Frotas pesqueiras do Brasil precisam de administração mais eficaz

Estudo aponta que o setor trabalha quase no prejuízo, carecendo de organização nos aspectos social, econômico e ambiental

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Setor pesqueiro de Itajaí, SC, foi uma das regiões que tiveram suas frotas analisadas no estudo – Foto: Alex Dickel/ Sindipi

O Brasil possui um litoral de mais de sete mil quilômetros (km) de extensão, mas as atividades pesqueiras ainda não são devidamente gerenciadas, como mostra um estudo realizado no Instituto Oceanográfico (IO) da USP. “Metade das frotas pesqueiras analisadas trabalha quase no prejuízo, com altos custos e baixas receitas”, estima Amanda Ricci Rodrigues, que analisou em sua pesquisa de doutorado os dados econômicos de 17 frotas pesqueiras que atuam nas regiões Sul e Sudeste do País.

Segundo Amanda, há poucos estudos no Brasil que estimam os dados econômicos da frota pesqueira. Esses dados, segundo a pesquisadora, são de extrema importância para que o setor se organize em três aspectos: social, econômico e ambiental. Assim, a pesquisa Desempenho econômico das frotas pesqueiras comerciais na região sudeste e sul do Brasil entre Angra dos Reis (23ºS) e Rio Grande (32ºS), que teve orientação da professora Mary Gasalla e financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (Capes), poderá ter grande importância no cenário da pesca nacional. E tal reconhecimento já foi obtido recentemente no exterior.

Prêmio nos EUA

Amanda Ricci Rodrigues e os professores Marty Smith (Duke University) e  Nobuyuki Yagi (Universidade de Tokyo) (da esquerda para a direita), durante a premiação em Seattle, nos EUA – Foto: International Institute of Fisheries Economics & Trade (IIFET)

Parte do estudo de Amanda foi publicada como um artigo na revista internacional Marine Policy (volume 93) com o título Harvesting costs and revenues: Implication of the performance of open-accsses industrial fishing fleets off Rio Grande, Brazil. O estudo foi premiado em Seattle, nos EUA, recebendo o Yamamoto Prize for Best Paper on Responsible Fishing (Prêmio Yamamoto para o Melhor Artigo sobre Pesca Responsável). A premiação foi concedida durante a 19ª Conferência Internacional do International Institute of Fisheries Ecnomics & Trade (IIFET), que aconteceu entre os dias 16 e 20 de julho, no campus da Universidade de Washington, em Seattle.

“O prêmio foi outorgado pela Agência Internacional de Pesquisa Pesqueira do Japão (Japan International Fisheries Research Society – JIFRS) e é um grande incentivo a outros estudantes de pós-graduação aqui do Instituto Oceanográfico”, comemora a pesquisadora. Segundo ela, o artigo premiado apresentou um método de coleta de dados e análises econômicas que poderá contribuir para uma padronização de conhecimento econômico das frotas pesqueiras nacionais. “Há escassez de dados econômicos sobre a atividade pesqueira brasileira. Os poucos que existem não são organizados”, lamenta.

Escassez dos estoques

Dados sobre a atividade pesqueira são escassos – Foto: Ibama via Fotos Públicas / CC BY-NC 2.0

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Camarão é pescado em quase todos os tipos de frotas – Foto: Elói Corrêa / GOVBA via Fotos Públicas / CC BY-NC 2.0

O capítulo descrito no artigo que foi premiado traz uma análise de quatro frotas pesqueiras da região de Rio Grande, do Rio Grande do Sul. Não só naquela região como em outras, um dos motivos que acarretam prejuízos é o baixo estoque de peixes.

Há muitos barcos capturando as mesmas espécies, daí a baixa do estoque.”

Nas quatro frotas analisadas, por exemplo, o peixe-castanha era capturado por quase todas. As frotas avaliadas foram: frota de rede de emalhe (um tipo de rede de pesca), que capturam a corvina e o peixe-castanha; frota de espinhel de superfície, que pesca atuns e espécies afins; frota de parelha (também com redes), que captura o peixe-castanha e corvinas; frota de rede arrasto, que também pesca o peixe-castanha. Segundo a bióloga, há estudos que indicam que o peixe-castanha está diminuindo. “Em nosso estudo observamos que ele é capturado por três tipos de frotas pesqueiras na região de Rio Grande. Mas há capturas em outras regiões também”, lembra, ressaltando que, “quanto mais a espécie se torna escassa, mais cara torna-se a sua captura”.

Para a proteção das espécies, os governos (federal e estaduais) por vezes restringem os tamanhos das malhas das redes e limitam regiões para a pesca, em períodos de defeso. Outra razão que a pesquisadora analisa como possível para o descontrole é o critério para a liberação de licenças para barcos pesqueiros. “O número de barcos não está sendo revisto”, afirma Amanda.

Frotas pesqueiras comerciais analisadas nos portos pesqueiros de Angra dos Reis (AR), Santos e Guarujá (SG), Itajaí e Navegantes (IN) e Rio Grande (RG) – Gráfico

Abandono

No estudo original de Amanda, foram analisadas 17 frotas do Sul e Sudeste do Brasil. Entre os anos de 2013 e 2014, a equipe do projeto entrevistou mestres e armadores (empresários do setor pesqueiro) e percebeu que os dados econômicos são escassos. “O que constatamos é que de fato houve prejuízos, o que pode estar relacionado a questões regionais que podem influenciar indiretamente o desempenho econômico das frotas, como o número elevado de embarcações em atividade, o estado de exploração das espécies-alvo e a falta de gestão das pescarias”, lembra. O artigo premiado nos EUA é assinado por Amanda e pelas pesquisadoras Patrizia Raggi Abdallah (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e Mariy Gasalla (do IO USP). A FAPESP e o Laboratório de Ecossistemas Pesqueiros (labpesq.io.usp.br) também tiveram importância fundamental para a execução do estudo, e participação no evento.

 

Classificação da viabilidade econômica e lucratividade de cada frota analisada nas regiões de Angra dos Reis (AR), Santos e Guarujá (SG), Itajaí e Navegantes (IN) e Rio Grande (RG) **. (TIR: Taxa Interna de Retorno, ML: Margem de Lucro).
Critérios de classificação da lucratividade das frotas:
– Margem de lucro (ML) maior que 10% = Boa (Gerando boa receita).
– Margem de lucro (ML) entre 0 e 10% = Vulnerável (Pouco lucrativa, gerando receita razoável),
– Margem de lucro (ML) menor que 0% = Ruim (Gerando perdas).
Critérios de classificação da viabilidade das frotas
– Taxa Interna de Retorno (TIR) > 12% = Boa (pescaria viável)
– Taxa Interna de Retorno (TIR) entre 10 e 11% = Vulnerável
– Taxa Interna de Retorno (TIR) < 10% – Inviável (gráfico cedido pela pesquisadora)

** Sujeito a modificações ao se considerar diferentes taxas SELIC

 

 

Mais informações: e-mail aricci@usp.br, com Amanda Ricci Rodrigues

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