Um desencontro de dois gigantes da literatura brasileira

Por Alexandre Ganan de Brites Figueiredo, mestre e doutor pelo Prolam/USP e pós-doutorando na FEA-RP/USP

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Alexandre Figueiredo – Foto: Arquivo pessoal
Ano que vem completam-se 75 anos da publicação de Sagarana, o primeiro livro de João Guimarães Rosa. São nove contos, ambientados no sertão mineiro, escritos e reescritos durante muitos anos até serem apresentados ao público, em 1946, quando Rosa já beirava os 40 anos.

Eu conheci esse livro muito tarde.

Não tive maturidade para lê-lo de verdade quando estudava para os vestibulares. Só fui aproveitar mesmo quando já estava avançado no curso de História da FFLCH. Pelas mãos do professor Marcos Silva, li dois contos do Sagarana: o preferido da crítica e do autor – “A hora e vez de Augusto Matraga” – e aquele que, em minha opinião (opinião de quem simplesmente gosta, sem maiores estudos), é um dos textos mais belos, inspirados e desconcertantes que já li: “Conversa de bois”. Gosto tanto que meus sogros me deram de presente uma versão do carro de bois do conto esculpida em madeira por um artesão do cerrado mineiro.

No embalo, li o livro todo e, depois, fui para o Grande sertão: veredas, que reli anos depois, quando um colega do curso de Direito, também da USP, me soprou: “No julgamento do Zé Bebelo tem todas as correntes jurídicas representadas, olha lá!!!”. Olhei, e redescobri o livro. Recentemente, comecei a ler de novo essa obra por conta de uma viagem que fiz com dois camaradas pelo norte de Minas Gerais, justamente para ver de perto o sertão rosiano. Leio, releio e o livro nunca termina de dizer o que tem para dizer, para lembrar a imagem de Ítalo Calvino sobre os clássicos.

Claro que a paisagem daquele sertão não é mais a mesma e claro que um grande escritor não é um mero bom redator de descrições. O próprio Rosa disse divertir-se quando lhe chamavam “regionalista” por descrever com beleza o pôr do sol sertanejo quando sua inspiração viajava por muitas outras terras. Na carta que escreveu ao editor da primeira edição de Sagarana disse que as histórias ali narradas poderiam se ambientar em qualquer lugar, embora ele tenha preferido que seus personagens estivessem no sertão e falassem sua língua:

“Porque tinha muitas saudades de lá. Porque conhecia um pouco melhor a terra, a gente, bichos, árvores. Porque o povo do interior – sem convenções, ‘poses’ – dá melhores personagens de parábolas: lá se veem bem as reações humanas e a ação do destino: lá se vê bem um rio cair na cachoeira ou contornar a montanha, e as grandes árvores estalarem sob o raio, e cada talo do capim humano rebrotar com a chuva ou se estorricar com a seca”, escreveu.

Na viagem, eu queria me deslumbrar um pouco imaginando como um escritor tirou poesia daquilo que a maioria de nós deixa passar despercebidamente. Um pouco de permissão à ingenuidade, recomendada nesse caso. Saímos de Cordisburgo, cidadezinha onde Rosa nasceu, e fomos até Januária, antiga “princesa do norte”, cobiçada e atacada por exércitos de jagunços. Fizemos contato com aquele Brasil, mudado, mas ainda o mesmo que inspirou a história do menino Tiãozinho, guia do carro de bois que carregava o cadáver de seu pai, sob o comando do cruel Agenor Soronho, enquanto os oito bois expressam, na sua “conversa”, a fragilidade da arrogância humana, o peso do inexorável, a força da ação do destino.

Mas uma das histórias mais interessantes de Sagarana não está no livro. Em seu enredo há um escritor que nunca havia publicado e o juízo duro de um consagrado mestre.

Rosa concluiu uma primeira versão da obra em 1938. Com o pseudômino “Viator”, a inscreveu em um concurso literário com um título simples: Contos. Tratava-se de uma versão bem diferente da que foi publicada oito anos mais tarde, em 1946, mas já trazia aspectos que o tornariam inconfundível. Na composição do júri do concurso estava ninguém menos que Graciliano Ramos, já o autor consagrado de São Bernardo, Angústia e Vidas secas, que viria a público naquele mesmo ano.

No final, Graciliano votou contra a vitória dos textos de Rosa, que ficou com um segundo lugar. Rosa nunca disse que foi por isso, mas deixou passar mais oito anos antes de publicar uma versão reescrita, já com o título de Sagarana.

Graciliano, que não conhecia a identidade de Viator, escreveu mais tarde que passou muito tempo procurando aquele autor. “Eu desejava sinceramente vê-lo crescer, talvez convencer-me de que me havia enganado preterindo-o. Afinal os julgamentos são precários – e naquele tínhamos vacilado. Eu, pelo menos, vacilara”, confessou.

Quando, enfim, em 1944, dois dos maiores escritores da literatura brasileira do século XX encontraram-se pessoalmente, o tema foi aquele concurso. Naquele momento, Graciliano já era Graciliano, mas Rosa ainda não era Rosa.

O diálogo, somado a alguns comentários elogiosos ao que seria o primeiro livro de Rosa, nos foi transmitido numa crônica de Graciliano publicada posteriormente em Linhas tortas:

“– O senhor figurou num júri que julgou um livro meu em 1938.
– Como era o seu pseudônimo?
– Viator.
– Ah! O senhor é o médico mineiro que andei procurando.
[…]

– Sabe que votei contra o seu livro?
– Sei, respondeu-me sem nenhum ressentimento.
Achando-me diante de uma inteligência livre de mesquinhez, estendi-me sobre os defeitos que guardara na memória. Rosa concordou comigo. Havia suprimido os contos mais fracos. E emendara os restantes, vagaroso, alheio aos futuros leitores e à crítica.
[…]

Esse doloroso interesse de surpreender a realidade nos mais leves pormenores induz o autor a certa dissipação naturalista – movimentar, por exemplo, uma boiada com vinte adjetivos mais ou menos desconhecidos do leitor, alargar-se talvez um pouco nas descrições. Se isto é defeito, confesso que o defeito me agrada.
A arte de Rosa é terrivelmente difícil. Esse antimodernista repele o improviso. Com imenso esforço escolhe palavras simples e nos dá impressão de vida numa nesga de caatinga, num gesto de caboclo, uma conversa cheia de provérbios matutos. O seu diálogo é rebuscadamente natural: desdenha o recurso ingênuo de cortar ssll e rr finais, deturpar flexões, e aproximar-se, tanto quanto possível, da língua do interior”.

Graciliano finalizou seu texto com uma afirmação que se revelou profética: “Certamente ele fará um romance, romance que não lerei, pois, se for começado agora, estará pronto em 1956, quando os meus ossos começarem a esfarelar-se”.

Falecido em 1953, Graciliano não conheceu Rosa na plenitude do Corpo de baile e do Grande sertão: veredas, publicados exatamente em 1956.

“Graças a Deus, tudo é mistério.”

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