Creche da USP vence Prêmio Arte na Escola Cidadã

Projeto de professora da Creche Central ganhou na categoria Educação Infantil

Por - Editorias: Universidade
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Foto: Reprodução/Prêmio Arte na Escola Cidadã
Projeto apresentou para as crianças a cultura indígena e africana – Foto: Reprodução/Prêmio Arte na Escola Cidadã

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Janeide de Sousa Silva nunca fez planos para ser professora. Em 2016, entretanto, mais de uma década e meia depois de ter prestado concurso e entrado na Creche Central da USP, a carreira não planejada foi premiada: o projeto “Diversidade Étnica: brincadeiras, jogos, danças e histórias”, coordenado por Janeide, venceu concorrentes de todos os cantos do País no
Prêmio Arte na Escola Cidadã, categoria Educação Infantil.

O prêmio — que ela faz questão de frisar, é “fruto do trabalho de muitos” — rendeu R$ 10.000,00, equipamentos para a creche, livros, materiais de arte e um documentário sobre as atividades. O projeto, que ocorreu durante o segundo semestre de 2015, foi o trabalho de fechamento de ciclo de um grupo de crianças da Creche Central que, prestes a completar seis anos, deixariam a educação infantil para trás.

Janeide decidiu juntar o tema de estudo escolhido pelas crianças — as brincadeiras — com questões pouco discutidas nas escolas, mas sobre as quais ela possui vasto conhecimento, com cursos de aperfeiçoamento e envolvimento com projetos externos: a história e a cultura africana e afro-brasileira. Além disso, o “Diversidade Étnica” também tocou na questão indígena, em parceria com membros da tribo kariri-xocó. Além de uma motivação pessoal, o projeto de Janeide também está em consonância com a Lei 11.645, que versa sobre a obrigatoriedade da inserção desse tipo de conteúdo a partir do ensino fundamental.

Para Janeide, um dos grandes méritos da ação é não ter sido sistematizada e planejada do início ao fim, mas uma “construção coletiva”, que envolveu familiares de alunos e deu voz e protagonismo às crianças.
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Janeide de Souza Silva - Foto: Rafael Oliveira/Jornal da USP
Janeide de Souza Silva na horta da Creche Central – Foto: Rafael Oliveira/Jornal da USP

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“O projeto não estava estruturado assim: ‘hoje vocês vão fazer isso, amanhã vão fazer aquilo’. Alguém propunha alguma coisa, a gente pesquisava e fazia uma oficina. E em cima disso surgia outra ideia e assim por diante. O pessoal do Instituto Arte na Escola [que organiza a premiação] teve até alguma dificuldade em fazer o documentário, porque o projeto não teve uma sequência didática convencional”, explica a professora.

Confira o vídeo do projeto:.

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Oficinas

Nas atividades realizadas dentro do semestre, as 13 crianças do grupo Cupuaçu (na creche os estudantes de uma mesma faixa etária são divididos em grupos) imergiram profundamente no mundo e na cultura africana e indígena.

Tiveram oficinas de danças como capoeira e jongo, provaram comidas nigerianas preparadas por uma cozinheira do Hospital Universitário (HU) da USP, e aprenderam jogos como o Tsoro Yematatu, que tem origem no Zimbábue e traz elementos matemáticos na sua resolução. Além disso, entraram em contato com o grafismo das roupas e tecidos do continente africano por intermédio de duas avós de crianças da creche.

Para a professora da Creche Central, o grande legado que o projeto deixou foi possibilitar que as crianças olhassem para o diferente  e buscassem a humanidade do que enxergavam. “Em muitas imagens que mostramos, as crianças africanas estão descalças, em ruas não asfaltadas e com roupas muito simples. Apesar disso, em nenhum momento desse projeto isso foi maior do que a beleza daquilo que elas estavam fazendo ou brincando”, aponta.
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Foto: Reprodução/Prêmio Arte na Escola Cidadã
Um dos diferenciais do projeto foi a colocação das crianças como protagonistas – Foto: Reprodução/Prêmio Arte na Escola Cidadã

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Sem precisar pensar muito, Janeide consegue exemplificar casos que ocorreram durante e após o projeto que demonstram o quão eficaz em inserir as crianças na realidade sociocultural africana e indígena ele foi. Casos como o de uma criança que decidiu fazer a festa de aniversário com o tema Michael Jackson, já que ele foi o “único que chegou perto de aprender a dançar como as crianças da África” e outra que declarou em uma oficina no Sesc que sonhava em conhecer a Nigéria quando crescesse, já que “lá as crianças sabiam brincar com areia”.

Casos também como o do pequeno Márcio*, que era tímido no começo do semestre, mas que ao ver seus colegas se encantando com a sua realidade cultural passou a “viajar” nas atividades. “Quando trouxemos a oficina de jongo, ele sabia tudo, porque a mãe dele fazia parte de um grupo da dança. A partir disso, os desenhos dele mudaram, a disposição para brincar mudou. Foi umas das poucas vezes na qual em um grupo meu não houve questões de desconforto em relação ao colega por ele ser diferente”, conta a professora.
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Foto: Reprodução/Prêmio Arte na Escola Cidadã
Além de danças, comidas e a cultura, as crianças também entraram em contato com o grafismo africano – Foto: Reprodução/Prêmio Arte na Escola Cidadã

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Creches da USP

Apesar de ter sua função nomeada como “técnica de apoio educativo”, Janeide faz efetivamente um trabalho de professora de educação infantil. A trajetória da educadora premiada no 17º Prêmio Arte na Escola Cidadã começou em 1992, quando ela iniciou seus estudos no Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério (CEFAM) de Itanhaém. Concluiu os estudos em 1995 e já no ano seguinte começou a trabalhar com educação infantil. Alguns anos depois, iniciou a graduação em pedagogia na PUC-SP, finalizando-a em 2009.

Os mais de 20 anos de experiência com educação infantil permitem a Janeide afirmar a relevância do trabalho feito dentro das creches da USP. “Não só na Creche Central, mas toda a rede tem um trabalho de excelência em qualidade de educação infantil. Parece um discurso pronto, mas isso é a verdade”, explica a professora.
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Foto: Reprodução/Prêmio Arte na Escola Cidadã
Janeide mostra fotos da África para as crianças da creche – Foto: Reprodução/Prêmio Arte na Escola Cidadã

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Segundo ela, além do conhecimento produzido junto com as crianças, as creches da Universidade são ponto de peregrinação de mestrandos e doutorandos que vêm aplicar as suas pesquisas no ambiente. Além disso, estudantes de toda a USP realizam trabalhos de observação nas creches.

“São estudantes não só da Faculdade de Educação, mas alunos de fonoaudiologia e fisioterapia, de nutrição, de psicologia, de história, de geografia, da veterinária e até da arquitetura, que analisam o desenho arquitetônico da creche, por exemplo. Mesmo sem isso ser oficializado, as creches atuam no tripé que alicerça a Universidade, que é ensino, pesquisa e extensão”, aponta.

A rede de creches da USP que Janeide menciona é composta por outros quatro centros de educação infantil, além do Central: a Creche Oeste, também no Campus do Butantã; a Creche de São Carlos; a Creche da Carochinha, em Ribeirão Preto; e a Creche da Saúde, localizada na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP. Todas elas são destinadas a atender a comunidade USP, que inclui os alunos, os funcionários e os docentes. As creches da USP são coordenadas pela Superintendência de Assistência Social (SAS) e são gratuitas.

 

*O nome da criança foi alterado para preservar a sua privacidade

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