Por um memorial às vítimas brasileiras da covid-19

Por Adriano Sebollela, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP

 11/08/2021 - Publicado há 4 meses
Adriano Sebollela – Foto: Arquivo pessoal
Nos últimos 20 anos, quase tudo que escrevi foram textos científicos. Hoje, entretanto, compartilho uma reflexão pessoal, motivado pelo emocionante relato do professor José Ernesto dos Santos, “A vida é bela”, publicado no Jornal da USP em 3 de junho. Nele, o professor Santos (74) descreve experiências únicas de como sua mente lidou com os muitos dias de internação em CTI para tratamento de covid-19. E, mais tocante ainda, exalta como recuperou a alegria de viver ao retomar sua rotina – as conversas com a esposa, os encontros com os netos e filhos.

Uma questão delicada surgiu para mim dessa leitura: será possível para os parentes dos que passaram por drama semelhante, mas que não tiveram a alegria de retomar a rotina com seu ente querido, afirmar tão convictamente que “a vida é bela”? E, como sabemos bem, infelizmente esse grupo de enlutados não é pequeno: no Brasil, cerca de 80% dos pacientes intubados por complicações da covid-19 em 2020 morreram. Um desses casos com desfecho fatal ocorreu na minha família, em maio desse ano, após mais de 30 dias de internação em CTI.

Alguém pode retrucar: mas a vida é assim mesmo… enquanto uns sobrevivem a desastres aéreos, outros partem por um “menosprezado” ataque de artrópode… Mas analisemos o caso do meu familiar com mais atenção – certamente similar ao de milhares de pacientes de covid-19 no Brasil: uma mulher de 72 anos, portanto abaixo da expectativa de vida para o gênero no Brasil em 2019, de 80 anos; sem doenças de base; e que foi admitida em hospital apenas quando já apresentava saturação de oxigênio abaixo de 90%, comprometimento pulmonar maior que 50% e marcadores inflamatórios elevados. A internação ocorreu em hospital distante 50 km de sua residência, único com vaga em CTI disponível naquele momento – mesmo morando no centro do Rio de Janeiro, onde a densidade de hospitais de alta complexidade é alta. Lá, dividiu a estrutura e atenção da equipe com outros 39 pacientes graves, todos com covid-19.

Zelando pela minha saúde mental, evito tentar estimar as chances de que o desfecho do caso desse familiar tivesse sido diferente se não vivêssemos a pressão sobre o sistema de saúde dos últimos 14 meses. Mas é evidente que essa demanda gigante e concentrada por cuidados intensivos impactou negativamente na assistência prestada a ela, e aos outros pacientes graves em CTIs. Basta considerarmos a alarmante incidência de infecções hospitalares graves por bactérias e fungos multirresistentes nos pacientes graves de covid-19, que acabam determinando o desfecho desses casos. Enfim, terminamos enlutados, mas com o insistente sentimento de que não precisava ter sido assim. Aqui me solidarizo – de verdade – com a dor dos milhões de enlutados Brasil afora, que entendem exatamente o sentimento que descrevo.

O que me motiva a escrever esse texto é o desejo de contribuir de alguma forma para que essa tragédia humanitária brasileira vivida na pele e na alma por nossa geração não se torne uma distante lembrança desagradável no futuro próximo. Devemos, certamente, celebrar muito a recuperação dos que sobreviveram às formas graves de covid-19. Mas, mergulhados na forte emoção dessa celebração, não podemos permitir que centenas de milhares de perdas humanas virem apenas registro histórico de interesse epidemiológico quando a vida voltar ao normal e a sociedade estiver se deleitando com o retorno da vida social, com a economia aquecida.

E a USP é o lugar certo para reverberar esse desejo. Desde o começo da pandemia, nossa Universidade tem dedicado sua força de trabalho ao interesse maior de nossa (ou de qualquer) sociedade: cuidar de vidas humanas. A despeito, é verdade, de uma ou outra voz dissonante que insiste em tentar emprestar base técnica a um discurso fadado a encabeçar a lista das maiores atrocidades coletivas já cometidas na história deste país. Mas a voz da instituição, essa não tem deixado dúvidas: seja na divulgação de informação qualificada, seja produzindo conhecimento novo relevante e avanços tecnológicos, ou ainda se remodelando com impressionante rapidez para proporcionar ensino de qualidade a distância para dezenas de milhares de estudantes na segurança de seus lares. Salvamos muitas vidas com essas medidas, e tenho mais do que nunca orgulho de ser parte da USP.

Por isso lanço aqui, no Jornal da USP, meu pedido-apelo: no dia 24 de junho, Jurema Werneck (diretora da Anistia Internacional-Brasil), em depoimento à CPI da Pandemia no Senado Federal, propôs a criação de um memorial em homenagem às vítimas da covid-19 no Brasil. Para – em adição a prestar nossas homenagens eternas às vítimas dessa pandemia – não deixarmos dúvidas para as gerações futuras sobre o que de fato ocorreu no Brasil em 2020-2021. Conclamo a comunidade uspiana a apoiar essa inciativa – e que belo não seria ver esse memorial erguido no Campus Butantã! Como parente de vítima dessa pandemia, eu visitaria periodicamente esse memorial, e nele depositaria belas flores em homenagem a quem minha família perdeu, e a tantas outras vítimas (algumas delas colegas da Universidade que morreram trabalhando no combate à pandemia). Se os norte-americanos construíram em Nova York um memorial gigante para as cerca das três mil vítimas do atentado terrorista ao World Trade Center em 2001, quão imponente não deveria ser nosso memorial dedicado às mais de 500 mil vítimas fatais da covid-19 no Brasil?

Não sei se a construção de um memorial ajudaria os enlutados – como eu e minha família – a reencontrar a beleza da vida, como no emocionante caso do professor Santos. Mas isso talvez nos faça ao menos acreditar que as cicatrizes deixadas por essa tragédia não ficarão restritas aos que perderam alguém muito querido. Que ficarão, como deve ser, eternizadas nos corações e mentes de todos nós – inclusive daqueles que, de forma ainda incompreensível para mim, rejeitam a adoção de medidas comportamentais simples que poderiam ter salvado centenas de milhares de vidas. Nossa dor precisa ser dividida com toda a sociedade brasileira.


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