Brasil 75/25: É fundamental otimizar processos

Por Luiz Jurandir Simões de Araujo, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP

Luiz J. Simões de Araujo – Foto: Arquivo pessoal
O que é o Brasil 75/25? Nossos séculos de desigualdades criam dois Brasis: o dos 25% e o dos 75%. No Brasil 25, moramos em Ipanema, Ibirapuera, Alphaville, Aldeota, Asa Norte e tantos outros. Temos conta corrente. Temos cartão de crédito. A maioria tem ensino superior. Alguns tem até doutorado. Alguns tem casa na praia ou sítio. Outros em Miami. Carro. Seguro. Aposentadoria (até integral). Convênio médico individual ou corporativo. Registro em carteira ou funcionário público concursado. Não são todas as pessoas desses 25% que têm, necessariamente, essa lista inteira de conquistas ou benefícios, mas estão em famílias que têm, ou têm todas as condições iniciais para tê-la. Ou seja, podem estar apertados ou trabalharem muito para manter essa realidade, mas “estão bem”.

O Brasil 75 não tem saneamento básico, nem conta corrente. Muitos não acabaram o ensino médio. Plano de saúde? Pouco provável. Várias paredes de suas casas não têm reboco. Se fazem faculdade, ralam para pagar curso superior privado. Moram longe e dependem de transporte público lotado. Alguns até têm parentes com conta corrente ou cartão de crédito para emprestar. Até têm casa própria ou algum puxadinho. Na essência, ralam muito e recebem pouco em troca, distante da proporção justa de impostos pagos versus investimentos públicos usufruídos.

Há várias décadas, foi cunhado o termo Belíndia. O Brasil é um mix de Bélgica com Índia. Prefiro classificá-lo de Brasil 75/25 para deixar clara nossa divisão. Não usarei classe A, B, C, D ou E, A++ ou C-. Usarei sempre esses dois Brasis: o que atingiu a urbanidade civilizatória razoavelmente confortável e os que estão largados à própria sorte. Como os mecanismos e as instituições priorizam os 25%, não sobra muito para os 75% (mesmo o Brasil sendo um país rico, com carga tributária altíssima).

Durante o século 21, tivemos uma intoxicação alimentar: anões do orçamento, mensalão, petrolão, bilhões gastos inutilmente (Copa, Olimpíada), destruição, balas perdidas, crianças e mulheres grávidas levando bala na cabeça, negros sendo tratados como escravos do século 18, feminicídios, assassinatos anuais equivalentes a países em guerra civil etc. Muitos eteceteras. Repugnantes eteceteras. Toda essa intoxicação gerou disenterias nacionais que ocuparam o poder durante todo o século 21. Vinte e um anos de intoxicação para expurgar 500 anos de iniquidade.

Após a covid ficou claro e óbvio: é a hora dos 25 se unirem ao 75 e construírem, com as nossas próprias mãos, o Brasil 100. Temos muito a fazer. Décadas de atraso, dor e sofrimento. Milhares de mães que tiveram filhos mortos por balas perdidas, ou por desnecessária covid, ou por desabamento de morros nos períodos de chuva ou etc. etc. etc. Incompetência, falta de planejamento de longo prazo, gestões toscas.

Só há um caminho e uma resposta: atitudes e gestos que gerem resultados concretos. Planos bem elaborados, clareza, transparência, inteligência, gestão e profissionalismo.

Gestão focada em resultado. Precisamos resolver centenas (talvez milhares) de problemas simples que sequestram nosso tempo e nos deixam ineficientes, injustos, cruéis. Ou aumentamos a produtividade da economia brasileira, em particular nos municípios e estados, ou continuaremos sendo o país de um futuro que nunca chega. O eterno atraso gerou a disenteria em que estamos mergulhados.

Anualmente, vários funcionários de empresas de limpeza pública capinam a sarjeta. Nas brechas que surgem, acaba brotando vegetação rasteira. Capinadas várias vezes ao ano. Uma simples retirada do substrato que sustenta a vegetação e um simples e óbvio rejunte economizaria milhões de reais ao ano para investir em outras necessidades tão urgentes. Mas os gestores públicos pensam em otimização de processos? Pensam em resultados?

Enquanto não abraçarmos a preocupação diária de eficiência e produtividade, esqueçamos o sonho de país do futuro. Enquanto todas as pessoas não tiverem acesso às dignidades da vida moderna, teremos muitos textos e blablablás (como este artigo).

Pessoas que lutam diariamente para sobreviver. Que constroem suas vidas batendo laje, erguendo paredes, assentando tijolos, fazendo a própria casa. Enquanto isso, nós desperdiçamos dinheiro público com processos toscos, primitivos, mal-ajambrados. Provavelmente, várias dessas pessoas não terminaram o ensino médio. Homens e mulheres que poderiam ser engenheiros civis, poderiam ser arquitetos, artistas, enfermeiros. Com garra suficiente para ser o que quisessem.

Mas basta querer? Não! As estruturas precisam funcionar com eficiência. Precisamos gastar bem. Precisamos investir. Os prefeitos, secretários, governadores precisam melhorar seus processos. Vocês têm lição de casa: otimizar processos.

Processos otimizados economizarão milhões, que poderão ser investidos nas pessoas do Brasil 75.

Só assim o Brasil 25 se unirá, sem ódio, ao Brasil 75. O Brasil 75 construiu todos os prédios que moramos, assa o pão que comemos. Mas não tem o conforto que merece. Paga muitos impostos e recebe pouco em troca.

O Brasil 25 soube construir. Construiu iniquidade estrutural.

Portanto, governadores, prefeitos, secretários, reitores, funcionários públicos otimizem seus processos. Simples assim. Precisamos enfrentar nossas ineficiências. E apostar em pessoas que são a prova viva da música: “Maria, Maria, tem força, tem raça, tem gana sempre, mistura a dor e a alegria”.

Prefeitos, secretários, governadores, tenham gana, tenham raça, saibam misturar eficiência e equidade. Se falarem que otimizar processos é difícil, perdoem-me, isso é balela. Só com resultados concretos o povo brasileiro voltará a ter “a estranha mania de ter fé na vida”.

(Este é o primeiro de uma série de artigos sobre o Brasil 75/25, que tratarão de problemas estruturais do Brasil, sempre seguidos de propostas diretas e objetivas.)


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