Estresse hídrico em São Paulo deixa florestas mais secas e vulneráveis a incêndios

Paulo Artaxo diz que a situação é agravada pela fuligem e pela fumaça, que também afetam a qualidade do ar

 15/09/2021 - Publicado há 1 mês
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O número de casos de incêndios no Estado de São Paulo aumentou 8,4%, entre janeiro e julho deste ano, em comparação com o ano passado – Foto: francodarocha.sp.gov.br

De acordo com a estimativa da Prefeitura de Franco da Rocha, o incêndio que atingiu o Parque Estadual do Juquery, na manhã do dia 22 de agosto, acabou com 80% dos 2 mil hectares da última reserva do cerrado na região metropolitana de São Paulo presente naquela região. Ainda segundo o órgão, o incêndio foi iniciado após a queda de um balão sobre a vegetação seca. “As queimadas que observamos na cidade de São Paulo são fenômenos relativamente recentes, causados pela redução do fluxo de água entre as florestas no entorno da cidade, que ficam cada vez mais secas e vulneráveis ​​a incêndios”, destaca o professor do Instituto de Física, Paulo Artaxo, ao Jornal da USP no Ar 1 ° Edição

Segundo o Corpo de Bombeiros de São Paulo, o número de casos de incêndios no Estado aumentou 8,4%, entre janeiro e julho deste ano, em comparação com o ano passado. Artaxo ainda revela que o lançamento de balões nessas regiões muito secas pode causar grandes desastres ao cair. Vale lembrar que o lançamento de balões que provocar incêndios em áreas florestais, de vegetação ou mesmo urbanas é considerado crime ambiental previsto na Lei nº 9.605/98. 

Também é importante ressaltar que o incêndio que atingiu o último fragmento do cerrado no Parque Estadual do Juquery impacta diretamente no oferecimento de água no Estado. De acordo com a Rede Cerrado, primordialmente, o Estado de São Paulo tem 33% do seu território coberto pelo bioma, cenário que mudou ao longo dos anos e que chega a 13% atualmente. Além disso, ainda segundo a Rede, o “berço das águas brasileiras” se encontra dentro do cerrado no planalto central e algumas regiões de São Paulo, que são abundantes em nascentes de água, coincidem com vegetações típicas e conservadas do bioma. Por isso, além da estiagem que a cidade atravessa, criar um ambiente seco e propício às queimadas também gera impactos no ciclo de abastecimento nos reservatórios de água em São Paulo. “Não são fenômenos independentes”, diz Artaxo.

O Sistema Cantareira, por exemplo, que é um dos principais mananciais para abastecimento de água em São Paulo, está abaixo dos volumes registrados no ano de 2013, ano que antecedeu a crise hídrica na cidade. De acordo com a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), o sistema opera atualmente com pouco mais de 34% do volume de água.“A questão do estresse hídrico que o Estado de São Paulo está enfrentando causa impactos socioeconômicos enormes não só pela disponibilidade da água para as grandes cidades, mas também por conta dos impactos na agricultura, que é um dos principais setores econômicos afetados pela redução das chuvas e pelo aumento dos eventos climáticos extremos que observamos aqui e em todo o Brasil ”, ressalta Artaxo.

É necessário, segundo o professor, o desenvolvimento de maiores e melhores políticas públicas, que ofereçam resiliência ao sistema de distribuição de água nas grandes cidades paulistas e também na proteção das áreas verdes e secas. 

Qualidade do ar

Incêndio – Foto: francodarocha.sp.gov.br

Além da questão ambiental, as queimadas também impactam a saúde respiratória da população. No caso do incêndio no Parque do Juquery, a fumaça e a fuligem chegaram até a capital de São Paulo e cidades próximas, provocando o índice de qualidade do ar péssima na estação da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) em Perus, região próxima à cidade sede do incêndio, um dia após o desastre.

De modo geral, as queimadas que atingem o Estado de São Paulo causam grandes danos à qualidade do ar. De acordo com a Cetesb, nove das 27 estações da companhia registraram a qualidade do ar como ruim, muito ruim ou péssima no dia 23 de agosto deste ano. “As queimadas emitem para a atmosfera uma série de gases e partículas, que têm impacto negativo na saúde da população”, avalia Artaxo.

Professor Paulo Artaxo – Foto: Acervo Pessoal

Artaxo também destaca que, além do quadro de piora da qualidade do ar, por conta das queimadas e poluentes emitidos, também estamos inseridos na pandemia do coronavírus, que ataca principalmente o sistema respiratório humano, o que pode tornar o organismo ainda mais vulnerável à infecção. De acordo com Artaxo, a cidade de São Paulo não foi preparada para lidar com queimadas de grande porte, como a do Parque do Juquery. “Essas florestas são importantes para uma melhoria da qualidade do ar, na redução da ilha de calor da cidade e na preservação dos mananciais que são importantes para a segurança hídrica da cidade”, avalia. É esse conjunto de vulnerabilidades que a cidade tem que pautar em políticas de prevenção e monitoramento de incêndios, “trabalhar para a redução de gases de efeito estufa e não permitir o agravamento das mudanças climática globais, que são um dos motores por trás da crise hídrica que a cidade de São Paulo e o Brasil estão passando no momento atual ”, conclui Artaxo.  

 


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