A greve no transporte e os impactos no agronegócio

Marcos Fava Neves é professor titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP e da FGV-São Paulo

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Foto: Francisco Emolo/USP Imagens
Os últimos 30 dias foram de grandes impactos do macroambiente no agronegócio. Os problemas principais trouxeram como consequência a deterioração de boa parte dos indicadores econômicos. O Relatório Focus do Banco Central derrubou a expectativa de crescimento de 2,18% para 1,94% e a de 2019 recuou de 3,0% para 2,8%. A expectativa da inflação também subiu de 3,65% para 3,82% e em 2019 de 4,00% para 4,07%. Ressalto que aqui ainda temos um número a ser comemorado. Para as taxas de juros, ficam estáveis em 6,5% para o final deste ano e 8,0% para o final do ano que vem. Finalmente o câmbio, cuja expectativa no início do ano era de algo próximo a R$ 3,30/dólar em dezembro e agora passou para R$ 3,50/dólar, ainda abaixo da cotação de hoje.

Convivemos também com dias de grande instabilidade na taxa de câmbio com o US$ chegando a valer próximo de 4 reais, e a Bolsa de Valores também perdeu diversos US$ bilhões, com a expectativa de aumento de juros nos EUA para conter um pouco a aceleração econômica e a situação interna. Para as cadeias nitidamente exportadoras, esta desvalorização tem o fator positivo de trazer melhores preços em reais, mas para as de mercado interno, o impacto acaba sendo mais negativo, pois encarecem-se os insumos precificados em dólar e temos um mercado interno com pouca reação, não permitindo aumentos de preços. O cenário interno político é bem complexo ainda, com a falta de uma candidatura de centro e de consenso que possa começar a crescer com mais vigor e se cacifar para o segundo turno, com chances de vitória. Mas ainda tenho esperanças que isto deve acontecer, após a Copa do Mundo, com o fortalecimento das alianças eleitorais e, em caso de vitória deste cenário, arrisco um dólar de R$ 3,45 em dezembro.

Nossa agenda de reformas que possam aumentar a competitividade praticamente parou, mesmo com a manutenção das estruturas e do pagamento dos salários aos responsáveis por estas. Estamos vendo os EUA com políticas agressivas de redução de impostos incidentes no lucro e em outras atividades das empresas, que vem sendo seguidas por outros países e outras coisas acontecendo no mundo, e pouco se escuta de mudanças no Brasil, de concessões e outros. Ainda temos seis meses neste ano, que não podem ser desperdiçados, senão se aprofunda mais ainda o fosso da competitividade.

No agro, refletindo os impactos da seca, a nona estimativa da Conab traz produção esperada de 229,7 milhões de toneladas de grãos (3,4% menor que a safra anterior) em 61,6 milhões de hectares, área 1,1% maior que a safra anterior. Algodão vem bem com maior área (25,2%) e produtividade (2,1%). Segunda safra de milho deve cair 13,6% em relação à safra passada e 7,5% em relação à estimativa anterior, como previ aqui no mês passado. Quase 13 milhões de toneladas de milho a menos que a safra anterior. Para a soja são esperadas 118 milhões de toneladas. Trigo com crescimento de 4% na área e de quase 10% na produtividade, com produção de 4,9 milhões de toneladas.

Talvez a primeira boa notícia do texto venha das surpreendentes exportações do agro em maio, que, mesmo com a greve paralisando o Porto de Santos em mais de uma semana, foi de praticamente US$ 10 bilhões (3% acima de maio de 2017) e retirando-se as importações de US$ 1,1 bilhão, ficou um superávit 4,7% maior, de US$ 8,9 bilhões. A soja foi o destaque, com quase 23% acima do mesmo mês de 2017, algo próximo a US$ 5,8 bilhões. Na sequência vem outro excelente resultado dos produtos florestais, com quase 15% de crescimento (US$ 1,1 bilhão no mês). O tombo maior foi nas carnes, que perderam mais de US$ 1,1 bilhão, um recuo de quase 10%. Houve grande tombo também em açúcar e etanol (36,4%) e café (42,3%). Fechamos os primeiros cinco meses 3,8% acima de 2017, vendendo US$ 40,3 bilhões. Importamos 2,4% a menos (US$ 4,91 bilhões), o que dá um saldo de US$ 34,5 bilhões (4,8% maior). Ou seja, as exportações vêm se comportando muito bem e devem ser mais impulsionadas com a nova situação cambial, assim que o frete se normalizar.

As vendas para a China em maio cresceram 28,1%, para quase US$ 4,5 bilhões. A China já representa 45,5% das compras deste ano. Temos que observar com muito cuidado a situação comercial EUA x China, que dependendo do rumo que tomar trará impactos distintos para cada cadeia produtiva do agro brasileiro. Aparentemente podem ser atingidos primeiramente a soja e o milho dos EUA, que levou os preços do grão abaixo de 9 dólares por bushel na bolsa de Chicago e a mais de R$ 82/saca em Paranaguá. Vale destacar que a China é o maior parceiro comercial do Brasil e no primeiro quadrimestre vendemos US$ 17,5 bilhões, e com superávit de US$ 7,5 bilhões para o nosso lado.

Talvez a primeira boa notícia do texto venha das surpreendentes exportações do agro em maio, que mesmo com a greve paralisando o Porto de Santos em mais de uma semana, foi de praticamente US$ 10 bilhões (3% acima de maio de 2017).

Em relação a preços internacionais, tivemos surpresas interessantes. O índice mundial dos preços das commodities alimentares (índice da FAO) alcançou 176,2 pontos, praticamente 2,2% acima do mês passado. Cereais subiram um pouco (2,4%) e os lácteos 5,5%. Óleos vegetais caíram 2,6% e carnes e açúcar tiveram ligeiras quedas, de 0,5% respectivamente, portanto preços melhores ao agro. Em reais então, razoavelmente melhores que maio do ano passado. Foi anunciado o Plano Safra, que contará com R$ 191,1 bilhões em crédito rural, 1,5% acima do valor da safra anterior. As taxas de juros serão 1,5% menores, o que desagradou parte do agro.

Completou o quadro de maio a greve dos caminhoneiros, que assustou o País. Fragilizado, o governo e as organizações públicas demoraram para reagir e um grande estrago foi feito no agronegócio, principalmente nos produtos de cadeias extremamente integradas e com pouca chance de estocagem. Para alguns, foi o golpe de misericórdia.

Uma greve onde não há vencedores, que surge por um desequilíbrio entre a oferta e demanda por fretes, geradora de preços realmente baixos que não permitem o equilíbrio econômico do caminhoneiro. É fruto de excesso de oferta, por grande volume de venda de caminhões em programas de incentivo no passado recente, maior oferta de motoristas, que viram na atividade uma alternativa ao desemprego, menor volume de cargas devido à grande recessão que vivemos, com queda próxima de 8% da atividade econômica em 2015/16 e os preços do petróleo, que pularam em pouco tempo de 45 para 70 dólares o barril, fora a questão da qualidade das rodovias, insegurança e roubos de cargas, entre outras, que fazem dos caminhoneiros uma classe que merece respeito e atenção. Tudo isso agrupado levou a uma situação insustentável, que no curto prazo merecia corte de impostos no diesel, com a contrapartida de cortes de despesas e estruturas estatais, que não aconteceram, afinal não é de se esperar que a formiga corte seu açúcar.

Mas deveríamos passar longe de tabelamento de preços, que é um grande retrocesso, um flerte com a obsolescência afetando a livre concorrência. Os custos de frete pela tabela podem subir de 20 a 95%, até inviabilizando atividades. Arrisco dizer que assim que uma tabela aparecer, em um mês as forças de mercado a abalarão. Quem garante que caminhoneiros independentes seguirão uma tabela de preços? Há mais de 1 milhão de transportadoras no Brasil e 95% delas têm menos de cinco caminhões. Fora isto, um tabelamento pode levar ao risco de investimentos em verticalização das atividades, com os produtores e industriais internalizando a função de transporte, o que “em tempos de Uber” seria mais uma grande ineficiência, mas uma decisão racional caso as margens permitam. Nesta discussão toda, não podemos menosprezar o avanço da tecnologia e nos questionar se em 20 anos a função de condutor de caminhões ainda vai existir. São estimados R$ 16 bilhões em perdas com a greve dos caminhoneiros… Calcule o que poderia ser feito com R$ 16 bilhões. E boa parte disto veio do agronegócio.

São estimados R$ 16 bilhões em perdas com a greve dos caminhoneiros… Calcule o que poderia ser feito com R$ 16 bilhões. E boa parte disto veio do agronegócio.

Porém, esta greve que começou com grande apoio, depois descambou para outras aberrações como a exploração política oportunista, pedidos pelo fim da democracia e terminou de forma lamentável e quase criminosa, com caminhoneiros praticamente sequestrados em pontos das rodovias, serviu para nos mostrar muita coisa de médio e longo prazos. É fato que a excessiva dependência do transporte via caminhões mostra-se um problema de segurança nacional, pois, dos grandes países, somos o que tem a maior dependência (65% da carga). Portanto devemos retomar com força os projetos de ferrovias e hidrovias, com investimentos internacionais e novas concessões. Cabe também ao Estado avaliar os danos, punir os que cometeram ilegalidades, afinal em tempos de WhatsApp não faltam imagens, textos e gravações e estar mais preparado no futuro para evitar que pequenos grupos possam interromper o funcionamento de equipamentos públicos como o Porto de Santos e não usar da violência para retirar, mas os responsabilizar pelos danos econômicos causados.

São estimados R$ 16 bilhões em perdas com a greve dos caminhoneiros… Calcule o que poderia ser feito com R$ 16 bilhões. E boa parte disto veio do agronegócio. Estes são os danos econômicos… sem dizer dos danos morais que sofremos com o cerceamento do nosso direito constitucional de ir e vir. Termino este texto impactado com a manchete da Folha de S. Paulo deste domingo, dizendo que 62% dos nossos jovens gostariam de deixar o Brasil. Isto é sinal inconteste do nosso fracasso como organização social coletiva, mostrando que precisamos começar novamente. Espero voltar mês que vem com melhores notícias.

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