Meu querido amigo… ou uma história do livro no tempo da delicadeza

Marisa Midori Deaecto é professora de História do Livro na USP e doutora Honoris Causa da Universidade Eszterházy Károly – Hungria

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Marisa Midori Deaecto – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Um livro raro tem personalidade. Uma obra, sua história.

Rubens Borba de Moraes

 

As relações movidas por livros inspiraram artistas de diferentes épocas e expressões. Do desaforado “devolva o Neruda que você levou/ e nunca leu” ao dramático “Por que o meu coração dispara/Quando sinto o teu cheiro/ dentro de um livro/ Na cinza das horas”, a imagem de volumes antigos (e novos) vai se decantando na memória ao ponto de emaranhar todos os sentidos.

Não são menos marcantes as passagens literárias. Lembremos as situações em que personagens célebres se perdem e se encontram nas bibliotecas: o jovem e sua Fraulein, de Amar, Verbo Intransitivo; a intrigante Mathilde, que perfila furtivamente os dedos sobre os volumes de Voltaire; a carta perdida em um volume de A Rama Dourada, reveladora das primeiras pistas de um irmão alemão…

Mas essas passagens podem ultrapassar a fronteira da ficção e compor experiências vividas por cada um de nós, com maior ou menor intensidade.

A epistolografia, sem dúvida, deixou capítulos preciosos sobre essas vivências. Nesse universo particular em que o valor material do livro se articula com sua aura cultural, os volumes se tornam protagonistas de uma trama intrincada de títulos raros, viagens demoradas, pacotes perdidos, demandas reprimidas, desejos ocultos… Quem um dia não se deixou encantar por 84 Charing Croos Road (1970), em que acompanhamos a correspondência da escritora norte-americana Helene Hanff com o livreiro londrino Frank Doel, da Marks and Co.? O filme, inspirado no livro, difundiu-se no Brasil sob o título sugestivo de Nunca te Vi, Sempre te Amei e acaba de ser evocado por Plinio Martins Filho, organizador e editor do belíssimo Cartas de Rubens Borba de Moraes ao Livreiro António Tavares de Carvalho (Publicações BBM, 2018, 544 p.). A edição apresenta ilustrações de raridades garimpadas pelo livreiro e adquiridas pelo colecionador. E, ao final, uma excelente seção de índices remissivos, organizada pelo bibliófilo Luís Pio Pedro, que assina a quarta capa.

Tanto mar…

Não sei se sabe que o correio brasileiro é, incontestavelmente, o pior do mundo. Para fazer a entrega de um pacote vindo de Portugal, leva uns dois meses! É mais ou menos o tempo que levava uma carta de Lisboa ao Rio de Janeiro no tempo de Pombal! (rbm, 27/3/61)

O redator das missivas é apresentado nesse volume de forma muito econômica. Aprendemos se tratar de um escritor espirituoso, que tinha “horror a frases sonoras e termos empolados”. Já a natureza do bibliófilo dispensa adjetivos. Basta a informação de que a troca de cartas coincide “com o período em que Rubens Borba de Moraes, tendo regressado ao Brasil depois de se aposentar da Organização das Nações Unidas, procede à depuração de sua biblioteca e divulga os resultados de toda uma vida dedicada aos livros” (p. 1). No mais, uma produção bibliográfica bem sucinta é apresentada em nota de rodapé.

Imaginamos que o nome de António Tavares de Carvalho circulou amiudemente em tertúlias regadas a bom vinho, pratos apetitosos e livros raros a perder de vista. Alguns, caprichosamente adquiridos junto ao livreiro de Lisboa, outros apenas cobiçados nesse oceano de escritos que separa colecionadores d’aquém e d’além-mar. E embora os vinhos e os pratos estejam apenas registrados na imaginação dessa leitora, as referências a belos e raros volumes contidas nas cartas, por si só, “fazem sonhar”. A certa altura, sabemos que Tavares de Carvalho se instalou na Calçada do Combro. Um “sinal de prosperidade”, escreverá, com humor, Rubens Borba (8/1/69).

Se o leitor avançar do paratexto ao texto e mergulhar vagarosamente na prosa saborosa de nosso missivista, logo notará que está tudo ali. Os amigos e os livros. E todo o circuito da bibliofilia, com seus códigos e seus personagens, por vezes tão raros quanto os livros.

Aprendemos, no final da viagem, que a arte de colecionar livros impõe muita perseverança. É preciso vencer as crises econômicas, as súbitas altas da inflação, as oscilações do câmbio, a excessiva burocratização da alfândega, as demandas reprimidas, o concurso dos leilões, os azares da sorte… e, sobretudo, os solavancos de uma longa travessia mar afora. O autor fala sobre livros perdidos no mar – “durante a guerra perdi um Barleus num navio torpedeado” –, maltratados durante a travessia atlântica, ou, ainda, castigados pelos profissionais dos correios.

Mas, na fatura geral das encomendas que de Lisboa seguiram para São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Bragança Paulista (ou vice-versa), quando havia pouco espaço para encontros reais, nesse tanto de mar atravessado foram raros os naufrágios e muitos os saldos acumulados. Assim, o mar que separou dois amigos foi o mesmo mar que recompôs, página após página, os livros colecionados e a escrita de uma vida. Ou uma história que se escreveu acima das agruras do tempo.

No tempo da delicadeza

Prezado Senhor,

Meu amigo, o Sr. Gropp, recentemente chegado de uma viagem a Portugal, indicou-me seu nome como pessoa interessada em procurar livros raros para colecionadores e deu-me uma relação de obras que V.S. deseja vender … (27/3/61)

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Sei perfeitamente que sem sua cooperação eu não teria enriquecido minha coleção de autores brasileiros antigos ao ponto de ser hoje a melhor do Brasil” (18/4/65)

 

Os primeiros volumes foram encomendados já na primeira missiva, de 27 de março de 1961, quando também são enunciadas as premissas de uma coleção que se define (ou, depura-se): “minha biblioteca compõe-se exclusivamente de livros e folhetos sobre o Brasil e de obras de autores brasileiros em primeiras edições. Embora bastante rica, falta-me muita coisa e estou sempre procurando e comprando, por isso, ficar-lhe-ia grato se me oferecesse o que tem a venda” (p.11).

Na medida em que o autor adquire novos títulos e depura sua biblioteca, uma produção bibliográfica se avoluma, correspondendo aos trabalhos e aos dias de um “colecionador aposentado e rentista”. Para conhecer um pouco mais do teor das cartas e de seus escritos, selecionamos algumas passagens, as quais dão conta dessa relação sempre tão delicada e profícua que o autor estabeleceu entre a história do livro e a formação de sua biblioteca.

“Pois eu sou de fato o autor da Bibliografia Brasiliana!”, esclarece, em 13 de maio de 1961.

Enquanto isso, “a minha Bibliografia está praticamente parada, pois não existem no Brasil os livros que preciso descrever para terminá-la” (23/6/1964). A Bibliografia Colonial Brasileira será concluída em 1969. O Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP se incumbiu da publicação, com o apoio de Sérgio Buarque de Holanda e de seu filho. “O Chico Buarque é ídolo e tudo que faz sai em jornais. Já anunciaram a doação da impressão de meu livro!” (28/1/69). A revisão foi realizada a distância, pois nessa época Rubens Borba atuava como docente na jovem Universidade de Brasília (UnB).

No entretempo, ele está “ocupadíssimo preparando o 1o volume da Coleção Roteiro do Brasil […] para a Companhia Editora Nacional” (18/3/1964). O que não o impede de seguir na redação Bibliófilo Aprendiz: “Mandei-lhe ontem pelo correio o meu livro que acaba de sair […] Espero que chegue logo e que não se perca em nosso correio” (10/11/65). A edição estará “esgotadíssima” em janeiro de 68. Vale ressaltar que nesse livro Rubens Borba condensa as experiências adquiridas como bibliotecário, bibliógrafo e bibliófilo. É notável coincidência entre as preocupações descritas no livro com passagens relatadas nas cartas, o que não parece de modo algum por força do acaso.

Data de 1973 uma nova referência: “Tem graça o ter encontrado em Lisboa um folheto meu: Problema das Bibliotecas Brasileiras” (p. 407).

Em 1983 ele anuncia um novo livro, uma nova parceria e um grande projeto: “Estou terminando (com a colaboração da Ana Maria de Almeida Camargo, que você conheceu aí) a Bibliografia da Impressão Régia do Rio de Janeiro. Quero ver se poderá ser publicada este ano. Será a primeira publicação da Biblioteca José Mindlin – Centro Internacional de Estudos Bibliográficos Luso-brasileiros”. O dr. José Mindlin, bibliófilo e amigo, assumiu a façanha de reunir duas grandes bibliotecas em uma só casa. Sua presença é constante nessas Cartas.

Ao final do percurso, colecionamos muitos dos sonhos que sonhou o missivista. E sentimos saudades do homem de carne e osso que jamais conhecemos. Cartas de Rubens Borba de Moraes ao Livreiro Português António Tavares de Carvalho é leitura obrigatória para os profissionais do livro e para todos os amantes de belas edições. Como ele escreve a certa altura: “Tenho sonhado com esses volumezinhos… e resolvi não resistir à tentação” (30/8/66).

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