ensino médio. Com isso, você enaltece a escola pública e o aluno que se inscreve espontaneamente. Nosso objetivo é incluir com mérito, prestigiando o esforço individual do estudante”, destaca o vice-reitor da USP e idealizador da CUCo, Antonio Carlos Hernandes.

Além da isenção da taxa da Fuvest, os estudantes premiados na Competição tiveram monitoria de matemática pela internet, onde podiam esclarecer suas dúvidas on-line com monitores da USP, obter dicas de como se organizar para estudar e conversar com outros usuários em um fórum de interação.

Na premiação da CUCo deste ano, a USP entregou R$ 64 mil para 11 escolas, sendo seis estaduais e cinco técnicas, além de certificados.

Para as escolas técnicas que tiveram os maiores índices de participação, os prêmios foram para os grêmios estudantis. No caso das estaduais, o cálculo primeiro foi para saber, dentre as 91 diretorias regionais de educação, quais foram as cinco com maior índice de participação. Depois de definidas as regionais, foi a vez de escolher as escolas mais participativas. Os prêmios incluíram as escolas e os grêmios estudantis delas.

Toda região que ultrapassasse 7% dos seus alunos fazendo a prova da segunda fase elegeria uma escola para ganhar o prêmio para o grêmio estudantil.

Em 2018, a USP investiu no programa mais de R$ 500 mil em prêmios, incluindo as isenções na taxa da Fuvest, para as escolas, os professores e os alunos envolvidos na competição.

Quem são os alunos da CUCo 2018

528

municípios do Estado de São Paulo receberam as provas

dos 645 municípios existentes

Inscritos

49 mil

estudantes do
ensino médio
de escolas públicas

61,5%

mulheres

47%

renda bruta familiar inferior a 2 salários mínimos

43%

preto, pardo
e indígena

Alunos por tipo de escola

37,1 mil

vindos de
escolas estaduais

11,1 mil

vindos de
escolas técnicas estaduais

712

vindos de
escolas federais/municipais

Quem são os estudantes aprovados

50,3%

homens

49,7%

mulheres

70,2%

renda bruta familiar
inferior a 5 salários mínimos

34,3%

pretos, pardos
e indígenas

Premiados

alunos

icone_estudante2

4233

916

alunos do 1o. ano

1319

alunos do 2o. ano

1998

alunos do 3o. ano

escolas

icone_escola

2000

entre 2.743 escolas participantes

Ingressante de 2019

A caloura Giovanna Santana Wanderley participou do programa Vem pra USP! e foi aprovada pela Fuvest no curso de Engenharia de Alimentos, no campus de Pirassununga. Ela estudou em escola estadual e ingressou na modalidade PPI

Giovanna Santana Wanderley sempre teve interesse em trabalhar com produção de alimentos. Chegou a fazer um curso de gastronomia, mas acabou se encontrando nos cálculos. Em 2019, com 18 anos, passou no curso de Engenharia de Alimentos na Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga.

O momento da descoberta de que tinha entrado na USP foi de extrema felicidade. “Não esperava que fosse passar”, conta. Porém, foi necessário percorrer um longo caminho até a aprovação. Nascida e criada em São Paulo, Giovanna frequentou a Escola Duarte Leopoldo Silva e Dom durante todo o ensino médio e concorreu na modalidade de vagas para autodeclarados pretos, pardos ou indígenas (PPI). A estudante acabava, muitas vezes, tendo que estudar em casa por conta própria, pois as matérias não eram vistas de maneira aprofundada na escola.

Giovanna conta que o mais difícil era justamente ter que aprender sozinha. Ela tinha que se organizar e ter disciplina com tempo e o conteúdo a ser estudado. “Arrumar as matérias que tem que estudar, se planejar e arranjar horário para se dedicar foram as partes mais complicadas.” 

O projeto “Vem para USP” frequentado pela estudante ajudou nessa questão. Foi lá que conseguiu revisar tópicos de conteúdos que havia esquecido.

Para ela, a Universidade está sendo uma boa surpresa. “Estou gostando bastante daqui. Do campus, do curso, de tudo. Achei que não iria me adaptar tão rápido”, revela.

Cerimônia de premiação da Competição USP de Conhecimentos - Foto: Edmilson Luchesi / USP São Carlos

Este ano, matrícula dos calouros foi 100% virtual

Uma das novidades do vestibular da USP este ano foi a adoção, pela primeira vez, de um sistema virtual para a matrícula dos aprovados tanto pela Fuvest quanto pelo Sisu.

O principal resultado alcançado com o novo sistema, avalia o pró-reitor de Graduação, Edmund Chada Baracat, foi a agilidade no preenchimento das vagas.

Tendo como base os dados referentes à quarta chamada da Fuvest e a segunda chamada do Sisu*, foram deferidas 10.779 matrículas, o que representa 97% do total de vagas.

Pró-reitor de Graduação, Edmund Chada Baracat – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Considerando as 8.362 vagas oferecidas pela Fuvest este ano, 98% foram preenchidas. Em relação às 2.785 vagas do Sisu (2.785 vagas), esse índice chega a 93%.

As vagas remanescentes do Sisu foram remanejadas para a Fuvest e as remanescentes da Fuvest serão destinadas para o processo de transferência interna.

O pró-reitor considera a experiência um “sucesso”. “Com o novo sistema, não houve necessidade do deslocamento dos estudantes até os diferentes campi para fazerem a matrícula presencial neste momento, evitando viagens e custos desnecessários, especialmente para aqueles oriundos de outros municípios e Estados”, considera.

Segundo ele, “o processo de matrícula virtual demonstrou ser seguro, moderno e alinhado com as necessidades de todos os envolvidos. Diversos foram os elogios de alunos, docentes e serviços de graduação ao novo processo que trouxe praticidade e agilidade à matrícula”.

 * posição de 15/03/2019

Depoimentos de ingressantes de 2018:

A mãe de David França não pôde concluir a primeira etapa do ensino fundamental, mas sempre o motivou a se focar nos estudos. Ele é aluno do segundo ano de Engenharia de Produção na Poli

Durante toda a sua vida David Allan França estudou em escolas públicas. Conseguiu frequentar um cursinho pré-vestibular com bolsa e foi complementando os estudos com conteúdos on-line.

Nesse período, conta que abriu mão do futebol, sua atividade esportiva favorita, e até mesmo do violão que costumava dedilhar quando chegava da escola. A proximidade de sua casa, no Butantã, à USP aumentou o desejo passar no vestibular.

No cursinho, lembra de uma professora que falava sobre inteligência emocional. “As aulas me ajudaram muito a lidar com conflitos internos próprios deste período de vestibulando”.

Sua mãe só pôde estudar até a quarta série do ensino fundamental e sempre aconselhou o filho a se manter focado nos estudos.

Aprovado na Fuvest, ele começou em 2018 o curso de Engenharia de Produção na Escola Politécnica (Poli). Ele lembra do estresse para superar dificuldades em cálculo e física, as matérias “vilãs” do primeiro biênio dos cursos de engenharia.

Mayla Venancio é estudante do segundo ano de Ciências Biológicas em Ribeirão Preto e ingressou na USP pelo Sisu. É a primeira da família a cursar o ensino superior. “Desistir nunca pode ser uma opção”, diz.

Sem condições de pagar um cursinho pré-vestibular, Mayla Gabriela Zanchetta Venancio decidiu encarar sozinha a dura rotina de estudos para tentar uma vaga na USP. Durante um ano, seu único objetivo foi se preparar para conseguir ingressar no curso de Biologia oferecido na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP).

Seu nome não estava na primeira lista de aprovados, mas a lista rodou e quando começava a se organizar para iniciar mais um ano de estudos, recebeu a notícia de que havia sido aprovada.

“Eu já estava desanimada, mas meus pais estavam sempre me encorajando para que eu me mantivesse otimista. Hoje, eles se orgulham de mim porque sou a primeira da família a entrar em um curso superior”, conta. Filha de pai aposentado por invalidez e de mãe que vende pães caseiros, ingressou na USP pelo Sisu na modalidade PPI.

A estudante lembra do dia em que recebeu a carteirinha da USP: foi quando “caiu a ficha” de que realmente fazia parte do corpo discente da maior universidade pública do Brasil. “Desistir nunca pode ser uma opção”.

Aprovado em Jornalismo na ECA, Caio Santana Rodrigues ingressou em 2018 na USP, por meio do Sisu. Com a família no Mato Grosso do Sul, ele hoje é morador do Crusp

Nascido no extremo sul da Bahia e criado no interior do Espírito Santo, Caio Santana Rodrigues se mudou para São Paulo no início de 2018, depois de entrar no curso de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Para ser aprovado, decidiu conciliar o último ano do ensino médio com o cursinho.

O período até o vestibular foi tão conturbado que ele nem chegou a pensar muito sobre como conseguiria morar em São Paulo. “Só fui saber do Crusp quando cheguei aqui e o rapaz que me atendeu na matrícula falou que eu poderia morar lá, principalmente por eu ser de outra cidade”.

O Crusp é a moradia estudantil do campus Butantã da USP. A seleção para as vagas da residência é baseada em critérios socioeconômicos.

Nos finais de semana, parte dos estudantes que moram mais perto da capital volta para casa, deixando o ambiente um tanto solitário para os colegas que ficam. Apesar de ficar sozinho no apartamento compartilhado, Caio não reclama. “É um momento em que posso ligar pra família, com mais tempo e calma”.

Conteúdo e edição: Adriana Cruz – Colaboração: Aline Naoe, Ivanir Ferreira, Laura Raffs, Maria Paula Andrade, Mariangela Castro, Matheus Souza e Rosemeire Talamone – Arte: Thais Helena dos Santos